Carta aberta a Gustavo Petro

“Toda revolução parece impossível até que ela é inevitável.”

Leon Trotsky

​Se o senhor houvesse triunfado juntamente com o grupo de revolucionários do M-19 (Movimento 19 de abril, grupo que se insurgiu incialmente contra a corrupção eleitoral em 1970, e depois aderiu à guerrilha urbana, tendo sido perseguido pelo exército colombiano com violência extrema e muitas mortes) a que você pertencia nos idos dos anos 80, e tivesse assumido o poder político na Colômbia, ainda assim, teria que enfrentar a contrarrevolução derrotada e suas múltiplas garras ainda vivas e aptas a solapar qualquer atividade de rompimento com as categorias capitalistas ainda igualmente vivas.

​Como todo processo revolucionário vitorioso e abrupto de esquerda na história recente de rompimentos com as democracias burguesas ou ditaduras burguesas, e em face da contrarrevolução à espreita para intervir em qualquer demonstração mais abrangente de insatisfação popular, teria que conviver inicialmente com as categorias capitalistas decadentes, quais sejam:

– o valor e sua representação numérica, a mercadoria e padrão monetário dinheiro;
– a mercadoria trabalho abstrato produtor de valor;
– as mercadorias produzidas por esta modalidade de relação social;
– o mercado, altar do sacrifício social;
– o Estado e sua piramidal função de opressão social;
– a política, e sua infernal arte de iludir e domesticar revolucionários;
– o partido político único, pretensamente (e ilusoriamente) capaz de absorver e executar a vontade popular (mentirosamente) nele condensada;
– as relações comerciais internacionais;
– a ameaça externa de apoio aos contrarrevolucionários de sempre;
etc., etc., etc.

Por mais sensibilidade social que tivessem, e não se duvidaria disto, a dinâmica da lógica capitalista ainda vigente, mesmo que com um governo que lhe tivesse um sentimento antagônico, as regras cartesianas e ditatoriais do capital lhe fariam tomar atitudes impopulares, na base do mal menor para salvar a governabilidade sob tais pressupostos.

Com doutorado em economia e especialização em Universidades estrangeiras, mais do que ninguém, Gustavo Petro, o senhor deve saber disto, ou seja, da essência subtrativa, excludente e cumulativa do capital.

Certamente não se rogaria em tomar tais atitudes pretensamente salvacionistas, até porque até Lenin, com todo o entusiasmo bolchevique ainda vivo, optou por implantar a NEP – Nova Política Econômica, que consistia em concessões ao capital russo, para evitar o colapso do abastecimento na Rússia revolucionária dos anos vinte, imediatamente anteriores à sua morte em 1924, continuada e incensada por Stalin (e aí a provisoriedade se tornou cada vez mais permanente).

No contexto revolucionário abrupto, tudo se aceita como medidas paliativas e provisórias, como se fossem remédios amargos mas tidos como necessários para a consecução de um objetivo maior e definitivo: a implantação de uma sociedade comunista, na qual todas as categorias capitalistas antes elencadas deixariam de existir.

Entretanto, como é sempre difícil abdicar do próprio poder piramidal do Estado, permanecido e exercido pela cúpula (comitê central) do partido único numa retroalimentação de poder político e econômico, o que se observa é que de adiamento em adiamento, termina-se sempre por se acostumar com o capitalismo de Estado, e num determinado momento, premido pelas necessidades, promove-se a inevitável abertura ao capital externo como concessão (pretensamente) vigiada, seja:

– para a obtenção de crédito perante o capital internacional;
– pelos impostos que seriam cobrados;
– pela imperiosa necessidade de modernização de suas indústrias para fazer face ao capital industrial internacional;
– pela necessidade de criação de novos empregos (leia-se mais exploração do trabalho abstrato e extração de mais-valia);
– pela simples ambição de se tornar um Estado economicamente rico (como a China, baseada na exploração dos baixos salários), e com o capital lhe servindo de modo de relação social de produção de mercadorias.

E não se esqueça, tudo sob o pálio de um cada vez mais desbotado outdoor de Karl Marx, patrocinado por uma empresa estatal.
Mas você, senhor Presidente de esquerda, como ex-revolucionário aderente à democracia burguesa pela qual se elegeu, e sendo ex-Prefeito de Bogotá; ex-senador; e economista com estudos de doutorado nas normas de administração pública burguesa num curso de pós-graduação que fez, certamente que se sente capaz de (inadvertidamente) domar a ditadura do capital e colocá-lo a serviço do povo. Não é?

Infelizmente o capitalismo tornou o mundo refém da sua lógica autotélica insensível à vida e de modo meramente utilitário desta, e todos terminam obedientes a ela. Tal fato cria uma contradição irresolúvel entre a rigidez ditatorial dos seus pressuposto de um lado, e as relações humanas do outro.

A coisa funciona mais ou menos assim:

– não se produz nada sem a famigerada viabilidade econômica, ou seja, somente se produz algo se se puder extrair mais-valia e lucro;
– não há mais lucros suficientes porque se exauriu a demanda de consumo;
– não há demanda de consumo porque não há salários suficientes e emprego pleno;
– há salários globalmente decrescentes por conta da concorrência de mercado na produção das mercadorias que se regem pela lei da oferta e da procura;
– sem permanente venda de mercadorias não há produção destas;
– sem produção de mercadorias e correspondente vendas cai e a redução dos valores destas em face de baixos salários e uso tecnológico aplicado à produção e, assim, cai a massa global de valor;
– se cai a massa global de valor cai a arrecadação fiscal e aumenta o endividamento público e cai o atendimento às demandas sociais pelo Estado.

Os fatores acima elencados provocam a depressão econômica irreversível que os adoradores do totem valor de todos os matizes não aceitam, e se dispõem a administrar a escassez.

Diante de tudo isso é preciso ter coragem de romper com a chantagem impessoal, implícita e coisificada da lógica decadente do capital, e isto os governantes de esquerda presos aos seus juramentos constitucionais e obedientes às instituições do Estado, uma vez ungidos ao poder político Estatal, tentam obedientemente administrar uma crise que não é sua (ou não deveria ser) e não se dispõem em pegar o boi pelo chifre.
São quase inexistentes os exemplos fora desta trilha de deslumbramento com o poder burguês.

Mas a vida está colocando diante de nós a seguinte condição: ou rompemos com o capital e estabelecemos um modo de relação social fora dele e de sua forma valor, ou se sucumbe com junto com ele.

Mais perigoso do que os riscos reais da insurgência contra o capital é a cruel ignorância e passividade diante dele.
Grassa na América do Sul um sentimento de insatisfação expressos nos exemplos das cíclicas alternâncias de poderes políticos burgueses entre a esquerda (como nos casos recentes da Bolívia, com ora com o economista Luís Arce; com Gabriel Boric, no Chile; e Pedro Castilho no Peru) e a direita (de Boçalnaro, o ignaro, no Brasil, de recém derrotado Maurício Macri, na Argentina, e Guillermo Lasso, no Equador, ora em forte ebulição).
Uns acreditam no autoritarismo de alguns pretensos iluminados para a solução dos problemas sociais; outros acreditam na ideia de que o capital pode ser domesticado e bonzinho, dependendo do governante de plantão.

Perdoe-me, Senhor Gustavo Petro, se nesta carta aberta frustro o seu encantamento de recém-eleito e lhe faço o alerta de que não basta ser bem intencionado, mas é preciso ter coragem e discernimento, pois como disse Marx, o inferno está cheio de bem intencionados.

A Colômbia, apesar de sua grande capital Bogotá e seus 6 milhões de habitantes (uma espécie de Rio de Janeiro em população), é um país pequeno, se comparado à extensão territorial do Brasil e de toda a América do Sul, e isto lhe impossibilitará a tomada de decisões isoladas de um modo de produção social fora da lógica capitalista e voltado para o atendimento das necessidades de consumo de toda a sua população capaz de promover a inclusão de toda a população autóctone colombiana empobrecida e segregada.

Sei que certamente a primeira coisa que o senhor fará ao assumir o cargo de Presidente será jurar o respeito à constituição burguesa vigente e que estabeleceu as regras eleitorais sob as quais saiu vitorioso, e é difícil negar aquilo que que lhe permitiu chegar ao poder político burguês.

O poder e suas benesses costumam “amolecer” os revolucionários, e muito mais os ex-revolucionários, principalmente quando estes estudam a dinâmica da administração do capital sob o ponto de vista burguês e suas regras de administração pública.

Mas não se iluda.

Se os próprios capitalistas entraram em desgaste popular por conta da incapacidade matemática financeira (e não apenas administrativa) de suas administrações proverem eficazmente as demandas públicas básicas, (e por isto perdem eleições e aceitam as derrotas eleitorais conscientes do que esperam, em data futura próxima, verem fracassados os ex-revolucionários aderentes ao poder burguês), não acredite na capacidade de administrar bem o capitalismo a partir do seu aparelho de Estado, especialmente em meio a uma crise mundial.

Não acredite em tornar o aparelho de Estado cobrador de impostos e mantenedor da estrutura de poder institucional do Estado burguês como instrumento de redenção popular.

Não acredite na simpatia dos organismos internacionais capitalistas para com o seu governo, mesmo que você demonstre, como Lula, um alinhamento amistoso com o capital nacional e internacional, mas, principalmente, esteja preparado se você colocá-lo na direção de uma ruptura, como fez Salvador Allende.

Caso se direcione no sentido da ruptura (o que não se prenuncia pelo que observamos da sua administração como Prefeito de Bogotá) neste caso deve estar preparado para o sacrifício honroso a que estará submetido.

Entretanto, se procurar se aliar com outros líderes sul-americanos no sentido da ruptura com o capital, isto deverá estimulá-los e servir de exemplo para a América latina e o mundo, e poderá contar com o apoio que está nascendo de uma certa fenomenologia mundial do tempo como resultante um povo que já demonstra cansaço com a miséria que se alastra mundo afora e as perspectivas sombrias de aquecimento global fruto da predação ecológica igualmente mundial.

Oxalá estejamos diante de um presidente eleito (o que infelizmente dividamos, pelos precedentes mais recentes) que pratique a segunda hipótese ora levantada e que se junte aos outros governantes recém-eleitos da América do Sul (dúvidas igualmente presentes) e formem uma aliança sul-americana continental de autossuficiência sob um modo de produção social capaz de nos resgatar a todos da miséria centenária e fazer frente à contrarrevolução inevitável e implacável.
Afinal, com a Colômbia, e mais o Brasil, Bolívia, Venezuela, Chile e Argentina, além de outros que virão na esteira do bom exemplo, a América do Sul tem possibilidades de que tal aliança continental de esquerda consequente seja vitoriosa, e tudo antes que a direita volte novamente ao poder político pelas mãos de um povo descrente em nós.
Basta de pêndulo da ineficácia político-administrativa do aparelho de Estado do capital.

Boa sorte.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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