CHUVA DE PEDRAS VERDES, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Neste final de semana estive numa feira popular. Pessoas frequentando um imenso pátio em dia de sol tropical maravilhoso. Muitas frutas, legumes, cereais. Coisa linda. Tudo orgânico. Crianças correndo de um lado para o outro; bicicletas rompendo o espaço em seus movimentos sinuosos; idosos em passos suaves a fazer sua maratona de compras; cantadores improvisando seus versos visionários. Ah essas feiras livres!

Uma barraca me chamou atenção. Nela estavam um pai, uma mãe e uma criança trabalhando com muita alegria, cuidando do fruto do seu suor. Aproximei-me. Comecei a conversar. O menino foi logo me oferecendo um sapoti para eu provar. Minha fruta preferida, morena da cor de minha pele. Disse-me que em barraca alguma encontraria sapotis tão doces, grandes e belos como aqueles. Causou-me impressão a doçura e a liberdade daquela criança ao estabelecer um relacionamento tão espontâneo e verdadeiro comigo. Não lhe pude resistir, comprei-lhe uma dúzia do seu saboroso sapoti.

Porém, quando estava a me despedir algo muito estranho ocorreu. O tempo ficou turvo, carregado. Eu não conseguia enxergar nem as nuvens, nem o azul anil celeste. As pessoas ficaram paradas, com medo e sem entender aquela mudança de tempo. E de repente começaram a cair, apenas na barraca daquela família, uma rajada de 80 pedras verdes, expirando um forte odor.

As pedras eram pontiagudas. Caiam numa velocidade imensa e pareciam ter ódio por aquela família. Talvez com inveja da doçura do sapoti, algo que jamais elas conseguirão entender a razão. O barulho era estrondoso.  Sofrendo aquele golpe do alto, o pai prontamente afugentou a esposa e o filho. Contudo, as oitenta pedras verdes, que emitiam um forte odor, caíram todas sobre sua cabeça, matando-o imediatamente.

Ao ver seu pai todo ensanguentado, coberto por aquelas pedras verdes, a criança chorou. Sua mãe carregou-a em seu colo, em prantos, sem entender o porquê daquelas pedras verdes haverem se lançado com tanto ódio contra eles num sábado tropical ensolarado de feira livre.

Subitamente percebi ao meu lado a presença de um senhor com um ar sofrido, chegando junto a mim para confessar: todas as vezes que acontece uma tragédia nessas feiras livres é como se fosse feita a mim. E sumiu.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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