COMO SUPERAR A IMOBILIDADE?

Uma das consequências da pandemia, além dos casos fatais, que no Brasil atingem a tragédia de 400 mil óbitos, é a desarticulação de ações em grupo em virtude das medidas de distanciamento necessárias como tática de bloquear a velocidade do avanço da infecção. Este não-estar-com-osoutros pode gerar nas pessoas um tipo de ansiedade ou mesmo depressão por não saber o que fazer agora  para manter vivas as articulações passadas. Todavia, ao mesmo tempo, este contexto de isolamento parcial nos permite estacionar para refletir e pensar mais pausadamente.

Isso faz lembrar Paulo Freire com o seu ensinamento sobre as leituras da palavra e da vida. Para o Mestre, toda leitura da palavra escrita vem precedida de certa leitura do mundo, certa forma de ver a realidade. Com o aprendizado empreendido por meio da leitura das palavras, somos remetidos uma vez mais a releituras do mundo. Essas releituras são portadoras de possibilidades capazes de abrir novos caminhos que antes não estavam sendo percebidos.Ou seja, a releitura, ao tornar-se mais crítica que a primeira leitura, permite-nos enxergar mais, ampliando o processo de compreensão crítica de como a sociedade funciona. Leitura e releitura da história – passada e presente – são fundamentais para podermos redescobrir ou elaborar novas palavras e com estas construir novas realidades.

Numa entrevista em junho de 2001 concedida ao Instituto Polis, por ocasião do Fórum Social Mundial, o geógrafo brasileiro Milton Santos colocou em destaque a necessidade de olharmos as cidades contemporâneas como objeto de análise. Há uma tendência dos políticos em geral – tanto de esquerda como de direita – de não analisar o fenômeno urbano. Estes políticos se apresentam como portadores de soluções preconcebidas, deixando à margem o conteúdo dos estudos sobre as cidades que se fazem necessários.

Para Santos, nós estamos vivendo em outro período histórico, mas infelizmente a visão tradicional trata o presente como se fosse o passado. Dessa forma, nunca será alcançado o futuro. E esse é o drama que vivemos. As perguntas que são feitas são sempre perguntas tradicionais, expressando as mesmas velhas posições, sem imaginação, sem uma preocupação com o planejamento urbano. Para romper com essa imobilidade é preciso romper com os preconceitos que nos impedem de pensar a partir dos materiais que a história nos oferece.

Faz-se necessária a mobilização dos grupos populares a partir das leituras do momento histórico que estamos vivendo, no qual a realidade da pandemia veio escancarar a violência sistêmica que o capitalismo financeiro vem impondo de forma crescente às populações, não conseguindo mais manter a mistificação da realidade pela qual as desigualdades e antagonismos de classe eram ocultados. Por exemplo, no Brasil, graças aos vultosos lucros obtidos com a pandemia, novos bilionários brasileiros adentram o restrito grupo seleto, enquanto milhões de adolescentes e jovens da escola pública padecem por não ter acesso à internet para realizarem seus estudos, ou ainda cerca de dezenas de milhões de pessoas vivem sob a ameaça de insegurança alimentar.

Essas exigências históricas precisam redefinir o lugar de uma nova cultura a partir de uma verdadeira reforma intelectual que só pode ser pensada a por meio da vivência de novas práticas relacionais da vida social em substituição às práticas societárias vigentes na ordem capitalista. Implicam um aprendizado profundo dos novos desafios e das novas oportunidades que o tempo presente está a indicar.

A solidariedade recíproca reapresenta-se hoje como um caminho fundamental para o enfrentamento da violência estrutural do sistema capitalista. A pandemia veio atestar que não há como salvar-se sozinho. Somente com a renovação de laços sociais forjando surgimento de pequenas, médias e grandes estruturas que alimentem e reproduzam as solidariedades humanas será possível construir um futuro diferente do presente violento e individualista a que estamos submetidos, que nos afeta a todos, tanto em nossa esfera psicoemocional como socioeconômica e socioambiental.

A solidariedade no mundo do trabalho já produziu e continua sendo uma força capaz de produzir mudanças profundas, além de permitir uma tomada de consciência mais clara e mais comprometida dos trabalhadores com sua organização e defesa dos direitos trabalhistas, bem como com a justa distribuição dos bens materiais e culturais produzidos socialmente.

Para se realizar a justiça social em um mundo globalizado, é preciso que novos movimentos de solidariedade dos trabalhadores e trabalhadoras assumam seu protagonismo na luta contra a violação da dignidade humana a nível planetário. Como acentua o documento de 1981, “Laborem Exercens, de João Paulo II: “o princípio da prioridade do Trabalho humano em confronto com o Capital”, verdade evidente que resulta da experiência histórica humana.

Outra palavra que ocupa lugar central na construção do novo é participação popular, elemento estratégico no processo de redefinição de uma cultura democrática, por meio de novas sociabilidades estimuladoras do desenvolvimento de consciências críticas na releitura da realidade.

No Brasil, com a Constituição de 1988, os municípios surgiram no terreno institucional como novos entes federativos, por meio do ganho efetivo de autonomia política, para decidir sobre o processo de implementaçãode políticas públicas. Essa mudança orientou-se pelo interesse em tornar mais amplos os direitos sociais e de cidadania, tendo como perspectiva a participação social nas ações dos governos. A participação além de permitir uma maior consciência política, apresenta-se como um forte mecanismo de repartição de responsabilidades, fazendo com a democracia seja percebida como uma elaboração de todos os membros da civitas.

Com o Golpe de 2016, o processo participativo popular brasileiro foi intencionalmente interrompido pelo Capital e seus asseclas. É preciso, portanto, retomar e aprimorar a experiência participativa iniciada em 2002 com a realização das Conferências municipais, estaduais e nacional; com os experimentos do Orçamento Participativo; com a ampla atuação dos Conselhos de políticas públicas. As consequências do Golpe estamos sofrendo na pele com a carestia, o aumento do desemprego, o ataque aos direitos sociais, o esfacelamento do patrimônio público, a entrega do interesse nacional nas mãos dos EUA. É preciso mobilizar-nos intensamente para retomar o rumo de nossa história e de nossa soberania.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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