CHICO BUARQUE FAZ 80 ANOS

Toda unanimidade é burra.
(Nelson Rodrigues)

Polímata. S.m. Do grego polymathós, aquele que sabe muitas coisas. O vocábulo, por força da genialidade de Leonardo Da Vinci, passou a ser usado como sinônimo de “mulher ou homem do Renascimento”, isto é, aquela ou aquele que conhece muito de diversas matérias, que é versátil, capaz de dominar diferentes linguagens. Exemplo: Chico Buarque de Hollanda.

No auge de uma carreira brilhante, na qual se destaca como letrista, músico, dramaturgo, cantor, intérprete, roteirista, romancista e contista, dos melhores do país em todos os tempos, Chico Buarque de Holanda faz hoje 80 anos.

Na contramão do que parece natural, e do que sobre ele professou um dia outro gênio de nossa inteligência cultural e artística, Millôr Fernandes, não é, infelizmente, uma unanimidade. Por ironia do destino, o próprio Millôr Fernandes, que cunhara a expressão “Chico Buarque é a única unanimidade nacional”, encarregar-se-ia de negá-la.

Pior, o fez descendo a níveis impensáveis para um intelectual e artista de sua estatura. Sobre o mesmo Chico, num momento em que a condição humana de Millôr sobrepujou a sua inteligência, nivelando-o a um simples mortal, sujeito às oscilações de humor e idiossincrasias de caráter, afirmaria: “A Chico Buarque eu não confio o meu cachorro para dar uma volta no quarteirão”. Mágoa e muito uísque, pode-se ver, não raro cegam os homens.

Morreria, por sinal, sem reconstruir uma relação que, em condições normais, poderia ser resumida em duas palavras, bastando para isso que em termos de convivência e amizade, assim como no futebol de que o aniversariante tanto gosta, houvesse um mínimo de lógica: Igualmente geniais.

Não bastasse, numa outra dimensão, desprovida de inteligência emocional e qualquer razoabilidade, tenha Chico Buarque de Holanda se tornado da noite para o dia alvo da ira da extrema direita, pelo simples fato de que, no exercício de sua inatacável coerência política, intelectual orgânico que sempre foi, tenha mais uma vez votado num candidato de esquerda, e vindo a público para falar em defesa da liberdade e do Estado democrático de Direito, do meio-ambiente, das minorias sexuais, dos negros, dos indígenas e das mulheres.

Foi bastante para que tentassem lhe infligir o rótulo de comprador de músicas, plagiador, comunista, ganhador de dinheiro fácil e tantos e tantos outros juízos absolutamente impróprios para quem, como Chico Buarque de Hollanda, tanto fez para a Cultura brasileira, quer no cancioneiro popular, em que se destaca como o maior compositor vivo, ou no teatro, com pelo menos cinco peças que marcaram época nos palcos brasileiros; quer na literatura, com oito romances e um livro de contos que lhe asseguraram prêmios significativos, como o Jabuti e o Camões; ou no cinema, assinando trilhas inesquecíveis, ao que se soma, no plano pessoal, uma retidão de caráter, esta sim, unanimemente reconhecida pelos que têm o privilégio de conviver com ele.

É esse artista indispensável, que acalenta as melhores emoções de gerações e gerações de brasileiros por pelo menos meio século, poeta de fina extração, músico tecnicamente irrepreensível, esse vate dos marginalizados, cantor dos excluídos, dos bêbados e das putas, capaz de entender o sofrimento alheio e de cantar a esperança como poucos o fizeram, esse profundo conhecedor da alma feminina, esse homem imenso em elegância e humildade, esse ponto fora da curva em domínio das diferentes linguagens estéticas, enfim, esse genial artista brasileiro, que faz hoje 80 anos.

Fosse o Brasil de agora menos doente e mais lúcido, menos rancoroso e mais fraterno, menos emburrecido e mais racional, menos polarizado e mais compreendedor dos nossos reais desafios, mais amante da arte e da beleza que dela advém, mais cioso do que representa para um país ter Chico Buarque como filho etc., e todas as vozes, pelos quatro cantos deste imenso território, em uníssono, haveriam hoje de cantar-lhe a vida, manifestando-lhe o respeito e a mais verdadeira gratidão.

Artista múltiplo, como ressaltei há pouco, o que conta mais ainda a seu favor, Chico Buarque é estrela da mesma constelação em que brilham Machado de Assis, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Caetano Veloso e Carlos Drummond de Andrade. Todos grandes, imensos e imortais artistas. Mas o maior deles, o mais completo, chama-se Chico Buarque de Hollanda.

 

Chico Buarque em cena do documentário “Uma noite em 67”
Imagem: Divulgação/ Fonte – Uol

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica