Clarice

Como quem conseguisse morrer antes de nascer
Morreu ela um dia antes do próprio aniversário
Como quiseram os astros ou o acaso
Ainda mais cruel porque não tem a consciência
Nem de que é cruel nem de que é nada que tenha nome
E esse foi apenas mais um dos paradoxos
Esqueceu o vazio de ar ou tinta de que são feitas as palavras
E esculpiu pedras de palavras
Irregulares constantes pesadas
Um granito incompreensível a quem tivessem roubado
O cotidiano de coisa da coisa
Mas era apenas de muito olhadas que perdiam a naturalidade invisível
E incomodavam
Feito uma atropelada repentina
Cuja dor de viver nunca chamara atenção
E agora as datas
Eventualmente monumentos
Talvez placas que deem nomes a ruas
Brasileiras ou ucranianas
Como capas de livros rasgados que pregassem nas esquinas
Mas não cantassem nem dessem tradução ao grito que esperamos das esquinas
Nós que sempre esperamos sinais de Deus nas coisas mudas
Talvez mais radicalmente quando nele nem sequer acreditamos
Como se Deus não pudesse estar no murmúrio das coisas
E eventualmente é apenas essa a sua existência
E esse mesmo o seu máximo milagre teimoso e delicado
Expresso em coisa cinza e insignificante
Como uma lagartixa sem rabo ou um rabo sem lagartixa
Para espanto das últimas crianças curiosas
Morreu no mês das despedidas antes que o ciclo se fechasse
Antes que de novo nascesse o menino que todo ano renasce
Como muitos meses antes feito homem morre novamente
Feito precisássemos da repetição constante e eterna da mesma história
Porque de verdade nunca entendíamos

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.