“CARTA ÀS BRASILEIRAS E AOS BRASIILEIROS”

O QUE NOS UNE E O QUE NOS SEPARA?

“Quando secam os oásis utópicos, estende-se um deserto de banalidades e perplexidade”.
Jürgen Habermas.

            É muito positivo e importante para a democracia quando várias lideranças religiosas, reafirmando e resguardando suas diferenças, juntam-se para promover atos ecumênicos em defesa da liberdade religiosa e do respeito e legitimidade da existência das diferentes matrizes religiosas na sociedade, como ocorreu quando um pastor da Igreja Universal, em um culto televisionado, apareceu chutando e desdenhando da imagem de Nossa Senhora Aparecida, num claro ataque e desrespeito à comunidade católica, bem como em outras ocasiões, quando os neopentecostais promoveram a devastação de terreiros em atos de violência contra as religiões de matrizes africanas.

            No campo político, em várias conjunturas, é possível e exigente que se possa juntar lideranças, partidos e movimentos e seus seguidores, em defesa de alguma causa comum mantendo e reafirmando suas diferenças. Atos em defesa da liberdade de expressão, pela democracia, contra golpes políticos, contra determinados governos, contra determinadas medidas econômicas e tantas outras, podem juntar atores políticos diferentes, que, no cotidiano, disputam espaço, interesses, poder e visão de mundo, sem que tenham que suspender ou deixar de tornar claras suas diferenças sob pena de serem levados a reboque, invisibilizados, de serem engolidos pela hegemonia dos atores  que, no momento, tomam a inciativa política e que  podem ser muito danosos para uma causa maior que justifica um horizonte político transformador e emancipatório.

            O manifesto político que partiu do setor financeiro, que alimenta a hegemonia do modelo de desenvolvimento neoliberal rentista/extrativista no país, desde o governo Color até Bolsonaro, com o título “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito! “, lançada em atos públicos pelo país no dia 11 de agosto de 2022, é um simulacro político porque seus autores, membros do sistema financeiro nacional e empresários, não são democratas e nem contra o fascismo. A carta é um manifesto político e um simulacro, pois, com ela, os banqueiros  se escondem e fogem da responsabilidade que pesa sobre eles pela promoção, apoio e sustentação da situação de miséria e pobreza em que se encontra o país, como consequência da suas ações em apoio ao golpe político de 2016 contra a Dilma, pela manutenção de Michel Temer no poder –  quando uma enxurrada de denúncias pesadas e comprovadas contra ele o impossibilitava continuar no poder -,  pelo apoio  às reformas neoliberais de Temer, como as privatizações e  a Reforma Trabalhista, pelo apoio à violação do Estado de Direito promovida por Sergio Moro para prender Lula, pelo apoio e a  sustentação no poder Bolsonaro e às reformas neoliberais do Paulo Guedes até o último semestre do seu mandato.

Pesa sobre eles o apoio à política de abrir as porteiras contra o meio ambiente, contra os povos indígenas, ambientalistas, quilombolas e ribeirinhos promovido por Bolsonaro, o apoio à política genocida de Bolsonaro no trato da pandemia. Portanto, é uma ilusão achar que os que controlam o processo de dominação política e exploração econômica no país têm compromisso com a democracia, e isso deve ficar claro no momento em que há o interesse comum em barrar Bolsonaro no governo.

            Por que o setor financeiro e outros setores do capital resolveram, no fim do governo Bolsonaro, lançar um manifesto político contra o governo que eles patrocinaram e sustentaram no poder, comentando, diariamente, ataques contra a democracia e fascistizando o Estado e a sociedade? Porque os agentes financeiros e comercial do mercado internacional sinalizaram que a continuidade do mandato de Bolsonaro era uma ameaça à reprodução da superexploração do trabalho no Brasil. Pasmem, Bolsonaro se tornou menos confiável para o projeto do capital do que Lula, além disso, Paulo Guedes, o superministério de Bolsonaro, perdeu a capacidade de ser o avalista do governo junto ao mercado.

            A carta do setor financeiro é um simulacro porque não tem como objetivo defender a democracia, mas defender seus interesses, a agenda neoliberal rentista/extrativista, que passou a ser ameaçada pela continuidade de Bolsonaro no governo. A carta tem como objetivo, ainda, criar um movimento de massas que, camuflado pela bandeira da defesa da democracia, possa engessar um futuro governo Lula na sua agenda neoliberal e, por último, evitar que suas responsabilidades pelo lugar em que colocaram o país sejam questionadas e que eles continuem como os intocáveis donos do poder.

            Quando a carta dos banqueiros diz “vivemos em país de profundas desigualdades sociais, com carências em serviços públicos essenciais, como saúde, educação, habitação e segurança pública. Temos muito a caminhar no desenvolvimento das nossas potencialidades econômicas de forma sustentável. O Estado apresenta-se ineficiente diante dos seus inúmeros desafios”, aqui são perversos e cínicos, camuflam a realidade, não diz que eles aparecem no ranque da revista Forbes como bilionários porque acumularam dinheiro, capital e riquezas, promovendo, para a maioria das brasileiras e brasileiros, toda essa situação de profunda desigualdades sociais, não dizem que sua riqueza é conseguida pela produção e manutenção contínua dessa profunda desigualdade causada pela superexploração do trabalho, de sonegação fiscal e investimentos de recursos públicos. Não dizem que defendem a privatização, que torna o Estado ineficiente para prover a sociedade de serviços quantitativos e qualitativos de saúde, educação, cultura e segurança pública.

            A carta do setor financeiro é um simulacro porque é um discurso cretino que esconde que o setor financeiro foi o criador e o apoiador da PEC da Morte, que congelou por vinte anos os gastos públicos em saúde, educação, segurança pública, cultura e defesa do meio ambiente para que o dinheiro público, retirado por meio de impostos dos pobres, fosse drenado para o setor financeiro e em investimentos na iniciativa privada. O que o setor financeiro e empresários fazem agora, abandonando Bolsonaro, é o mesmo que fizeram com Lula e o PT, quando eles já não lhes eram úteis no comando do governo administrando seus interesses.

            Amarílico Macedo, CEO do Holding do Grupo J. Macedo, em artigo publicado no Estado de São Paulo, de 21 de julho de 2022, na condição de capitalista, é bem claro ao afirmar que a continuidade de Bolsonaro é um empecilho para os negócios dos capitalistas brasileiros. Em seu artigo, ele pergunta aos seus colegas capitalistas: “como poderá desenvolver-se um país sendo repudiado pela comunidade internacional? O que acontecerá ao Brasil, se formos submetidos a boicotes? ”.  A linguagem da escrita de Amarilho Macedo diz muito: desenvolver o país significa os capitalistas brasileiros continuarem acumulado capital nas mãos de poucos milionários e alguns bilionários; desenvolver o país significa os setores do capital continuarem acumulando riqueza. O Brasil submetido a boicotes, é o mercado como se fosse a nação.

Amarílio Macedo, no mesmo artigo, alerta aos seus amigos de classe para a barbárie que pode ser produzida pela sociedade que chega à exaustão diante da brutal exploração, empobrecimento e condição de miséria que eles vêm condenado a maioria da população brasileira, ele abre seu artigo afirmado: “nossas elites menosprezam a cara da revolta”; e, no parágrafo seguinte, deixa claro: “parte significante da nossa elite, em sua insensibilidade e ignorância, não vê a potencialidade destruidora de uma força social descontrolada, desorganizada e crescente, dos que já não têm mais nada a perder e que poderão passar a agir no tudo ou nada. Pessoas invisibilizadas, discriminadas e desesperançadas são capazes de explodir como uma horda desenfreada, pronta para ultrapassar todo tipo de barreira e quaisquer limites”.

Os banqueiros e empresários têm consciência de classe e sabem que seu dinheiro, seu capital e suas riquezas e seu seleto modelo de vida são frutos de seus investimentos políticos e de múltiplas formas de dominação e exploração aplicadas contra a população. O artigo de Amarílio Macedo deixa a coisa bem clara e mostra como eles têm medo de uma revolta das massas, de como eles são cínicos em se colocarem em defesa da democracia como um simulacro para esconder seus interesses. Fica claro como eles precisam de um candidato que possa segurar a revolta das massas e como a continuidade de Bolsonaro no poder pode ser o estopim à revolta das massas.

 É lamentável assistir lideranças que se dizem de esquerda, socialistas, marxistas e partidos que se dizem defender os trabalhadores silenciados diante desse simulacro, como se o “fora Bolsonaro” fosse um ato de todos juntos, no qual se anulam as diferenças e as divergências; bem, mas pode ser mesmo é que não haja diferenças. Todavia, nesse itinerário conjuntural, cabe uma pergunta: depois da derrota de Bolsonaro nas urnas, seguirá o capital financeiro rentista/extrativista dando as cartas do jogo e alguém no governo segurando a revolta das massas com pirulitos de chuchu?

Estamos em uma conjuntura que tornou possível identificar Bolsonaro como um inimigo comum dos setores financeiros rentistas/extrativistas, dos democratas de direita, dos democratas de esquerdas e de amplos setores da sociedade. É possível, sim, juntar-se contra Bolsonaro para preservar o que nos resta de liberdade política no país e barrar o processo de fascistização do Estado e da sociedade, mas é preciso que, nesse processo, sejam explicitadas as diferenças. É preciso deixar claro que se trata de uma unificação conjuntural e pontual, que se trata de uma unificação de momento, mas, sem diferenciação, corre-se o risco de ser engolido e homogeneizado pela onda e pela agenda que tomam a iniciativa de maior visibilidade e de apelo de massas, principalmente diante de um país carente de novas lideranças políticas, de novos pensamentos, de novos debates, carente de projetos alternativos para a Nação e de desmobilização das massas.

O Brasil, como Nação inventada, a partir da formação do sistema-mundo moderno/colonial, por meio da violenta invasão e saque de suas riquezas pelos portugueses, ao longo se sua história, parece temer a sua guerra civil nacional contra seus dominadores e exploradores. Os brasileiros nunca saíram da situação de resistência contra seus dominadores e exploradores, nosso Hino Nacional diz que brasileiro não foge à luta, mas as suas lideranças, a maioria politicamente aburguesada ou epistemologicamente eurocentrada, sempre que a conjuntura política exigiu ruptura com a ordem capitalista, amarelaram, pularam o desafio, para continuar a resistência sem ruptura.

Amarílio Macedo pode ter razão, com a atual oposição situacionista que temos no país, sem um horizonte emancipatório, que, em nome de um chamado “realismo político”, passou a se acomodar num ciclo vicioso de disputa do poder pelo poder, a mudança estrutural contra o capital no Brasil só poderá emergir da “potencialidade destruidora de uma força social descontrolada, desorganizada e crescente, dos que já não têm mais nada a perder e que poderão passar a agir no tudo ou nada”.

No Brasil, um país inventado a partir da formação do sistema mundo moderno/colonial, a potencialidade destruidora não será de esquerda, de direita e de centro. Não será azul, vermelha, rosa, amarela ,verde ou branca. Será periférica, preta e decolonial.

Uribam Xavier

Uribam Xavier - gosta de café com tapioca e cuscuz, peixe frito ou no pirão, de frutas e verduras, antes de ser hipertenso era chegado a uma buchada e a um sarapatel. Frequenta o espetinho do Paraíba, no boêmio e universitário bairro do Benfica [Fortaleza], e no pré-carnaval segue o bloco Luxo da Aldeia. É professor, ativista decolonial e anti-imperialista, escrever para puxar conversa e fazer arenga política. Seus dois últimos livros são: “América Latina no Século XXI – As resistências ao padrão Mundial de poder”. Expressão Gráfica Editora, Fortaleza, 2016; “Crise Civilizacional e Pensamento Decolonial. Puxando conversa em tempos de pandemia”. Dialética Editora, São Paulo, 2021

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