Começar Pensando no Fim

Nunca gostei de frases como: “depois você troca”, “é só por um tempo”, “se não der certo, desfaz”, “não precisa ser pra sempre”, e tantas outras da mesma categoria. Acho que essa ideia sempre me apavorou. É certo que para algumas pequenas coisas do dia a dia isso funciona perfeitamente bem, é saudável. Já para outras não me sinto tão confortável em empregá-las. Não vou mentir, tenho pavor a essa facilidade de trocar certas coisas na vida.

Prefiro o que é pra valer. Quando resolvo, entendo que é pra durar.

Embora eu tenha plena convicção de que nem sempre é possível, que nem tudo é pra sempre, nem tudo dura, ainda insisto em acreditar que somente o amor de verdade é. Mas o resto… o resto dificilmente é pra sempre.

Casamentos acabam, empregos se vão, contratos se encerram, a faculdade termina, os filhos crescem, o pássaro foge da gaiola, familiares partem, rotas são alteradas, flores murcham em plena primavera e nem todo amor sabe ir embora com carinho, os não verdadeiros são assim, muitas vezes te negam até um tchau.

Sim, as coisas mudam e até acabam. Isso não significa que precisamos começar programando um fim, ou o tempo da troca. É essa ideia que me assusta.

Engraçado é que parei pensando nisso sentada no chão da sala, após a compra do meu apartamento. Só eu, Deus e as paredes. Ainda não tinha nada, mas tinha o principal: Ser meu. Poucas coisas na vida nos permitem esse tom gostoso de pertencimento, “É meu”, e poder dizer isso é bom.

Sentada ali eu imaginei cada cantinho. Mentalmente apliquei a técnica da simplicidade atrelada a um toque generoso de bom gosto. Os mais relaxados que me desculpem, mas essas duas coisas precisam andar juntas, a primeira sem a segunda pode ser catastrófico, e esse raciocínio não se aplica apenas para ambientes, pois comportamento e aparência também podem ser afetados negativamente por esse desequilíbrio. Felizmente isso não torna um ser humano melhor que outro, é uma questão de gosto que não impede a empatia, a tolerância e o amor.

Modéstia à parte, eu já podia ver tudo lindo naquele lugar.

Lembrei do processo até ali. Sempre ouvi “pode ser bem pequeno, afinal, é só pra você”, “escolhe um bem baratinho, lá na frente você compra outro”.

Aiai… É claro que eu não pretendia comprar um apartamento de 100m² só pra mim. Eu não precisava disso. Mas essas pessoas realmente compreendem a chatice que é comprar um imóvel? Como posso já comprar pensando em trocar?

Claro que é um momento empolgante na vida de uma pessoa, dependendo do contexto de cada um. É um presente divino depois de tudo finalizado, mas até lá, haja paciência para inúmeras pesquisas sobre valor do imóvel + condomínio que nem sempre combina com o seu orçamento, localização, estrutura, acesso, tempo para visitar, frustrações, negociações, argumentações, dinheiro, análise de renda, consulta e avaliação de crédito. Gente, tudo tem que casar! É quase uma colisão de duas estrelas de nêutrons, ou ainda, é como a saga que um espermatozoide frágil e mortal enfrenta para vencer todo um sistema até estar protegido dentro do óvulo. Sem falar nas inúmeras ligações e mensagens que passamos a receber todos os dias de corretores espalhados pela cidade. E o seu único crime foi fazer uma busca um site de compra e venda de imóveis sem usar uma janela anônima. Quem já teve a graça de passar por essa massante e prazerosa jornada de comprar um imóvel sabe como é.

Pois bem, fiquei com aquelas vozes de sabedoria na cabeça e passei meses em busca de um apartamento pequeno considerando a tal sugestão do “só pra mim”.

Hoje observando a minha mais nova aquisição eu percebi que por mais que eu tente facilitar essa ideia de troca futura, inconscientemente eu ajo rumo ao pra sempre. De fato eu não tenho os 100m² que citei, eu nem mesmo sonhei com isso. Eu estava certa de estar seguindo o tal conselho dos sábios, mas olhando o que tenho hoje, certamente não é só para mim.

O meu cantinho hoje é minimamente pequeno e suficientemente grande…

“Cabe até o meu amor,

Cabem três vidas inteiras,

Cabe uma penteadeira

Cabe nós dois”

É que eu já estou lá na frente, e lá na frente eu não desfaço coisas importantes, eu ressignifico, reinvento, mudo a mim, troco uma certeza ou outra de lugar, mas não sigo com essa ideia do desfazer, descartar. Tudo tem sua importância e eu estou sempre construindo. Todo dia pra mim é dia pra valer. Desperdiçar a vida é ignorar um presente de Deus, e Ele tem surpresas pelo caminho que só vivendo pra saber. Tem coisas que são tão difíceis de conquistar que eu jamais me perdoaria em começar pensando no fim.

Daniella Cruz

Daniella Cruz é Psicóloga, orientadora de Carreira. Graduada em Gestão Estratégica de Recursos Humanos, Especialista em Gestão de Pessoas e Liderança. Trabalhou na Europa na execução de projeto voltado para a neuropsicologia e acompanhamento de idosos com Alzheimer e outras demências. Tem participação em antologias literárias e é colunista no SegundaOpinião.jor.

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