CASO DE POLÍTICA, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Proprietário de concorrida churrascaria localizada em ponto estratégico de cidade de médio porte no centro-sul do estado, sempre escolhia bem os candidatos que apoiava. Usava o critério que mais o interessava: o carisma de quem pleiteasse um cargo público; isso concorria positivamente para a manutenção da sua freguesia. Até havia casos em que se verificava uma sensível e bem acolhida expansão, a que os amigos costumavam rotular de “up grade”. Não fazia apostas. Nunca as fez. Nunca fora chegado a jogos de azar. Temia exatamente isto: o azar. Sua sorte estava nos negócios que, diga-se a bem da verdade, iam muito bem, obrigado!

Um compadre – amigo e irmão de fé, camarada! –, há anos residindo na capital, em uma de suas visitas periódicas à terra natal, questionou-o, em meio a uma conversa bem descontraída, num raro momento de folga do bem sucedido empresário do ramo de alimentação:

– Homem de Deus, por que você não capitaliza todo este prestígio que o povo lhe devota e investe em outro ramo de negócio de alto retorno.

– Qual?

– A política.

– Jamais alimentei tal pretensão. Há muita traição nesse meio. Muita conversa mole. Invasão de privacidade. Desrespeito. Eu tenho mais o que fazer, amigo.

– Procure ver as coisas com outros olhos, compadre! Você tem portfólio moral, social, financeiro. A ficha limpíssima, imaculada. Dê o primeiro passo no degrau mais baixo. Um mandato de vereador bem conduzido e, com certeza, se lhe abrirão as portas da Prefeitura. E assim, degrau a degrau, você irá longe. Quem sabe, o Senado Federal…

– Meu compadre, eu não quero sair daqui não. Eu não sou homem que foge do berço. Isto aqui me dá mais do preciso, do que mereço…

– Sabe, compadre, eu acho que foi Fernando Pessoa, o festejado poeta português, quem afirmou que “O homem é do tamanho dos seus sonhos”. Sinceramente, não acredito que seu sonho seja assim tão… tão… tão pequeno. Logo você, meu irmão, que tem estrela, que nasceu para fazer sucesso, cujo horizonte é bem mais amplo.

Encurtando a história, o empresário filiou-se a um partido e, sem qualquer esforço, conseguiu o espaço para a sua candidatura a vereador. Arregaçou as mangas e dedicou-se ao novo projeto com o mesmo afã de sempre. Encantou-se com a arte de fazer proselitismo político. Meteu a mão no bolso. Mesmo com parcimônia, andou gastando algum. Nada que o perturbasse. Haveria o retorno certo. Logo assumiu a postura de vencedor. A todos do seu convívio e de suas conversas e promessas, ele declarava a certeza da vitória. E repetia uma frase recorrente, fruto de uma convicção inabalável, marca da sua candidatura:

– Eu já estou eleito. E com sobras.

Chegou o tão enervante dia da eleição. Pena que a legislação eleitoral não permitia o uso da churrascaria para o convencimento de eleitores através da satisfação do estômago. Diz a sabedoria popular que há situações em que quem dirige o juízo é o bucho. Tudo bem. Isso não iria atrapalhar o seu desempenho. Afinal:

– Eu já estou eleito. E com sobras.

Abertas as urnas, a decepção cruzou a fronteira entre a convicção e a frustração e avançou celeremente sobre ele. A vergonha ante o desempenho pífio projetou-se numa raiva nunca sentida, fruto da traição de amigos e até de familiares mais próximos. Esforçou-se para não perder as estribeiras, para não sacrificar o cavalo apenas por haver estancado na corrida de estreia. No alforje de um futuro caçador de seguidores, de adeptos, um magro e mísero voto: o dele, porquanto jamais erraria o número que o identificava no processo – repetira tantas vezes, ensinara a tanta gente, chegara a sonhar com ele, com os santinhos…

Ao chegar em casa, sentou-se à mesa da sala de jantar. Desapontado, desiludido e descorçoado, ele, o “vexame político” regional, pôs a mulher a par do acontecido:

– Dasdores, que vergonha! Com que cara eu agora vou olhar pro povo, meu Deus?! Pô, ninguém votou em mim… ninguém!

– Calma, Dedé!

– Calma?! É só isso o que você tem a me dizer, mulher? Como calma? Se nem você, minha parceira de tudo na vida… se nem você votou em mim! Você tem alguma explicação para essa traição, Dasdores?

– Veja bem, Dedé. Você espalhou por aí, meu bem, pra quem quisesse ouvir, que já estava eleito…

– E com sobras…

– Pois é, amor. Como o meu irmão precisava de votos da família… você já eleito… com sobras… achei por bem votar nele.

E os dois – marido e irmão – amargaram a mais vergonhosa derrota numa eleição.

Moral da história: Dois cegos batendo à mesma porta só recebem “Perdoe!”.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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