Bullying: Desculpa, não temos roupa para você

Hoje o assunto é delicado, e polêmico. Que divide mares, e deixam profundas crateras escuras no meu relacionamento com minhas leitoras. Mas senti a necessidade de escrever sobre isso, pela quantidade de emails que tenho recebido de desabafos, reclamações sobre a vida, e questionamentos.

Somos seres humanos e vivemos de fases, e etapas. A minha pior etapa foi no começo da adolescência, aos meus quatorze anos. Época de sair com as amigas, de conhecer gente nova, de paquerar, e também conquistei o poder de escolha das minhas próprias roupas. Era um marco na transição de menina a mulher, poder escolher meu próprio estilo, que fase. Todas as minhas amigas eram magrinhas, e eu? Noventa e seis quilos na época. Me sentia “a excluída”. Eu queria usar sainha curta, blusinhas tomara que caia, vestidinhos acinturados, e que coisa, eu queria usar shortinho jeans, assim como elas.

Sempre comprei minhas roupas de garimpos, ou mandava fazer. Aqui em Fortaleza, à uns dez anos atrás, não existia lojas “plus size” com a qualidade de hoje. Eram todas no mesmo padrão, batas para esconder a barriga, vestidos enormes e com estampas horríveis. Como deveria se vestir uma garota de quatorze anos? Era um pouco difícil de encontrar algo para uma gordinha fashion usar. Por muitas vezes chorei, pois eu queria ser uma garota normal, e usar as roupinhas da moda, como minhas amiguinhas da escola. Comecei a garimpar, garimpar, e até que achava coisas legais em lojas de departamento. Até meus dezesseis anos foi menos complicado, pois eu vestia 48. Mas a partir dos 16, minha guerra contra o peso começou. Eu cheguei a pesar cento e vinte e dois quilos, e passei a vestir cinquenta e dois.

Até então, eu conseguia comprar roupa em lojas comuns, mas vestindo em numeração especial, onde iria comprar? Lembro bem no dia que uma colega da escola chegou na festa de aniversário de uma das minhas melhores amigas com um short jeans lindo. Eu olhei, achei maravilhoso, lindo, perfeito, e perguntei onde comprava. Ela falou, e no outro dia fiz minha mãe e meu pai sair comigo às compras. Coisa que raramente acontecia. Quando me deparei com o short, abri um sorrisão daqueles. Já imaginava como iria usá-lo, onde iria vestir, nem pensei muito e entrei. Fiquei mexendo nas araras esperando que alguma vendedora se manifestasse, e notei que longe, no caixa, duas delas riam, e olhavam para mim. Uma delas veio na minha direção, me olhou dos pés à cabeça, e soltou o que mudou minha vida: Desculpa, não temos roupa para você.

Mas porque ela me atendeu daquele jeito? Porque riu de mim? Aquilo mexeu muito com meu interior, meu psicológico. Me fez chorar por meses, e me garantiu dois anos em uma psicóloga. Sofri, fiz dietas malucas, desmaiei, tudo para emagrecer, e entrar no padrão que a sociedade definiu. E em uma das minhas idas à psicóloga, ela perguntou pra mim se eu já tinha ouvido, ou lido na internet algo sobre o movimento plus size. Eu disse que não, e ela foi logo sorrindo, me chamou de linda, e me deu um cartão de uma amiga dela, que era produtora de moda. Chorei por mais três dias, até que resolvi ligar para a tal amiga da psicóloga. A conversa foi boa, e a proposta parecia ótima, marcamos um encontro. Ela mandou eu ir maquiada, e arrumada. Eu não sabia, mas eu estava indo para o meu primeiro casting.

Cheguei lá e já tirei fotos, e até duvidei da minha capacidade, neguei, ri, e cedi, quando ela me pediu para caminhar. Ela sorriu e soltou, “até que anda bonitinho, mas não tem altura, tem o rosto lindo, te quero para fotos”. Fiz meu primeiro ensaio para uma confecção que estava apostando nos tamanhos “G, GG e EG”, e pela primeira vez em toda a minha vida, eu me achei bonita. Por trás daquelas lentes, a magia acontecia, parecia não ser eu. Conheci um mundo totalmente diferente, o mundo da moda, e como as coisas eram lindas nele. Tive a oportunidade de conhecer e trabalhar com grandes pessoas, espiritualmente falando, pessoas que me ajudaram a crescer.

A fotógrafa com quem trabalhei era plus, e com ela descobri um pouco mais desse mundo. Eu não precisava esconder meu corpo, eu podia ser fashion, andar na moda, ser ainda mais linda, tudo isso possuindo ”minhas curvas”. Comecei a perceber que era minha estima baixa que afastava as pessoas de mim. Eu precisava me conhecer, me entender, me encontrar. Até perdi um namorado por falta de amor próprio. Eu era linda, como eu era.

Vocês devem estar se perguntando ”porque essa louca está escrevendo isso? Nada a ver! Fez redução, está emagrecendo, ai tá se achando a gostosa”. As pessoas tem extremos sabiam? Pessoas que são extremamente magras também possuem complexos, assim como o nariz de coxinha, a perna torta, o estrábico. É uma coisa natural do ser humano. Quando optei pela redução de estômago, foi porque meu tratamento já não tinha pra onde ir se eu não emagrecesse, eu estava morrendo lentamente, e isso eu não queria. Sentia dores, dificuldade ao andar, não ficava muito tempo em pé porque os pés inchavam, meu pé operado não aguentava mais subir escadas, andar no shopping ou correr com meus sobrinhos pequenos. Era essa vida que eu queria pra mim? Uma vida de pressão alta, diabetes, de um fígado 100% coberto de gordura, e morte parcial?

Aprendi que eu tenho que me amar assim, como eu sou, como Deus me criou, para que eu traga pessoas para perto de mim. As melhorias surgem à medida que o tempo passa. Se minha única saída era cirurgia, eu fiz! E não me arrependo. Cheguei a sentir inveja de gordinhas lindas e saudáveis, e da quantidade de amor próprio que brotam delas. Pra que cirurgia se o seu mundo é cor de rosa? Se você tem uma saúde de elefante? Se ame. Depois de um tempo você começa a perceber que nada nessa vida é pra sempre, e que tudo pode de alguma forma ser mudado. A gente percebe também que as pessoas mudam, que os pensamentos mudam, e que se você não mudar, a vida muda você.

Se destrua, e se remonte. Junte peça por peça, por mais doloroso e difícil que seja. Se desfaça de conceitos velhos, e procure novos ideais pelos quais lutar. Procure motivos concretos para tudo, nada de achismo, ou suposições. Procure o seu lugar no mundo. Lembre-se que tem várias saídas, e que para tudo se tem um jeitinho. Só não tem jeito pra morte, e sei que você não vai querer morrer agora. Então pare de ficar chorando, porque lágrimas, não fazem mudanças, é só o início delas. Levante, e vá atrás do que você quer.

Karlla Queiroz

Karlla Queiroz

Karlla Queiroz é Publicitária, Especialista em construção de marcas, criativa quando bebe café, e escreve textos inspiradores para pessoas extraordinárias.

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