Bye Bye Brazil

O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que em 2021 a economia chinesa irá alcançar um crescimento em torno de 8%, um índice menor do que o previsto anteriormente. Uma das causas dessa queda situa-se na tensa relação com investidores estadunidenses do mercado de capitais que podem cortar seus investimentos em Hong Kong, que é responsável por cerca de 1/3 do financiamento de capital total da China, 2/3 da emissão de títulos offshore e 60% do investimento direto interno e externo. Mesmo assim, poucas nações conseguirão neste ano atingir um patamar de crescimento semelhante, com uma previsão do PIB de US$16 trilhões. Por exemplo, o Brasil de Bolsonaro e Guedes amargou, segundo dados oficiais, um crescimento praticamente nulo em 2019, antes da Covid-19, e uma queda de 4,4% no ano passado, com mais de 15 milhões de pessoas desempregadas e taxa de inflação de 23,14% (IGP-M).

Ao longo de 2020 as exportações chinesas superaram em muito suas importações, permitindo um crescimento firme, mesmo com a pandemia. O forte investimento público para esse resultado foi de fundamental importância. Enquanto isso, no Brasil de Bolsonaro e Guedes, a montadora Ford anunciou seu “Bye Bye, Brazil” nesta semana por meio do fechamento de todas as suas unidades. A partir de agora os brasileiros que quiserem adquirir veículos Ford terão de importá-los das fábricas no Uruguai ou na Argentina.

Cerca de seis mil famílias brasileiras serão afetadas diretamente com o fechamento destes postos de trabalho diretos, além de tantos outros milhares indiretos, agravado pela queda na arrecadação dos estados devido à perda de carga tributária, como são os casos da Bahia (Camaçari) e Ceará (Horizonte). E ainda, um grupo industrial que estivesse pensando investir no Brasil de Bolsonaro e Guedes, com certeza, agora, terá de pensar duas vezes com esse movimento de retirada da montadora. A Ford sai porque, entre outras coisas, o mercado de consumo e exportação de veículos no Brasil despencou. Em 2013, no governo Dilma Rousseff, a produção alcançou o número de 3,5 milhões de veículos fabricados; agora no Brasil de Bolsonaro e Guedes desabou para 2 milhões.

Por outro lado, a China tem sido apontada como o país que mais obteve sucesso com a contenção da pandemia até o presente momento. Ao lado da Islândia e do Bahrein, ela é um dos três países que já tem mais cidadãos vacinados contra o Covid-19 do que o número total de casos da doença confirmados naquele país. Aqui, com mais de 200 mil mortes pela pandemia, o ministro da saúde, general Pazzuello, na segunda-feira 11, numa apresentação do Plano Estratégico de Enfrentamento à Covid-19, no estado do Amazonas, afirmou: “Todos os estados receberão simultaneamente as vacinas, no mesmo dia. A vacina vai começar no dia D, na hora H”. Só que o general não esclareceu se a vacinação terá início no mês M, no semestre S e no ano A. Fica aberta a questão.

Pensar esses números negativos e performances catastróficas de autoridades brasileiras nos últimos cinco anos (2016-2020) apenas a partir do Brasil seria um erro. Isto é consequência da espionagem estadunidense, como revelou Edward Snowden, visando assaltar as riquezas da Petrobrás e do Pré-Sal; riquezas que são fruto de um projeto de construção da autonomia nacional colocado em marcha com os governos Lula (2003-2010) e Dilma (2011-2015). Muito antes do lema de Trump – “America First” – já havia uma definição estratégica do Deep State estadunidense formulada na sentença: “One world, One empire”. Só que eles se esqueceram de combinar com osconcorrentes russos e os chineses, como diria o nosso saudoso Mané Garrincha. Eis a questão. Daí a necessidade de destruir qualquer projeto brasileiro de potência regional no Atlântico Sul, articulado com os BRICS. Para isso construíram, junto com a burguesia nacional, a operação Lava Jato de Curitiba, as manifestações de rua, o domínio do fato, o impeachment de Dilma Rousseff, as ameaças do comandante do exército ao STF na votação do Habeas Corpus de Lula em abril de 2018.

Em sua primeira visita oficial aos EUA, em meados de março de 2019, Bolsonaro aderiu abertamente aos ditames da política externa de Donald Trump, demonstrando uma submissão comparada somente “às relações carnais” como ficaram conhecidas as tratativas subservientes dos governos do argentino Carlos Meném nos anos 1990. Em março, Bolsonaro comprometeu-se em retirar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém (Israel); sair da Unasul; recuar em seu protagonismo nos BRICS; emitir sistematicamente por meio de seus filhos e chanceler declarações ríspidas contra a China; desengajar-se paulatinamente do Mercosul; com a disposição para ir às vias de fato contra a Venezuela; oferecer a Base de Alcântara aos EUA. (MENEZES, Roberto Goulart. Governo Bolsonaro: a busca de relações carnais com os EUA?. 5º. Simpósio da Faculdade de Ciências Sociais. UFG, 2019).

Além disso, o alinhamento automático de Bolsonaro com Trump o fez emitir declarações sobre a imigração no mundo contemporâneo: tratou os imigrantes como criminosos e defendeu a construção de uma muralha na fronteira dos Estados Unidos com o México. Faltou pouco para o governo Bolsonaro oferecer recursos do BNDES para financiar o muro.

Há ainda brasileiros que nutrem admiração pela política externa imperialista estadunidense. Há inclusive quem tenha seu malvado preferido: Obama, Trump ou Biden. Parece importante relembrar que no final do século passado o Pentágono publicou o documento Joint Vision 2000 fundamentando a estratégia do espectro da total dominação global. Dito de outra forma, a política externa estadunidense se inspira ideologicamente num pretenso “destino manifesto de povo eleito por Deus” de guardiães da ordem mundial a partir de sua interpretação imperialista. Para eles, sua exclusividade de poder mundial é um imperativo categórico, e o defendem com unhas e dentes, guerras, golpes, terror e caos utilizando-se dos capitães-do-mato regionais que lhes são subservientes.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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