CEM ANOS DE MISTIFICAÇÃO

Um dos temas centrais da obra premiada de Gabriel García Márquez – CEM ANOS DE SOLIDÃO –  é o da repetição, do eterno retorno, de um tempo circular recorrente a determinados mitos, remetendo à esfera da fatalidade e da impossibilidade histórica do vilarejo de Macondo: os dez primeiros capítulos narram uma história, e os dez últimos voltam a narrá-la, mas de uma forma inversa. Repetições de nomes e personagens, de situações e motivos que se cruzam e entrelaçam em todo texto. Um tempo fechado em si, impossibilitado ao movimento, à comunicação com novas ordens, com a novidade de olhares diferentes, com a possibilidade da justiça distributiva e da ascensão social das classes populares.

Esta repetição na ficção novelesca, curiosamente, nós vamos reencontrá-la na essência do discurso e da prática política bolsonarista, em pleno século XXI. Voltada para a glorificação do passado, evoca o retorno ao Golpe de 1964 e suas relações incestuosas com o poder; excita-se com a fase mais truculenta da implantação do Ato Institucional número 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968, por meio do qual a ditadura militar deixou cair por terra o restante do fio da máscara de civilidade que ainda vestia, escancarando ao mundo todo o seu escárnio e violência dos aparelhos do Exército contra a população civil, por meio de torturas e assassinatos, do controle e censura dos meios de comunicação social e da espionagem das lideranças de nosso país por meio da instalação do SNI (Serviço Nacional de Informação). Tudo mantido às escondidas. Como bem disse o coronel Jarbas Passarinho: “Às favas os escrúpulos de consciência”.

Em seu voto como deputado federal, em 17 de abril de 2016 pela derrubada ilegal da presidente Dilma Rousseff, dois anos antes da eleição presidencial de 2018, o capitão Bolsonaro sintetiza com precisão o pensamento central do golpe então em andamento, armado pelos generais de plantão para tomar o poder ao elegê-lo presidente, estabelecendo uma ligação ideológica-temporal de 2016 com o passado de 1964, na estratégia de reavivá-lo com seus fantasmas e truculências, ao evocar mais uma vez o retorno do mito do militarismo como a tábua de salvação do Brasil. Disse em seu voto: “Perderam em 64, perderam agora em 2016. Contra o comunismo. Contra o Foro de São Paulo. Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff. Pelo exército de Caxias. Pelas nossas Forças Armadas. O meu voto é sim”.

Somando-se a isso, em 11 de janeiro de 2019, por ocasião de sua despedida do comando do Exército, Eduardo Villas Bôas, o general que coordenou a articulação dos generais em torno da campanha presidencial de Bolsonaro, chegando a publicar um twitter em abril de 2018, ameaçando a democracia brasileira por meio de um golpe militar clássico se o Supremo Tribunal Federal (STF) concedesse Habeas Corpus impetrado pela Defesa Técnica do presidente LULA, afirmou em seu discurso que “a nação brasileira festejava os sentimentos coletivos que se desencadearam a partir da eleição de Bolsonaro”. Que sentimentos seriam? Os sentimentos autoritários do passado de 1964, atualizados agora pelos grupos de fake news e de milicianos?

Segundo Villas Bôas, em seu discurso, o tripé desse novo “Rio da História” é composto ainda por Sérgio Moro (codinome Russo no submundo jurídico) e Braga Netto, general interventor do Rio de Janeiro e atual ministro da Defesa. Portanto, trata-se de um núcleo duro ideológico formado pelo fascismo bolsonarista, apoiado juridicamente pelo excludente de ilicitude morista, contando com o suporte estratégico-tático das Armas, contra todo e qualquer tipo de oposição ao regime militar em curso. O que há de novo em tudo isso, senão uma mera atualização do militarismo plantado desde a República das Espadas?

E mais recentemente, dando seguimento às repetições de fatos e personagens, no dia 03 junho, última quinta-feira, foi publicada a Nota à Imprensa, pelo Comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, afirmando que analisou e acolheu os argumentos apresentados pelo ex-ministro da Saúde, o também general da ativa Eduardo Pazuello, sobre sua participação em ato político realizado por Jair Bolsonaro, concluindo que  não restou caracterizada a prática de transgressão disciplinar.

Pelo seu desempenho desastroso e irresponsável no Ministério da Saúde e por sua participação política no evento citado, Pazuello foi premiado com a Secretaria de Assuntos Estratégicos, com status de ministério, ligada diretamente à Presidência da República. Por garantia, o Comandante impôs a ocultação por Cem Anos de todo esse processo envolvendo Pazuello, Bolsonaro e o Exército. Tanta transparência chega a dar inveja!

Para fechar o ciclo de alinhamento do apoio armado ao bolsonarismo, segunda-feira 07/06, Bolsonaro condecorou o general Paulo Sérgio com o mais alto grau da Ordem do Mérito da Defesa, honraria concedida a quem presta relevantes serviços ao Ministério da Defesa e às Forças Armadas. Uma sinalização clara para a tropa. Portanto, este é o resumo desta edição da ópera bufa, em seu retorno ao passado, com seus golpes, ocultações e relações incestuosas no poder, emparedando a democracia brasileira e a verdade dos fatos, típica dos manuais golpistas clássicos.

O líder do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara Federal, deputado Elvino Bohn Gass (RS), encaminhou ontem, 08/06, requerimentos de informação ao ministro da Defesa, general Braga Neto, e ao comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira, nos quais requer todos os documentos relativos ao processo de apuração disciplinar contra Pazuello. Com base na Lei de Acesso à Informação, Bohn Gass afirma que o sigilo de 100 anos não tem qualquer amparo legal, lembrando que a Constituição Federal estabelece que a administração pública, em todos os níveis, obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Aguardemos o desenrolar dos fatos.

O olhar de Gabriel García Márquez ajuda-nos a intuir por que o Brasil será sempre o país de um futuro previsível: porque esse futuro já ocorreu. Triste Brasil! Abençoado por Deus e bonito por natureza!

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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