COMO LIBERTAR O PENSAMENTO? por Alexandre Aragão de Albuquerque

Ontem na saída para o trabalho encontrei-me com meu vizinho Gabriel, um jovem de 18 anos, aluno do primeiro semestre de teologia. Para surpresa minha ele me relatou a novidade de haver trancado o curso e iniciado um aprendizado em confecção de alimentos. Curioso, perguntei-lhe qual razão. Respondeu-me que essa mudança de lugar era um exercício para ajudá-lo a libertar o pensamento. Fiquei sem entender. Despedimo-nos, mas a pulga ficou atrás de minha orelha.

Agimos como pensamos; ao mesmo tempo, o nosso agir retroalimenta nosso pensar. De fato é preocupante pensar o Brasil do tempo presente elegendo com 57 milhões de votos válidos, dos quais nas regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste esse percentual chegou a quase 70% dos votos, para o comando do país, com o apoio de setores das Forças Armadas, de todo o Capital Financeiro e Rural, de vários setores da Igreja Católica e Evangélica, da Rede Globo e coligadas, um candidato que se apresentou abertamente como entreguista, racista, machista, autoritário, censor, defensor da tortura e de uma cultura bélica, ligado às milícias e homofóbico, além de utilizar estruturalmente a mentira em seus pronunciamentos. Para efeito de ilustração, num episódio bizarro, recentemente, em entrevista coletiva no Palácio do Planalto, afirmou que a corrida de Fórmula 1 no Brasil, a partir de 2021, será sediada no Rio de Janeiro, sendo imediatamente desmentido, em rede nacional, pelo CEO da competição, Chase Carey. No dia 05 passado, ao insinuar propensão para a liberação do trabalho infantil, mentiu mais uma vez ao dizer que havia trabalhado quando criança aos 10 anos de idade. A mentira é sua marca determinante.

Essa constatação nos impõe a tarefa de perguntar: que realidade foi encoberta pela eleição de um candidato com estes atributos?

O filósofo francês Alain Badiou, em sua brilhante análise da ação do apóstolo Paulo, destaca que todo o pensamento paulino visa a uma teoria do inconsciente subjetivo estruturada pela oposição vida/morte. Ao impor uma proibição, a Lei aprisiona o pensamento a uma conformidade na qual o agir está separado do pensar. Age-se conforme a regra. Essa regra é superdimensionada pela estrutura de poder que por meio de suas instituições a fortalece continuadamente, tanto pela propaganda como pela repressão, acarretando que nenhuma estrutura moral – se nós entendermos moral como obediência à prática de uma Lei – pode justificar a existência de um Sujeito pensante: a Lei viva implica um Sujeito morto. Teria sido esse cenário que vimos a partir de 2013 desaguando no Golpe de 2016? Uma articulação de Poder que impôs novo Regramento, gerando novas conformidades?

Segundo Badiou, o pensamento só pode ser libertado de sua impotência por meio de alguma coisa que exceda sua ordem. O autor entende que, para Paulo, somente por meio de uma “operação” insubstituível capaz de reorganizar a morte e a vida nos seus lugares, mostrando que a vida não ocupa necessariamente o lugar da morte. Essa operação chama-se ressurreição. A ressurreição implica uma nova fé juntamente com uma nova militância. O Sujeito vivo deve determinar-se não apenas em seu surgir, como também em seu labor. O amor é o labor do qual a fé é capaz. A fé se mostra eficaz pelo amor. Assim descobre-se que nossa energia não é contra a verdade, mas para verdade. Uma energia só pode ser verdadeira se levar em consideração toda a humanidade, sem exceção.

Como acentua Paulo, de forma magnífica, “não vos conformai com se século presente, mas sede transformados pelo renovamento do vosso pensamento”. Não se trata, portanto, de se retirar do século; é preciso viver nele e com ele, como diria Paulo Freire, mas sem deixar-se conformar. O pensamento não espera e jamais esgotou sua reserva de força, a não ser para quem sucumbe no profundo desejo de conformidade, que é a via da morte. Assim, esperar não serve para nada. É fundamental agir.

 

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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