Cantinho paragramatical, por Luciano Moreira

– Ainda sou o mesmo (homem, cidadão, amigo, sonhador)

Alô!

Professor, boa noite! Que bom ouvi-lo! Tudo bem?

Doutor, boa noite! Há quanto tempo! Aqui, comigo, tudo na mais perfeita desordem, como sempre. E com você? Com a família? Com a vida?

Tudo em paz. Hoje, lembrei-me de nossos etílicos encontros dos domingos à tarde. Uma boa conversa… uma cerveja gelada… sem a menor preocupação com o mundo lá fora.

Bons tempos, amigo! Bons tempos. Mas a vida é assim mesmo. Cheia de fases. Nós é que temos de saber saboreá-las na medida certa.

Sem excessos e sem comedimentos; com prudência e sem açodamentos. Como dizia o poeta. Lembra-se disso, professor?

E por que não?! Todos os membros de nossa peculiar confraria tornaram-se, pelo menos para nós, imortais… com suas inteligências raras, com suas sensibilidades divinais, com seus saberes indeléveis. Deles e de seus ensinamentos, não nos esqueceremos jamais.

É verdade. Professor, a minha parceira acaba de me formular uma questão deveras interessante. Ela quer saber se estão corretas as seguintes frases proferidas pelo inoxidável Faustão, no programa de hoje. Num determinado momento, ele teria dito “São trezentas milhões de armas” e, mais adiante, repetido “São duzentas milhões de visualizações”. Ela defende que se trata de expressões incorretas, porque não soaram bem aos ouvidos dela. Confesso que com os meus também não ocorreu a sintonia fina, entende? O que você acha disso, amigo?

Doutor, diga pra sua parceira que o vocábulo milhão, bem como seus irmãos mais bem apetrechados – bilhão, trilhão, etc. –, compõem um grupo que a gramática define como substantivos coletivos numéricos, dadas as suas equivalências. Por exemplo, “milhão” significa “mil milhares”.

É o mesmo que acontece com “milhar”?

Isso. Esse conceito gramatical abrange também o cento e o milhar e, por extensão, a centena, a dezena. Assim, a concordância nominal do numeral que anteceder tais substantivos dá-se com eles, e não com o substantivo formador ou núcleo do partitivo que os sucede: “de pessoas”, “de armas”, “de reais”. Logo, o correto é “São trezentos milhões de armas” e “São duzentos milhões de visualizações”. E aí vai uma dica: mire na preposição “de” que segue imediatamente tais coletivos. Ela funciona como um anteparo, como uma barreira impeditiva da concordância entre o numeral – “trezentos”, “duzentos” – e o núcleo da locução por ela introduzida.

Professor, ouvi recentemente uma pessoa ilustre, num discurso de bom teor argumentativo, asseverar que “Cerca de duas milhares de pessoas haviam postado mensagens”…

Pois é. Bom teria sido que tal pessoa ilustre não tivesse deixado contaminar a sua elocução com a natureza do “mil”, este sim numeral. Repare que não existe “um mil”. “Mil” é o numeral. Pode-se dizer “Cerca de duas mil pessoas…” ou “Cerca de trezentas mil armas…”, mas deve-se dizer “Cerca de dois milhares de pessoas…” ou “Cerca de trezentos milhares de armas…” Ficou claro, amigo?

Sim, professor. E quando se diz “Milhões de fiéis assistiram à missa papal”?

Com a intenção de ênfase, oculta-se o numeral que delimitaria, por assim dizer, a expressividade do quantitativo que se pretende evidenciar, ressaltar, enfatizar. Deixa-se no ar uma incógnita: “ene” milhões, por exemplo. As pessoas eram tantas que não se tem como precisar ou até estimar quantas.

Há um outro caso a esclarecer. Li, em edição recente de jornal local, que “O governo do Estado não vai conceder reajuste linear dos salários dos servidores. Para o mesmo, cada categoria deve negociar em separado”. O que dizer desse “o mesmo”, professor? É certo que ele se refere ao governador?

Tenho aqui, em mãos, um livrinho delicioso, cuja leitura concluí recentemente. Ora reexamino as anotações e sublinhas que fiz ao longo da caminhada pelo Milagrário pessoal do angolano José Eduardo Agualusa. Manias de um leitor inveterado, mas envelhecido pelo tempo, que é inexorável, como bem dizia você, amigo. Há nele, no livro, uma passagem que o narrador e protagonista registra assim um fato insólito: “Voltando ao prodígio do menino trazido pelos lagartos, e por uma mulher muito alta que cavalgava os mesmos…” A sintaxe portuguesa condena esse tipo de estrutura, ou seja, o emprego desse pronome demonstrativo – mesmo, mesmos, mesma, mesmas – sem o acompanhamento de substantivo. “O mesmo homem e a mesma mulher se casaram na mesma igreja, sob as bênçãos do mesmo pároco…” Ele não exerce a função de pronome pessoal e, por isso, não pode substituir o “ele”, o “ela”, o “eles”, o “elas”, nem o “dele”, “dela”, “deles”, “delas”. Na frase dada, o recomendável seria “… a mulher alta que os cavalgava…” e o pronome “os” recuperaria facilmente o seu referente “lagartos”. E mais: não há equivalência entre o “mesmo” e o “este” e suas flexões, embora sejam eles pronomes demonstrativos.

Mas, professor, é muito comum esse tipo de uso…

Sim, é bem considerável a frequência desse equívoco linguístico. Há registro dele no texto constitucional vigente e até em Machado de Assis. Agora, muita atenção! Se “o mesmo” significar “a mesma coisa”, o emprego é dado como gramaticalmente correto. É o caso, por exemplo, de “O mesmo se há de dizer…” ou “A caridade não é o mesmo que a filantropia”.

E se eu disser assim, em relação à minha parceira, “Ela mesma percebeu o erro faustônico”. Desculpa o neologismo barato, por favor!

Credito isso à nossa amizade, que é longeva e assentada em alicerces pétreos. Esse “mesmo” é adjetivo e, como todos os outros, segue à risca os caprichos do substantivo ou pronome substantivado por ele qualificado. Assim, “Ele mesmo entendeu isso”, “Ela mesma regalou-se com os quitutes”, “Nós mesmos discutimos exaustivamente sobre a matéria”, e assim por diante. Note que ele evidencia um caráter reforçador. Basta comparar “Ela fez isso” com “Ela mesma fez isso”. Percebeu?

Sim. Valeu, professor! Mais uma vez, é muito bom ouvi-lo.

Creia-me, doutor: a recíproca é verdadeira. A frase pode ser antiga, mas os efeitos dela… e não da mesma… se renovam sempre. Um abraço fraterno, doutor!

Também, professor. Um abraço e até a próxima!

Até.

CUIDE BEM DE SUA LÍNGUA! ELA REVELA O SEU GRAU DE BRASILIDADE.

LEIA! FAÇA DA LEITURA O SEU LAZER PREFERIDO E VIAJE MUNDO AFORA NAS ASAS DA IMAGINAÇÃO. SUA E DOS OUTROS.

Post Scriptum:

Professor, você diz, em relação aos adjetivos, que eles seguem “à risca os caprichos do substantivo ou do pronome substantivado”. Esclareça-me, por favor, o que vem a ser “pronome substantivado”.

Amigo, a função do pronome é substituir ou determinar o substantivo. Quando substitui (faz as vezes de), é pronome substantivo – ELE (aluno) estuda; ELA (mulher) trabalha; NÓS (homens e mulheres) sonhamos. Quando determina (especifica, delimita), é pronome adjetivo – Prenderam TEU cachorro; Roubaram NOSSOS direitos; ESTE senhor está doente. Como você vê, o “pronome substantivado” a que me refiro é basicamente o pronome pessoal – eu, tu, ele, ela, etc. – que sempre substitui o substantivo e indica a pessoa do discurso (1ª, 2ª, 3ª).

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.