Como surgiu o nazismo (o daqui foi felizmente abortado) – Parte 3, final

O grande momento que marcaria o surgimento localizado das teses daquele grupo de pessoas que se auto intitulava nazista ocorreu durante um putsch (invasão armada com violência) na cervejaria Burgebräukeller de Munique onde estavam reunidas as principais autoridades do governo da Baviera.

Nada mais era do que uma ação militar de tomada do poder estadual da Baviera (os Estados tinham relativa autonomia) que foi sufocada pela polícia da cidade de Munique e que resultou na morte de 16 militantes, no ferimento à bala de outros, e prisão dos líderes do movimento.

Entre os feridos estava o herói da primeira guerra, o aviador Hermann Göring, que conseguiu fugir para a Áustria e por lá ficou até que os acontecimentos se acalmassem ou tomassem outro rumo. Foi na convalescência da doença e para minimizar as dores causadas pelos ferimentos que Göring se viciou em morfina, tormento que o acompanharia pelo resto dos seus dias.
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Hermann Wilhelm Göring (Rosenheim 12.01.1993 – Nuremberg 15.10.1946 – 53 anos) um dos fundadores do partido Nazista, havia sido piloto durante a primeira guerra mundial na qual se destacou como às da Aviação recebendo a cobiçada condecoração Pour le Mérite. Com a ascensão do nazismo ao poder em 1933 criou a temida Gestapo, grupamento policial militar e de informação. Em 1935 foi nomeado Comandante em Chefe da Luftwaff, a Força Aérea Alemã, cargo que manteve até o final da segunda guerra mundial em 1945. Em 1940, Göring encontrava-se no auge do seu poder e influência; como ministro encarregado pelo Plano Quadrienal, ele era responsável por uma grande parte do funcionamento da economia alemã na preparação para a Segunda Guerra Mundial. Adolf Hitler promoveu-o ao posto de Reichsmarschall, o mais elevado em relação aos outros comandantes da Wehrmacht e, em 1941, Hitler nomeou-o como seu sucessor e assessor em todos os gabinetes. Com o insucesso da Força Aérea no bombardeio à Inglaterra, perdeu prestígio junto a Hitler, mas continuou com forte influência em todo o decorrer da guerra. Nos últimos momentos da Guerra enviou uma carta ao Bunker de Hitler pedindo a sua indicação como substituto do Fuhrer que, indignado, o destituiu das honrarias e decretou a sua expulsão do partido nos momentos finais do 3º Reich. Preso, foi condenado à morte pelo Tribunal de Nuremberg, e cometeu suicídio de 15.10.1946 ingerindo uma capsula de cianureto.
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Entre os presos estavam Adolf Hitler e Rudolf Hess, que compartilharam a mesma cela. Após o desespero da prisão e desmantelamento do movimento nazista Hitler pensou em se suicidar. Entretanto, com o passar do tempo, e o aprofundamento da penúria do povo alemão, Hitler começou a perceber que muitos alemães insatisfeitos, passavam a ver um certo estoicismo naqueles militantes corajosos e violentos, ainda que arbitrários e policialescos.

No seu julgamento Hitler usou a própria defesa como libelo acusatório contra os que o prenderam, e com isto granjeou a simpatia de muitos dos próprios julgadores e da plateia, conseguindo uma pena bem menor que a esperada (que inicialmente poderia ter sido de pena de morte): apenas cinco anos, dos quais cumpriria apenas um ano, libertado em 1924.

Na cadeia, ajudado por Rudolf Hess, escreveu o que seria a bíblia do nazismo, um monte de ideias absurdas (antissemitas, homofóbicas, misóginas, e totalitárias por excelência) mas que pereciam redentoras para os angustiados alemães daquele início de século XX: Mein Kampf (Minha Luta), e que para muitos de hoje atingidos por uma amnésia histórica tentam reintroduzi-la nas sociedades atuais tomadas pela depressão econômica tal qual ocorreu na geração do nazismo.
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Rudolf Walter Richard Hess (Alexandria – 26.04.1894. Berlim – 17.08.1987) Foi um dos fundadores do Partido Nazista. Com a ascensão do nazismo em 1933, ele que desde as primeiras horas esteve ao lado de Hitler como admirador e incentivador foi nomeado vice-Führer em 1933 e ajudou a desenvolver todas as teses nazistas de governo daí em diante. Contrário à guerra com a Inglaterra, país pelo qual nutria certa simpatia, e visivelmente perturbado psicologicamente com a pressão da guerra e a constante intriga de busca de poder do núcleo duro nazista junto a Hitler (da qual estava sendo alijado), escreveu uma carta a Hitler justificando sua viagem aérea solitária à Inglaterra pensando em ser recebido por Winston Churchill e negociar uma trégua. Desceu na Escócia de pára-quedas, e sem poderes de Hitler para tal intento, não foi considerado interlocutor habilitado. Preso e humilhado, fracassou na tentativa de suicídio se atirando de um vão, e permaneceu preso até o fim da sua vida. Condenado à prisão perpétua pelo Tribunal de Nuremberg, viveu até 15.08.1987, na prisão de Spandau, Berlim, onde cometeu suicídio aos 93 anos de idade.
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​Hitler, após a sua libertação, juntamente com a cúpula do partido nazista, observaram que podiam aliar os ideais de resgate do orgulho do povo alemão que sofria com a depressão econômica (em 1923 o marco alemão perdera totalmente o valor, e a inflação atingiu patamares insuportáveis e a moeda alemã era transportada em sacos e nada valiam) e o desemprego com discursos inflamados e simbologia ostensiva (fardamentos paramilitares e suástica), mas concorrendo aos cargos eletivos.

​Embora o partido nazista não tenha obtido sucesso na eleição de 1925, quando obteve apenas 1,1% dos votos, e insignificantes vagas no Reichstag, o parlamento alemão, continuou com a cantilena que atribuía a penúria alemã aos judeus e à socialdemocracia que havia traído o povo alemão e celebrado o draconiano Tratado de Versalhes.

​Por esta época a Alemanha ultrajada denotava forte simpatia pelo marxismo-leninismo, e o KPD – Partido Comunista da Alemanha – tinha muitos simpatizantes. O nazismo, ainda que se intitulasse socialista e criticasse o capitalismo internacional que considerava como fruto da uma conspiração do judaísmo mundial, e exaltasse a defesa dos trabalhadores alemães, bandeiras do chamado comunismo stalinista de então, paradoxalmente, dizia ser o seu oposto, e considerava os comunistas como os seus mais ferrenhos adversários, posto que disputava com estes a mesma faixa de prestígio eleitoral.

​O nazismo, que nascera e conservara entre outros princípio doutrinários a ideia da necessidade do espaço vital (liebensbaun), que julgava necessário aos seus planos megalomaníacos de germanização do mundo, nutria como meta básica a ser desenvolvida a expansão para o leste europeu de olho nas riquezas minerais da Rússia e adjacências.

​A raça ariana, descendente dos celtas, considerava-se superior à raça eslava do leste europeu, a quem considerava inculta e pouco desenvolvida economicamente, e ainda presa a uma vida campesina e rude. Este foi um erro essencial de avaliação que viria a ser catastrófico num futuro próximo.

Uma vez liberto (passou apenas um ano na cadeia) resolveu remodelar as diretrizes de seu partido incorporando diretrizes do fascismo, noções de disciplina rígida e a formação de grupos paramilitares. Adotando uma teoria de cunho racista, Hitler dizia que o povo alemão era descendente da raça ariana destinada a dominar o mundo e empreender a construção de uma nação forte e próspera. Para isso o nazismo veta a diversidade étnica em seu território, que perderia suas forças produtivas para raças descomprometidas com os arianos.

No campo político, o partido de Hitler era contrário à definição de um regime político pluripartidário, ainda que fosse em razão do pluripartidarismo que disputava eleitoralmente o poder político.
Considerava que a diferença ideológica dos partidos somente servia para a desunião de uma nação que deveria estar engajada em ideais maiores. Dessa forma, as liberdades democráticas deveriam ser vetadas em favor de um único partido liderado por uma única autoridade (no caso, Hitler), que estaria comprometido com a construção de uma nação soberana e que buscasse a hegemonia econômica e étnica. Entre outras coisas, Hitler defendia a construção de um “espaço vital” necessário para a nação ariana cumprir seu destino.

O ideário nazista, prometendo prosperidade e o fim da miséria do povo alemão, alcançou grande popularidade com a crise de 1929. Os nazistas organizavam grandes manifestações públicas onde os ataques doutrinários e físicos ocorriam por onde passavam, sejam aos judeus (lojas eram saqueadas ou incendiadas), aos homossexuais (bares de gays eram incendiados e seus donos compulsoriamente obrigados a vender seus estabelecimentos por preços vis, para não serem espancados e mortos sem nenhuma punição), ou aos comunistas e democratas, com discursos que eram sistematicamente repetidos como um mantra; uma doutrina baseada no ódio.
Prometendo o fim das imposições do Tratado de Versalhes, os nazistas pareciam querer para o povo alemão tudo que ele mais precisava, e em pouco tempo, com apoio popular, grupos empresariais financiaram o Partido Nazista e seu poder e ação absolutista.

Como vimos, nas eleições de 1933, o partido tinha alcançado uma vitória expressiva que se manifestou na presença predominante de deputados nazistas, ocupando as cadeiras do Poder Legislativo alemão. No ano de 1932, Hitler, que perdera as eleições presidenciais para o Marechal Hindenburg, conseguiu, no ano seguinte, 1933, diante das pressões da crise econômica alemã, ser indicado como Chanceler.

Sitiado, Hindenburg finalmente cedeu e convocou Hitler para ocupar a cadeira de chanceler, para em pouco tempo, após a morte do Marechal Presidente, Hitler conseguir empreender sucessivos golpes políticos que lhe deram o controle absoluto da Alemanha e se tornar o Führer Supremo, superior a todo e qualquer poder que se lhe contestasse.

​O resta da história nós já sabemos como terminou.

​Há muitas semelhanças com o que ocorreu no Brasil desde 2013, com reflexos graves em 2018, mas, felizmente, o Brasil e capitalismo na sua fase de declínio já não comportam fantasias tresloucadas de tiranos primários.

​Mas 2022 e os anos seguintes, prenhes de crises econômicas e climáticas, prometem muitos rebuliços. Aguardemos.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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