Célia Oliveira e Eduardo Fontes, por DIMAS MACEDO

 Célia Oliveira

A busca do tempo compreende muitos regressos e avanços. No universo, nada me parece mais circular do que esta equação. O tempo existe para nos entreter. E quanto mais nos afastamos do presente, menos dolorida será a nossa sensação de perda, e muito mais prazerosa será a nossa satisfação.

Daí a busca do tempo melhor, aquele que reluz na demão do passado, que nos faz reviver a infância e que nos leva a pensar o quanto aquilo que perdemos é essencial para nós, e o quanto aquilo que ganhamos pode implicar a nossa negação.

O tempo que perdemos, contudo, compreende também o espaço, a rua, o mundo e os encantos da terra em que nascemos; a casa do ser e a linguagem; a transposição da báscula do desejo e a intermitência de um rio que pode ser chamado de Rio Acaraú.

O tempo melhor da escritora Célia Oliveira, no seu livro de estreia, parece ser o tempo no qual tudo se pode restaurar: traços da formação escolar, os sinos da primeira comunhão e a procura incessante da claridade e da luz, na velha e na nova cidade de Sobral.

A naftalina das lembranças, o cheiro inclemente da chuva, a imposição daquilo que ficou para trás; a família, mais uma vez a família, a marca das coisas da infância e o desejo de tomar uma nova direção: eis o espaço do sonho para o qual a autora quer nos conduzir.

Mas o que aqui quero registrar, é que o livro O Melhor Tempo (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2013), de Célia Oliveira, é muito mais do que bom, muito bom mesmo de ler e de guardar: para ser revivido pela emoção.

 

Eduardo Fontes

 

Os intervalos que chamam de feriadão, para mim são Dádivas do Espírito, Sementes da Graça, soluções que Deus oferta aos escritores (aqueles a quem ele confiou esta missão) para um ajuste de contas com a escritura e a leitura, expressões sagradas da eternidade, chamas que devemos segurar contra a tempestade, a espessura dos ventos e o tecido das nossas amarguras.

Ciranda Poética (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2018) foi o livro que destaquei, neste fim de semana, para ler e, a partir dele, meditar sobre a vida, a natureza, os animais, a oração, a estética, a melodia, o êxtase, a simplicidade, a estesia das formas e o fortificante das palavras, suas entonações, sua rebeldia e a sua grave resposta às inverdades do mundo.

Ao concluir a leitura desse livro de Eduardo Fontes, sinto-me tocado pela Bênção Apostólica de Sua Santidade, o Papa Francisco, de quem também sou devoto, pois sou católico e homem de rebeldia ética, assim como o autor, que é poeta dos maiores, cada vez mais exíguo e mais silencioso, poeta que sabe respeitar as margens do papel e podar a árvore do discurso.

Límpida me pareceu a textura de Ciranda Poética, límpida, a sua linguagem, escorreito e bom de deslizar o seu texto, as suas síncopes, as suas reticências, a ironia das suas sentenças, dos seus “Poemas Tresloucados” e das suas “Lições Filosóficas”, coroando-se o livro com a síntese bela e feliz das suas orelhas, escritas por Ulysses Alencar Reis Fontes.

Ora, ora, seu poeta Eduardo Fontes, as Academias são ocas e vazias, tediosas, alienadas e totalmente fora de esquadro. Eu já as chamei de “cadinho do mofo e da inveja”. Se a nossa obra for autêntica, se contiver o sal da terra e o sentimento da entonação, ela já se basta, e nós, poetas, nos bastamos sem precisar da imortalidade.

O que fazemos, quando somos poetas, é semear palavras para nada, porque la vie est belle, seu poeta. Lá vie é lume que se apaga e é um grão de areia que começa.

 

Dimas Macedo

Dimas Macedo

Poeta, jurista e crítico literário. Professor da UFC.

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