Carpe Diem

Está no Livro I de ‘Odes’, do poeta romano Horácio (65 a.C.- 8 a.C.), e significa “aproveite o dia”. Serve como chamamento a que não se deixe para depois o que existe de bom — não num dia específico, mas a cada novo dia de nossas vidas.

No texto horaciano o eu-lírico dirige-se a Leucônoe com a expressão carpe diem, quam minimum crédula póstero, que, numa tradução livre, pode ser compreendida como “aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã”.

O conteúdo da máxima de Horácio aparece na grande literatura em diferentes momentos históricos, e em obras de autores das mais diferentes extrações estéticas. No cinema, imortalizou-se, por exemplo, na sequência clássica do filme “A Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), do diretor Peter Weir, quando o professor John Keating, numa interpretação sublime de Robin Willians, conclama seus alunos a aproveitar a vida e buscar a felicidade.

Foi no que pensei ao ler a notícia da morte do herdeiro do grupo Pão de Açucar, João Paulo Diniz, aos 58 anos, na cidade de Paraty, onde participava de competição de triatlo.

Dono de uma fortuna incalculável, esportista, homem de hábitos saudáveis, terá vivido rigorosamente a máxima latina, tendo, no campo da vida amorosa, namorado mulheres lindas (Gisele Bündchen, Luana Piovani e Daniella Cicarelli entre elas), até se dizer, na plena maturidade, um homem realizado como chefe de família ao lado da mulher Ana Garcia, mãe de dois de seus quatro filhos.

Impressionaram-me, no que li sobre a morte do jovem empresário paulista, os depoimentos unânime de amigos acerca do seu caráter e da sua visão social, o que não deixa de surpreender em se tratando de um capitalista brasileiro de perfil tradicional.

Para as pessoas ouvidas, João Paulo Diniz era detentor, antes de tudo, de um ‘carisma’ invulgar. A palavra, sabe-se, originária do grego, significa ‘graça’, ‘favor’, e, do ponto de vista da filosofia, é comumente utilizada para definir aquele que possui uma irradiação individual, que é capaz de vencer, por suas qualidades extraordinárias, as grandes dificuldades.

Para Max Weber, o pensador alemão, carismático é o ser “dotado de forças sobrenaturais ou sobre-humanas”.

Ocorreu-me lembrar de como João Paulo Diniz escapou da morte, há muitos anos, enfrentando, a braçadas, o mar revolto do Rio de Janeiro (ou São Paulo?) por horas e horas após cair com seu helicóptero em águas profundas, durante intensa tempestade. À época, comoveu a todos a forma como descreveu seus vãos esforços para salvar a modelo e sua namorada Fernanda Vogel.

Nada havia nele, por certo, que justifique a mínima idealização. Não me parece que tivesse o heroísmo e nem a abnegação à causa dos outros, o que só é próprio dos homens superiores. Morreu como morrem todos os dias tantos e tantos, alguns de forma plenamente evitável, infelizmente: vítimas de balas perdidas, de atos injustificáveis de uma polícia despreparada e violenta, de tiros desferidos por fanáticos, ou desassistidos, em casa, ou mesmo largados nos corredores dos hospitais.

Mas sua morte, particularmente lamentável por se tratar de um homem ainda tão jovem, pelo que exemplifica na particularidade das condições privilegiadas da vida que levou, reacende-nos uma velha lição.

Aproveitemos o dia!

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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