Cartinha ao professor querido

Meu querido professor e amigo Diatahy.

Há intelectuais diante de cujos trabalhos talvez bastasse dizer: “Li o seu artigo, seu ensaio, seu livro etc.”, e desse registro tirar-se-iam as conclusões mais óbvias acerca dos mesmos, porque dotados de qualidades tão esperadas que nada mais deveria ser dito em acréscimo. Você está entre esses intelectuais, pelo pouco que tive o privilégio de ler de sua expressiva produção ao longo de muitos anos, em colunas de jornal, artigos acadêmicos de mais fôlego e, a exemplo do que fiz recentemente, já aqui na serra, prefácios como o que produziu para o belo livro, de Ralph Della Cava, “Milagre em Joaseiro” (Companhia das Letras, 2014).

Como você, no entanto, em mais um gesto de humildade para com este seu amigo e aluno, pede-me uma opinião sobre o artigo “A violência da cidade e do programa radiofônico”, não me esquivarei a dizer sobre ele duas palavras, cuidando para, à maneira de Machado de Assis, que tanto admiramos você e eu, não desobedecer às qualidades que o Bruxo de Cosme Velho considerava incontornáveis no exercício da crítica: consciência e perseverança; coerência e tolerância; independência e imparcialidade. Vá lá que consiga fazê-lo, como disse, em duas palavras.

Começo por evidenciar o que mais me chamou a atenção mal comecei a ler seu artigo: uma atualidade que o qualifica como uma contribuição importantíssima para o debate em torno de um dos problemas “eternamente urgentes” do mundo contemporâneo e, como o seu texto evidencia, do Brasil, a que tomo a liberdade de acrescentar “de hoje”, governado por um fascista que nada fez nesses dois anos senão agravá-lo em proporções gigantescas. Nesse sentido, deixo uma sugestão: por que não reescrevê-lo, inserindo-lhe referências mais diretas à realidade difícil e pungente de agora, essa realidade em que as mulheres, os negros, os homossexuais e os pobres precisam tanto que nos ombreemos todos à sua causa? Sem isso, que me perdoe sair um pouco do assunto, não há Estado de Direito, não há liberdade, não há democracia! Há violência!

Volto ao seu texto. Que densidade de ideias, que clareza de estilo, que alcance bibliográfico para um ‘simples’ artigo…., como você responsavelmente observa, nascido de uma delimitação tão consciente e despretensiosa! No que, por sinal, como lhe é próprio, revela-se extremamente econômico, pois que o texto projeta-se para amplitudes de análise que o tornam exemplar notável de exame da violência e de sua repercussão em termos radiofônicos  —  que muito bem se aplica com correção, diga-se em tempo, a outros meios de comunicação. É ver o que têm feito com as pautas de nossos noticiários de TV para constatar o que digo!

A abordagem que faz do tema, tipificando-o em chave nova, é coisa que me chama a atenção com entusiasmo. Nesse sentido, você vai à raiz, revira entranhas, vasculha preconceitos, reescreve teorias, vira e mexe, faz e acontece, tudo sem perder o fio da meada, o leitmotiv da análise, o critério acadêmico, a visada original e inventiva (dando-se ao adjetivo o sentido que se pode permitir para um trabalho de cunho ‘científico’!).

Andando mais um pouco, como um formalista assumido, permita-me que faça alusão ao estilo: como você escreve bem, como tem um senso de medida, como sabe lidar com a palavra, azeitando a expressão com esmero, sem lhe tirar a leveza e a espontaneidade. Enfim, é notável o que faz com o estilo, mesmo num texto cuja razão de ser requer apenas objetividade, clareza, coesão, coerência, pertinência etc., essas qualidades em que você sempre foi um mestre e que dispensam referências mais atentas em se tratando de um texto de sua autoria.

Ao citar Marx, mesmo para um tempo em que é tão delicado fazê-lo, você teve a sensibilidade de um craque. Foi fundo na compreensão do que, nele, tomando por base o fragmento usado, é pura e fina ironia. Só isso já é prova de sua capacidade impressionante de lidar com a matéria examinada, o olhar voltado para o que persegue como articulista: o ‘nervo’ em que pulsa o elemento mórbido de uma sociedade mais criminosa que aqueles que condena, lançando mão de uma super-estrutura viciada e tendenciosa! Aqui, para que meu comentário não seja tão-somente um aplauso ritmado e febril, pelo que o seu rigor certamente me fará restrições (jamais me esqueci de suas aulas numa época que já vai distante!), juro que esperei um pouco mais de Foucault, do “Vigiar e punir”, constante de sua bibliografia, e de tantos outros textos ao meu ver incontornáveis, a que negou o seu olhar, frustrando-me expectativas!

No mais, seu artigo me impressiona e ensina!

Eram duas palavras. Cumpro o prometido! Mas como tinha ainda por dizer!

Abraço, desse seu amigo e admirador!

Álder Teixeira

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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