CHANSON D’AMOUR

Para Andrea Rossati

Angustiantes,
Repetitivos,
Sensuais
Arranjos de contrabaixo acústico
Em jazz
Na noite sonhada da capital do estado sertanejo;
Enquanto isso,
Indiferente à música ou
Ao som de outros acordes,
Na esquina da avenida,
Ela espera,
Feito os sábios,
Pelo que pode vir
E pelo que não virá nunca.
Apostou mais uma vez,
Dados e cartas e corpo aberto:
Pensa ao vento os pensamentos
Dos pensamentos dos pensamentos,
Ao passo das tranças entre os dedos.
Quando os boys do mundo irão se decidir
E dizer, sem rodeios, compromissos e desculpas,
Palavras que digam claramente
Apenas sim e não e nunca e sempre?
Homens, ai, tão desejáveis quanto cansativos,
Tão potentes quanto mentirosos e traidores.
Como se a vida não fosse mais
Que um caule arrogante de tão pleno de seiva,
Como se o tempo não fosse mais forte
Que todas as formas vivas,
Como se a gravidade não derrubasse
Tudo que está de pé. Mas, eis,
Na esquina da avenida, viva,
A mais nova encarnação
Dos secretos investimentos em formas improváveis.
Quem imaginaria? Depois que tanto
Te vestiram de menino e
Te chamaram de menino e
Te trataram de menino, depois mesmo
Que os velhos tios do interior te jogaram no bordel,
Pois achavam que essa era a solução de todas as coisas,
E em vez da transa voltaste com batom, esmalte, maquiagem,
E muito conselho sobre a maldade dos machos,
E elogios ao seu amor brutal,
Te vejo e te encontro na esquina da avenida,
Enquanto os homens, trabalhadores e orgulhosos
Da letra muda h de uma palavra,
Bebem cerveja como se não houvesse amanhã,
Quando tu ainda reivindicas ao menos um ontem possível.
Não são a solução de amor que mereces e procuras
A cada noite e esquina e rua e brecha,
Por mais olhos gulosos que te lancem disfarçadamente.
Sabes, melhor que ninguém,
Que a mão que afaga é a mesma que apedreja,
Que o beijo, amiga, é a véspera do escarro.
Já nem fazes rituais nem olhas a lua: sabes
Que inocente já te jogam na fogueira. Amiga,
Não peço que perdoes nem que ignores,
Pois eles sabem o que fazem e ainda assim repetem.
Peço, apenas, nem a ti nem a ninguém,
Só ao vento que nos resta,
Que ponhas toda a alma nesse beijo,
Para que voe muito além,
Louca vermelha borboleta
Em lábios desenhados construída.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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