Ciro Gomes, as incoerências e a saga presidencial: notas sobre o discurso da convenção, por Cleyton Monte

O PDT homologou a candidatura de Ciro Gomes à Presidência. Será sua terceira tentativa. Em 1998 e 2002 o PPS abraçou o desejo do ex-governador cearense. De lá para cá se esforçou para viabilizar o sonho presidencial, mas as condições partidárias e o auge da gramática lulista foram mais fortes e o fizeram recuar. Ciro é constantemente taxado pela imprensa e opositores de falastrão, desequilibrado e demagogo. Seus dotes oratórios e capacidade argumentativa são indiscutíveis. A visão de Brasil e o conhecimento das engrenagens do Estado e do mercado são consistentes. A pauta do candidato é progressista. Entretanto, os últimos movimentos são suficientes para apontar uma série de incoerências e amadorismos.

Sem laços partidários consolidados, Ciro vem propondo um novo modelo de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que critica duramente a política fiscal do governo Temer. Contudo, buscou aliança com os partidos governistas que integram o “centrão” (PP, PRB, DEM, SD e PR). Sua justificativa resgata o já surrado discurso da governabilidade. Essa tentativa fracassou, uma vez que os líderes do “centrão” apoiarão Geraldo Alckmin. Com essa manobra, Ciro queria se aproximar do mercado e garantir recursos e estruturas à sua campanha. Esbarrou num muro de concreto. Como viabilizar aliança com deputados e senadores que, segundo o próprio Ciro, garantiram o golpe de 2016 e a aprovação da Reforma Trabalhista? Eventos recentes que mereceram discursos combativos do ex-deputado federal.

Na cerimônia que confirmou sua candidatura, Ciro apresentou um retrato fiel da economia brasileira. Os números do desemprego, a grave desindustrialização, o endividamento familiar e a dívida pública mereceram sua atenção especial. Os dilemas da educação, ciência e segurança também foram lembrados pelo candidato. A solução para esses problemas se encontraria na maior presença do Estado na economia. Entretanto, o ex-ministro da Fazenda não explicou como vai fazer para ampliar a taxa de investimento público em um momento marcado pela estagnação da economia, queda de receita e endividamento público.

Em outro momento da convenção, afirmou se inspirar em figuras como Leonel Brizola. Difícil encontrar paralelo entre essas duas personalidades. Podemos fazer todas as críticas ao líder trabalhista, mas incoerência ideológica não está entre elas. Ciro tenta ser a figura que vai trazer a mudança, mas atua da mesma forma que os políticos que critica. Sua saga presidencial é antiga e confusa. Nos últimos meses, procurou polarizar com Bolsonaro e Temer. Sua relação com Lula oscila entre mordidas e assopros. A crítica persistente ao MDB não lhe garante nada além de novos processos. A fala forte e o discurso por vezes autoritário e agressivo dificultam futuras alianças, além de oferecer farto material para a grande imprensa e movimentos de direita.

O que sobra para Ciro? Disputar espaço com figuras da esquerda em um cenário cada vez mais difícil. Mesmo que Lula não esteja na campanha, seu potencial de transferência política se amplia a cada pesquisa de intenção de voto. Provavelmente, o PT será o maior beneficiado nesse processo. Todavia, a campanha está aberta e o cenário agora que começa a se definir. Porém, se não conseguir conquistar o apoio do PSB e do PCdoB e permanecer nessa gangorra discursiva, Ciro Gomes irá desperdiçar mais uma oportunidade presidencial. Não é difícil concluir que o pragmatismo desenfreado, a impulsividade e as incoerências estão impedindo o candidato de compreender e saber jogar de acordo com o “espírito do seu tempo” (Kant).

Cleyton Monte

Cleyton Monte

Doutor em Sociologia, professor da Faculdade Cearense, analista político e pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (LEPEM-UFC)

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