COMO SE DIZ ADEUS A UM AMIGO?

Como alguém que mergulhou em uma piscina de autoindulgência, e passou um ano atordoado, estou recém saindo do estado de torpor. Tenho 47 anos e a vida havia me preparado, com sobras, para lidar com as desilusões, com os rompimentos de juras sacramentais antes de conclusos 12 anos de relação, com o desamor e indiferença, com a desesperança no ser humano etc. Só não estava preparado para ver partir um colega querido de forma tão repentina. Estou falando do Carlos Perdigão.

Este percurso de um ano de sua ausência (completos neste 02 de julho de 2022) tem sido muito duro econômica, política e socialmente. Em momentos assim a falta dos amigos torna-se aguda e intolerável. As assombrações persistem, mas os amigos reais desvanecem. A última vez que nos falamos (dias antes do seu falecimento), conversávamos sobre os textos do nosso livro coletivo, “A arte em estado crônico” (Editora Sarau das Letras, organizado por Heliana Querino e com Osvaldo Euclides como mentor intelectual e incentivador). O livro conta, além de nós dois, com os excelentes Jair Cozta, Sérgio Costa e Duarte Dias. Nessa conversa Perdigas me elogiava os textos e falava “Renatão! Como a escrita nos revela, não é meu camarada?”. Nunca sabemos quando será a última vez que falaremos com alguém. Depois que partiu, fiquei pensando no carinho do cara. Lera nossos textos em um leito de hospital e os elogiava antes de morrer. Amigos são assim.

Perdigão foi uma figura essencial para o projeto deste livro (último projeto em que eu e ele participamos juntos). Embora fruto de um esforço coletivo, tanto na escrita, editoração e publicação, “Arte em estado crônico” deve muito ao Carlinhos. Nós devemos muito a ele. Foi justamente quem mobilizou a “turminha” (como ele gostava de falar), principalmente nos momentos mais delicados da crise sanitário-política da Covid-19. Era ele quem nos atiçava, ligava para um e para outro, mantendo o sonho do livro vivo. Era comum receber ligações dele no meio de tardes vazias. Sim, ligações telefônicas! Esse costume tão extemporâneo. Perdigão era um cara de contato, de elos humanos. Gostava de definir-se como “Arte Educador” e por essa atividade criou uma legião de alunos que amavam seu trabalho. Talvez tenha sido a pessoa com o maior senso de autopromoção que conheci. Perdigão se levava muito a sério. Por isso, às vezes, até lhe fazia troça. Não que fosse um profissional que não soubesse rir de si mesmo (coisa importantíssima em minha avaliação). Carlinhos apenas sabia o preço do sacerdócio da arte e da docência no país e região em que vivemos. As paredes de seu apartamento, no velho edifício Bagatelle, eram apinhadas de fotos, matérias de jornal emolduradas, entrevistas, desenhos e maquetes de bateria (seu instrumento e sua paixão). Ao olhar desavisado pareceria uma espécie de galeria de arte. O “ponto”, entretanto, do Perdigas não era um vazio deleite narcisista. Atribuo aquilo a um respeito com a própria obra. “Renatão, a gente tem que se valorizar, bicho!”. Perdigão vivia a arte, pagava um preço alto pela dedicação e investimento. Por isso mesmo aprendeu a dar valor às próprias conquistas. Como o impecável CD “Palavra”, primeiro de um baterista cearense e fruto de grande esforço e dedicação.

Mas o que eu achava mais curioso no seu temperamento era que ele não esquecia de ser generoso: não gostava de brilhar só. Vejo nisso grandeza, um tipo cada vez mais raro. Isso ficou claro não só no projeto do seu CD e do livro (quando notava-se que muitas vezes ele era o cara a pensar no coletivo, arregimentando dispersões e motivando entropias) como também em outros projetos nos quais tive a sorte de participar junto a ele.

Trabalhamos por anos em uma faculdade particular no bairro Damas. Perdigão era aquela pessoa com quem se podia contar. Não fazia exigências. Gostava de ver seu trabalho valorizado, mas sabia que a arte em nosso contexto guarda boa dose de abnegação. Aliás é assim que conhecemos os amigos de verdade, aqueles com quem podemos contar. No processo do livro alguns “amigos” nos deram as costas ou fingiam ajudar. Com o Perdigas você podia contar “valendo”. Era um legítimo soldado da arte. Quando o chamei para o projeto FAC in Concert (uma espécie de aula-show, aos sábados, que oferecia aos estudantes do lugar interpretações ao vivo de músicas representativas do contexto cultural-político brasileiro, mescladas com análises das letras e maravilhosos debates), Perdigas aceitou na hora, mesmo sem nenhum (ou quase nenhum) incentivo fosse financeiro, acadêmico ou administrativo. As músicas eram executadas por nós, professores e também alunos vinculados ao projeto. Havia ainda projeções de clipes, trechos de documentários, entrevistas. Carlinhos agia como um apresentador de auditório com um talento nato. Parece que o estou vendo agora com um microfone sem fio na mão, feliz da vida, instigando a participação e o debate da “turminha”. Fazíamos aquilo por amor à arte, à docência e aos estudantes. Tempo passado eu reconheço o esforço daquele sujeito que atravessava a cidade levando um instrumento pesado para viajar no sonho de outro colega. E sem ganhar absolutamente nada por isso.

Perdigão era um cara admirável. Só após sua morte, infelizmente, tenho me dado conta do seu tamanho. Aquele cara que topava tocar comigo por puro amor, já tocara com meio mundo de excelentes músicos, tanto cearenses como de expressão nacional. Mea culpa, eu o devia ter valorizado mais. Porém, se estivesse mais inteirado da sua grandeza à época, talvez, por timidez, não o tivesse convidado para fazermos atividades juntos. Muitos têm se juntado para homenageá-lo. Grandes figuras, principalmente da música, que conheciam o cara e sabem na pele a falta que ele faz. Muito justo e oportuno.

Nunca o vi triste, pessimista ou emburrado. O cara era sempre “de boa”, sempre sorrindo com uma calma quase fleumática, mas nunca blasé. Parecia viver num mundo sem pressa. Parecia viver em um mundo onde arte e educação são respeitadas. Amante das letras, da música e das mulheres. Um sedutor incorrigível, com uma risada marcante. Um cara muito gente boa, para quem a vida teima em não nos ensinar a dizer adeus.

Adorava chocá-lo com minhas idéias polêmicas quando ele me ligava no meio das tardes vazias. Certa vez disse a ele:
– Perdigas, você sabe qual é a pior droga que existe? A juventude, cara! É! Veja bem: é altamente viciante, faz a gente fazer besteiras, faz com que nos creiamos imortais e, pior de tudo, tem uma duração extremamente curta, sempre acabando antes do que esperamos.

Perdigas ria, ficava chocado, mas nunca impassível. Sempre entrava no debate, por mais filosófico ou absurdo que fosse.

Deus, como esse cara me faz falta!
Meses atrás sonhei com ele. Estava sob uma laje em meio a um descampado. Eu falava algo com ele e ficava surpreso por estar “vivo” ali, falando comigo. Pouco depois ele se afastava e ia para onde eu não tinha acesso. Sua esposa, então, veio falar comigo:
– “Dani, o que está acontecendo? Não estou entendendo.”
– “Renato, ele ainda não sabe que desencarnou. Por favor, não o deixe saber disso agora! Será muito duro para ele.”

Então, no decurso deste um ano ainda não cheguei a uma resposta satisfatória para a pergunta: Como se diz adeus a um amigo? Com este texto, precário, atrasado e simplório, queria apenas sair do torpor e expressar meu bem querer por alguém que faz falta e que, por vários motivos, acho que nunca deixei claro para ele o quanto era querido. Queria somente para expressar minha gratidão e fazer uma parca homenagem, dentro do meu nível, para essa figura tão especial. Com isso vai uma sugestão minha a quem lê (tenha ou não conhecido Carlinhos Perdigão). Tal sugestão embora kitsch, cafona ou piegas guarda algo fundamental das relações humanas. Fale algo, dê um abraço, expresse seu sentimento gratuito para um amigo verdadeiro que esteja ao seu lado, ou mesmo distante. Faça isso hoje mesmo, antes que seja tarde. O humano que se envergonha dos próprios sentimentos está em contradição com a própria essência.

Aprendi, anos atrás, que o idioma alemão tem palavras para diferenciar um simples tchau ou até logo (tschüss ou auf wiedersehen) de um adeus “de verdade”. Pois bem, essa palavra é, justamente, lebewohl. Uma despedida mais brutal e definitiva. Faço então, meu camarada, minha despedida de ti com profundo anelo de que estejas bem. Que teus familiares, admiradores e amigos possam encontrar o conforto e a alegria de viver como um tributo que pagam a ti, em aprendizado. Fico com a letra de “Até mais ver”, do meu também amado Belchior, pela qual me expressei quando soube de sua partida. Até mais ver… até mais ver meu Camarada! Lebewohl!

“Até mais ver, até mais ver, meu camarada.
Contigo em mim e ainda em ti, vou indo em dois.
Qualquer distância entre nós, tornada em nada,
Só assinala um novo encontro pra depois.
So long sem gesto, um bye ao léu… Não digas sorte!
Não fale adeus que enruga o olhar mais compassivo.
Se, sob o sol, nada mais velho e vil que a morte,
Quem viu, na vida, novidade em estar vivo?”

Renato Angelo

Mestre em políticas públicas, professor universitário, pesquisador, poeta e contista

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1 comentário

  1. Gertrudes Costa Sales

    Impossível dizer Adeus a Perdigao. Tão querido, amigo e eclético. Pesquisador, sempre mantivemos um grande contato. Só um artigo como esse para contar momentos e grandes momentos. Ele está em nós. Por tudo que fez e como fez.

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