Clarão momentâneo

Como é próprio dos facínoras e dos loucos, o presidente Jair Bolsonaro não suporta que lhe obstruam o caminho. É de sua índole, como fazem aqueles, ir ao cabo de sua perversidade e estupidez na execução do crime; como estes, não ter olhos para enxergar a realidade senão sob a perspectiva de seus delírios e ilusões, sem a isenção que a doença lhes confere. Dois episódios, para além de milhares outros, ocorridos nas últimas horas, atestam a veracidade do que afirmo aqui. Vejamos.

Na quarta-feira 31, ensejando que se retomasse por instantes a esperança perdida, no que diz respeito a se tentar evitar uma tragédia ainda maior do que as 320 mil mortes pela Covid-19, o ministro da Saúde Marcelo Queiroga finalmente veio a público para professar o óbvio: o uso da máscara, a proteção contra aglomerações e a vacinação em massa são as alternativas para tirar o país do colapso em que se encontra. O que parecia ser o lampejo de lucidez que poderia salvar os brasileiros de um desastre, no entanto, não passou do que fora realmente: um lampejo, e voltamos à escuridão plena no campo da saúde.

Mal fechou a boca, o ministro Queiroga mais uma vez viu enlamear-se o seu histórico acadêmico respeitável. Sem usar máscara, e lançando mão de sua linguagem de comboieiro, que me desculpem o que vai aqui de politicamente incorreto, desautorizou-o sem meias-palavras e com a desfaçatez de sempre. Conclamou a população a ir às ruas e desobedecer quaisquer medidas de lockdown, fazendo, cada um por si, o que acha que deve para se proteger. Hilário, não fosse dramático.

O outro episódio, que já ocupa espaço nos principais jornais do país, diz respeito à indicação do general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira como comandante do Exército, em meio à crise das Forças Armadas desencadeada com a demissão sumária do ministro da Defesa Fernando Azevedo.

Cearense de Iguatu, o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira é nome respeitado entre seus pares. Com um currículo notável, de que salta aos olhos de todos que o conhecem um perfil humano que o diferencia no conjunto do que existe de melhor e mais qualificado nos limites da corporação, Paulo Sérgio foi objeto de prestigiosa acolhida, mesmo para analistas da imprensa atentos ao que poderia haver por detrás de sua escolha num momento particularmente delicado por que passa o país. Menos pelo facínora louco que atende, ainda, pelo nome de Jair Messias Bolsonaro, claro.

Alçado ao posto de comando do Exército, principal das três Forças, o general Paulo Sérgio terá sob “sua” orientação algo em torno de 220 mil dos 380 mil militares do país. A concluir pelo que pautou a sua trajetória oficial  —  dedicação irrepreensível à carreira, densidade intelectual e vasto domínio de conhecimento especializado  —, a que se somam uma formação familiar impecável e uma elegância que impressiona no trato com as pessoas, o general Paulo Sérgio, como era previsível, contrasta com as pretensões de Bolsonaro e torna-se, da noite para o dia, alvo do olhar enciumado do presidente.

Assim, de mal a pior, o que se projetava nas últimas horas como uma mudança de rumo, um lampejo de esperança, como disse, não passa mesmo daquilo que é: um lampejo. Triste Brasil.

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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