CENÁRIO POLÍTICO CEARENSE PERDE IRANILDO PEREIRA 

Ontem foi um dia realmente triste. Enquanto o Jornal Nacional noticiava a morte de Dom Claudio Hummes, ex-arcebispo de Fortaleza, o livreiro Sérgio Braga mandava mensagem pelo sobre a morte do amigo comum Iranildo Pereira, a quem devotamos grande amizade, desfrutada por longos anos, sobretudo depois de nos conhecermos melhor em viagem pela Argentina. Iranildo Pereira sempre esteve ligado à política, vocação recebida do pai, o saudoso vereador Antônio Pereira de Oliveira do pacato Município de Santana do Cariri, no pé da chapada do Cariri, a quase 600 km da capital, onde fui juiz temporário, nas estremaduras que separam o Ceará do Pernambuco e da Paraíba. O menino Iranildo iniciou seus primeiros passos na carreira partidária acompanhando o pai, os “coronéis”, os intermediários do voto, os antigos cabalistas (expressão que se transformou em cabos eleitorais), ouvindo atentamente o que falavam os velhos e experimentados. Pois bem: como as reuniões se prolongavam durante todo o dia no Distrito de Araponga, antiga aldeia eleitoral, o peralta Iranildo percebeu que não ficava bem receber o senador José Martins Rodrigues e seus correligionários sem oferecer uma água cristalina, própria do vale carirense. E a melhor água da região era proveniente dos poços do povoado de Latão, como lembrou em várias conversas que mantivemos. Logo providenciou uma alimária e passou a fornecer o líquido precioso a todos que precisavam matar a sede, vencer os debates, durante longas conversas sobre campanhas. De sorte que o relacionamento com o professor José Martins facilitou sua ligação com Paes de Andrade. Os dois permaneceram amigos até sua partida. O fato é que depois desta incursão, nunca se afastou da política. Do fornecimento d’água à organização partidária, das disputas eleitorais até chegar à Assembleia Legislativa e à Câmara dos Deputados, com destemor, com discursos ásperos, enfrentando a ditadura e o regime militar. Iranildo constituiu memória viva dos tempos mais distantes em que UDN e PSD pareciam mais dois biombos do que agremiações partidárias. Cabiam ao partido do Senador José Martins Rodrigues os redutos mais afastados e também violentos, herança de um tempo em que impasses eram resolvidos com a força bruta. Como na época do Coronel Alves Pequeno. Na base da bala expulsou do Crato o prefeito Belém Figueiredo e, por extensão, parte de minha família. Se estou lembrado, foi o mesmo Coronel que desmontou de uma cavalaria frente ao Seminário da Prainha para saber do Bispo de Fortaleza por que seu afilhado Cícero Romão Batista não se ordenava padre, sabendo, de antemão, das perseguições que o futuro patriarca de Juazeiro sofria por parte do reitor. Quero fechar: fazer política no Cariri nunca foi uma coisa para menino. O próprio Coronel Alves foi Pequeno apenas no nome. Definitivamente, penso que meu amigo Iranildo era um homem temperamental em sua palavra, combativo, de guerra, se preciso for o conflito, como o Poeta Paula Ney, que morria pelo Ceará. Mas, não sendo preciso, cuida-se de um ser humano profundamente pacífico, amigo e companheiro. Carrega consigo o seu tempo, a franqueza, o caráter duro e impermeável a certas “flexibilidades” que, como todos nós sabemos desde Maquiavel, a política oculta nos seus bastidores. Nessa linha, ganhou antipatias dentro do próprio partido que ajudou a fundar: o MDB, que passou a ser chamado de PMDB. Essa incompreensão o abatia profundamente. Era recorrente em nossas conversas. Certa vez, mandei buscar um bode de Tauá, assado pelo próprio autor da oferta, Alexandrino (Besouro) só para termos no churrasco Iranildo por perto, com suas hilariantes conversas de um tempo que já passou e já sem muitos testemunhos. O inesquecível Ulisses Guimarães, manifestando a imprescindibilidade de um perfil como o do Iranildo, bateu o martelo: “se o medo fosse a doença que matasse, Iranildo Pereira seria imortal”. E assim partiu, com aquela coragem bem distinguida, assentando morada na pátria espiritual.

Ontem foi um dia realmente triste. Enquanto o Jornal Nacional noticiava a morte de Dom Claudio Hummes, ex-arcebispo de Fortaleza, o livreiro Sérgio Braga mandava mensagem sobre a morte do amigo comum Iranildo Pereira, a quem devotamos grande amizade, desfrutada por longos anos, sobretudo depois de nos conhecermos melhor em viagem pela Argentina.

Iranildo Pereira sempre esteve ligado à política, vocação recebida do pai, o saudoso vereador Antônio Pereira de Oliveira do pacato Município de Santana do Cariri, no pé da chapada do Cariri, a quase 600 km da capital, onde fui juiz temporário, nas estremaduras que separam o Ceará do Pernambuco e da Paraíba.

O menino Iranildo iniciou seus primeiros passos na carreira partidária acompanhando o pai, os “coronéis”, os intermediários do voto, os antigos cabalistas (expressão que se transformou em cabos eleitorais), ouvindo atentamente o que falavam os velhos e experimentados.

Pois bem: como as reuniões se prolongavam durante todo o dia no Distrito de Araponga, antiga aldeia eleitoral, o peralta Iranildo percebeu que não ficava bem receber o senador José Martins Rodrigues e
seus correligionários sem oferecer uma água cristalina, própria do vale carirense. E a melhor água da região era proveniente dos poços do povoado de Latão, como lembrou em várias conversas que mantivemos.

Logo providenciou uma alimária e passou a fornecer o líquido precioso a todos que precisavam matar a sede, vencer os debates, durante longas conversas sobre campanhas. De sorte que o relacionamento com o professor José Martins facilitou sua ligação com Paes de Andrade. Os dois permaneceram amigos até sua partida.

O fato é que depois desta incursão, nunca se afastou da política. Do fornecimento d’água à organização partidária, das disputas eleitorais até chegar à Assembleia Legislativa e à Câmara dos Deputados, com destemor, com discursos ásperos, enfrentando a ditadura e o regime militar. Iranildo constituiu memória viva dos tempos mais distantes em que UDN e PSD pareciam mais dois biombos do que agremiações partidárias. Cabiam ao partido do Senador José Martins Rodrigues os redutos mais afastados e também violentos, herança de um tempo em que impasses eram resolvidos com a força bruta. Como na época do Coronel Alves Pequeno. Na base da bala expulsou do Crato o prefeito Belém Figueiredo e, por extensão,
parte de minha família. Se estou lembrado, foi o mesmo Coronel que desmontou de uma cavalaria frente ao Seminário da Prainha para saber do Bispo de Fortaleza por que seu afilhado Cícero Romão Batista não se ordenava padre, sabendo, de antemão, das perseguições que o futuro patriarca de Juazeiro sofria por parte do reitor. Quero fechar: fazer política no Cariri nunca foi uma coisa para menino. O próprio Coronel Alves foi Pequeno apenas no nome.

Definitivamente, penso que meu amigo Iranildo era um homem temperamental em sua palavra, combativo, de guerra, se preciso for o conflito, como o Poeta Paula Ney, que morria pelo Ceará.
Mas, não sendo preciso, cuida-se de um ser humano profundamente pacífico, amigo e companheiro. Carrega consigo o seu tempo, a franqueza, o caráter duro e impermeável a certas “flexibilidades” que, como todos nós sabemos desde Maquiavel, a política oculta nos seus bastidores. Nessa
linha, ganhou antipatias dentro do próprio partido que ajudou a fundar: o MDB, que passou a ser chamado de PMDB. Essa incompreensão o abatia profundamente. Era recorrente em nossas conversas. Certa vez, mandei buscar um bode de Tauá, assado pelo próprio autor da oferta, Alexandrino (Besouro) só para termos no churrasco Iranildo por perto, com suas hilariantes conversas de um tempo que já passou e já sem muitos testemunhos.

O inesquecível Ulisses Guimarães, manifestando a imprescindibilidade de um perfil como o do Iranildo, bateu o martelo: “se o medo fosse a doença que matasse, Iranildo Pereira seria imortal”. E assim
partiu, com aquela coragem bem distinguida, assentando morada na pátria espiritual.

Durval Aires Filho

Durval Aires Filho é Desembargador do Tribunal de Justiça do Ceará, professor universitário e mestre em Políticas Públicas. É membro da Academia Cearense de Letras, tendo publicado os seguintes livros: “As 10 faces do mandado de segurança“ (Brasília Jurídica) e “Direito público em seis tempos. Autores relevantes e atuais” (Fundação Boitreaux). Antes da pandemia foi vencedor do Prêmio Nacional de Literatura para Magistrados, com a ficção “Naus Frágeis”.

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1 comentário

  1. Reginaldo Aguiar

    Prezado,

    Sugiro que promovas uma edição/correção na página, pois o texto foi publicado de modo duplicado.

    Respeitosamente,

    Reginaldo.

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