Bunda de saúva torrada na boca

Arapuã selvagem impregnou no cabelo do menino. Deu dó. Mas o menino era do mato e do mato sabia-se menino-arapuã selvagem correndo e gritando e gostando do gosto da bunda de saúva torrada na boca. Era inverno.

Chovia enquanto fazia sol e o menino ouvia histórias de que alguma raposa estava se casando. Corria o dia inteiro, porque também era feriado no mundo do menino. Se brigava na rua, criava uma inimizade de morte que nem a dos filmes que passavam à tarde na televisão e no outro dia nem se lembrava. Tinha mais o que fazer, brincar. E à noite, entrando em casa, uma vez lhe disseram que a rasga mortalha quando piava tinha que dizer “viva os noivos” para não se ter maldição nos caminhos.

Tinha uma tia-avó, magrinha, pequenininha, que ainda menor o carregava no colo, e cuidava dele quando a mãe ia dar aula, talvez tenha até passado noites ao lado dela quando tinha aquelas doenças que se tem quando se é menino e é preciso ficar forte quando estiver crescido, caxumba, papeira, catapora, tanto nome.

O menino já era grande quando a tia-avó resolveu partir. Já era adulto quando percebeu. Lembrou do “cai, coco, cai, coco”; lembrou das pipas de palito que enganchavam nos galhos da mangueira, do pé de cajá; lembrou quando a família ficava toda junta aos domingos no terreiro, falando coisas de família, essas chatices que o menino preferia jogar bola com os vizinhos a dar ouvido.

Mas ele já era adulto quando percebeu que a tia-avó não estava, anjo da guarda protetor que precisou ir no passado como precisou ir dia desses na lembrança desse adulto um tanto menino. Gosto de bunda de saúva torrada na boca; saudade da tia-avó e reencontro desse menino que já não corre no meio do terreiro.

Pedro Henrique

Pedro Henrique

Escritor, crítico e ensaísta. Livros publicados em 2020 em formato digital, possíveis de serem adquiridos com o autor: Bibelô de recordações; Relicário perdido; Heteronímia; Crônico; Rústico. Licenciado e Mestre em Filosofia pela UECE, Doutorando pela UFRJ. Reikiano e Massoterapeuta pelo espaço Ekobé. Perfil no instagram: @pedrenrique_insta. Encontra-se desempregado e qualquer contato pode ser feito também pelo e-mail: [email protected]

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