Como alcançar a imortalidade na placa das ruas

Como retirar alguém da condição ignóbil de “sem rua” e dar-lhe logradouro conveniente

Se essa rua, se essa rua fosse minha,

Eu mandava, eu mandava ladrilhar…”,

Canção popular, autor desconhecido.

Aproveitando o recolhimento da pandemia, saí no meu carro, na companhia de meu neto, em busca de novas descobertas pelas ruas desertas. Assegurei-me que o GPS estivesse ligado, louvado em experiência recente quando à falta de placa nos muros por pouco não me perdi nesta adorável cidade.

Nestes anos recentes, Fortaleza crescera, os bairros incharam, a pobreza esquivou-se para as beiradas da cidade e os bem amealhados ocuparam condomínios e moradas distintas pelo Meireles, na Água Fria e espraiadas pelas dunas.

Sabem os bem informados pela ciência da geografia e da demografia que, de um modo geral, as cidades expandem-se para os lados do nascente. Seus moradores são os primeiros a desfrutarem dos raios matutinos e ainda lhes sobra o privilégio de assistir o pastel sanguíneo do anoitecer. Com o sol descendo mar adentro. Em Fortaleza, as dunas abrigaram esses privilegiados, o resto foi posto para os lados do sertão e para as lonjuras do poente. A sorte dos indivíduos está ligada, acreditem-me, aos caprichos da geografia, sem falar na imposição imperiosa de fatores geopolíticos. Tanto quanto prometem as cartas, manolita. Mas não é dessas coisas abusadas que trataremos nesta breve incursão pela teoria das ruas da cidade de Fortaleza.

Então. Nestes últimos vinte anos, quando troquei o Meireles pelo Leblon, com perdas e ganhos assinalados, Fortaleza tomou ares metropolitanos, esparramou-se pelos terrenos outrora vazios de ocupação, embora já com registro de propriedade passada por tabelião idôneo ou assim parecido, que cearense não brinca em serviço. Vencidos os prazos da Criação, são os primeiros a chegar. Enfiam as estacas e com pouco já têm as escrituras à mão. Cearense é posseiro de nascimento, da mais recuada ancestralidade.. As terras do Ceará-grande foram se estendendo, desde as capitanias, por si hereditárias, por simples adjudicação de espaços devolutos, logo chamados bens imóveis.

Vi-me por vezes perdido pelas ruas, avenidas e vielas sem placas visíveis, porém já devidamente apropriadas por algum vereador e batizadas com nome de algum ilustre desconhecido. Poucos conhecem a desventura de parar o carro em um cruzamento e não encontrar uma única placa à mostra e, quando interrogado, o passante casual confessar ignorar em que rua está a andar…

Experiência mais constrangedora iria colher em companhia do meu neto Thiago, sempre vigilante. Desfilaram por nós vimos ruas e avenidas com nomes jamais lidos e supostos, a não ser nas páginas das listas telefônicas, prontuário caído em desuso.

Nesta cidade tentacular, as placas primam por serem poucas e dissimuladas, escondidas entre troncos de árvores e galhos. Não suponham, por esse aparente desapreço à flora urbana, que nada me falta para compor a imagem do velho fascista, engajado aos aliados do corona vírus. Nada contra o fícus benjamina, tampouco contra as castanholeiras. Insurjo-me contra a ausência de placas. Só isso. GPS sem placa de rua é como sextante sem estrelas.

Sabe-se que um certo Rodrigo foi padre em vida, o nome na placa atesta essa condição, ninguém haverá de contestar. Há sargentos e frades, médicos em quantidade que bem merecem esse privilégio; inúmeros, jornalistas em quantidade, desembargadores, ilustres, uns, desconhecidos e a sua ciência jurídica, ignorada. Outros, exegetas praticantes, merecedores de todas as vênias. Data vênia. Militares reformados, na maioria, da polícia militar, que das outras armas apenas as patentes mais elevadas são consideradas pela burocracia designatória das glórias outorgadas. Professoras e professores, que agora não se pode discriminar os gêneros, todos e todas merecedores e merecedoras (ufa!) de todas as honras e deferências, pois não.

Percebe-se uma evidente divisão social de classes e profissões na distribuição das glórias que traz uma placa prosaicamente pregada a um muro.

As patentes mais elevadas estão na Aldeota, Água Fria e arredores. De sargento para baixo, tornaram-se logradouros no Alagadiço, J. Macedo, Maraponga e nos seus entornos. A precedência vale, também, para o clero. Bispos, Aldeota. Padre secular e frade, irmã de caridade, pastor evangélico, Montese ou pros lados da Aguanambi… Raros são os homenageados com folhas corridas pontuadas com vistosas realizações, ou pelos gestos e intenções ou pela modéstia e o recato de muitas virtudes. A maioria enquadra-se na categoria de homenageado desconhecido.

Há nomes dados a pontes e elevados, reservados para aqueles que não dispunham a seu favor um vereador diligente, aprovisionado de um bom lote de ruas e avenidas, reservadas para os de maiores merecimentos.

O reitor Martins Filho, certamente a figura mais preeminente da educação superior no Ceará, foi classificado em nível de “elevado”. Por culpa sua não alcançou o patamar de avenida. Poderia ter sido pior, coubesse-lhe um beco. Já o dr. Laudelino Coelho, de inesquecível atuação nas correções ideológicas de criaturas recalcitrantes, torcendo as suas impenitentes intenções — fez-se rua. Poderia ter sido, com um pouco mais de empenho – avenida, não fossem as intolerantes pressões persecutórias da esquerda.

Perscrutei lugares mais ermos, de pavimentação ordinária, sem os requintes da modernidade trazidas pelos tijolinhos da avenida Beira Mar. Não encontrei um conhecido sequer, um padre de luta ou de fé, pensei no padre Fred, o meu jesuíta preferido, quem sabe por acaso um velho professor, um agitador cooptado pelo capitalismo. Nada. Ninguém. Descobri um CUCA Che Guevara para os lados da Barra do Ceará, quem sabe faltara suprimento necessário de nomes para dar ao magnifico equipamento. Pensei em Lauro Oliveira Lima, educador assumido, outro deslembrado no Ceará.

Regressei a casa atordoado. O neto indagava a cada esquina, parada ou cruzamento de ruas, aos pés de um semáforo solitário, sobre quem tinha sido o nome das placas avistadas. E eu, calado, discreteando a minha ignorância na topografia dos filhos famosos de Fortaleza. Repetidas seguidas interpelações, Thiago vira para mim e confessa, desanimado:

“Vô, não adiantou nada o passeio: tu não conhece ninguém”.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.