CHICO BUARQUE, UM ÍCONE DA CULTURA BRASILEIRA

Van Gogh foi órfão da arte no seu tempo. Um homem simples, do povo, que, entre a pobreza e a loucura, pintou seus melhores quadros. Indigente, o gênio holandês teve suas telas valorizadas e tornou-se um dos principais artistas da humanidade somente após a morte.
Para Gregório de Matos faltaram escolas, livros, jornais e outros apetrechos de civilização, ausentes na grande Taba Tupiniquim seiscentista. Mas a história tardou e não falhou com o poeta baiano.

A verdade é que o reconhecimento depende de fatores externos ao talento, um artista pode não ser artista de sua geração. Muitos elaboram uma obra tão importante que se tornam parte da identidade de um povo, de um país, de uma língua. Homero, poeta e mito do povo grego, inventou um povo que o reinventou. Shakespeare é mais importante que a bandeira da Inglaterra, Camões batizou uma língua para o uso de muitos povos.

Em nosso país, arte tem nome: Aleijadinho, Villa Lobos, Noel Rosa, Bibi Ferreira, Chico Anísio… e uma multidão de escritores, ensaístas, pintores, dançarinos e tantos mais que ajudam a construir a nossa brasilidade.
Chico Buarque de Hollanda, apesar do sobrenome, é um artista que dá um toque muito especial ao mosaico multirracial da nação brasileira. Seu talento, revelado antes na música, se estendeu para o teatro, o cinema, a literatura… Hoje, aos 80 anos, Chico é um ícone de várias gerações do nosso país e da língua de Camões. Lembro de uma pergunta feita a Antônio Carlos Jobim sobre o sucesso de sua obra nos Estados Unidos. E o repórter, diante do Mestre da Bossa Nova, indagou: Qual a música de outro compositor que o sr. assinaria? E o velho Tom, sem titubear, respondeu: Todas do Chico. Não bastasse essa reverência ao parceiro de tantas canções, Chico ainda seria seu parceiro na interpretação de um Brasil que toca o coração de toda a gente. E o que falar do depoimento de um dos importantes intelectuais brasileiros, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, que comentou certa vez sobre a sua maior obra: Eu só sou o pai do Chico.

Nós outros podemos dizer que no presente, ao lado dos que querem um Brasil inteligente e acadêmico, livre e autônomo, em que as idéias possam circular para todos e a arte sensibilize não apenas a elite, mas fundamentalmente o povo, parabenizamos Chico Buarque de Hollanda pelo Brasil que ele nos ajuda a interpretar. Um Brasil rico de pobres e com uma vontade enorme de ser rico de Chicos.

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza–CE. Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor e Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Tem 26 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) – Conto; Super Dicionário de Cearensês, 2000; Os gestos do amor, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014; Poesia na bagagem, 2018; Crítica da razão mestiça, 2021, dentre outros. Editor da Revista de Estudos Decoloniais da UFCG/CNPQ. Vencedor de Prêmios Literários nacionais. Contato: [email protected]

4 comentários

  1. Carlos Gildemar Pontes

    Exatamente, Eduardo! Pelo fato de dominar o processo de criação poética com grande conhecimento, a música e a literatura para o Chico são terrenos de boa colheita.

  2. Carlos Gildemar Pontes

    É isso, Aristides! Além do mais, tem uma lúcida compreensão da linguagem e domina maravilhosamente a Língua Portuguesa.

  3. Aristides Braga Neto

    Chico, politicamente engajado, coerente em toda sua trajetória, defensor do Brasil é um dos mais importantes artistas da história universal.

  4. Eduardo Fontenele

    O Chico, além de ser um gigante na música popular, também é um gigante na literatura. Venceu o Prêmio Camões em 2023. O Camões é o prêmio de maior prestígio para escritores que escrevem na língua portuguesa.