Literae – brincando de ser Deus ou inventando verdades – Jair Cozta

Em um dia que não me recordo muito bem, em 2017, depois de uma viagem feliz e após uma liberdade que nem reconheci em mim, de converter paixão em amizade, escrevi impensadamente um poema, este que se segue. Só hoje o entendi.

 

a morte começa na fecundação,

no in

quando irrompe o gozo

(essa fatalidade primitiva)

onde começa a vida

 

Escrever é o mais próximo que a humanidade chegou de imitar Deus. Não que outras formas de expressão artística não façam o mesmo, mas na literatura há um poder que transcende o simples ato de contar uma história. Há um jeito anônimo e prepotente, por assim dizer, de narrar o mundo ao nosso desejo. Não há mentira mais puramente verdadeira do que a mentira contada pela literatura/poesia. Se é que é mentira! Como certa vez nos disse Clarice, prefiro uma verdade inventada. E eu prefiro, porque é nela que encontro meu onde, meu por que e meu quando e meu como.

Nas bíblias da literatura, como Húmus ou como Almas mortas ou como Perto do coração selvagem, me encontro em humildes profundezas não maiores ou menores do que as minhas, interiores, frágeis, mas tão iguais quanto. Essa forma de eternizar o instante epifânico em códigos para possibilitar que a humanidade usufrua das catarses que, em sua maioria, se dão da nossa subjetiva e caótica existência é uma brincadeira que nos rende o risco iminente de nunca mais sermos os mesmos. É disso que me alimento ao ler ou ao escrever. Corro riscos absurdos. Tenho medo. Caio no sentimento de fracasso, de insuficiência, fico poeticamente afônico, com uma sede de ler não sei o quê! É uma sede insaciável, daquelas que te jogam no desespero, como se sua vida dependesse desse fio, a escrita, ou como se você fosse capaz de tudo por esse copo d’água divino da palavra.

 

Escrever é um perigo iminente. Eu, por exemplo, vivo numa iminência de estar triste. Quando estou triste escrevo. Quando estou em alegrias fingidas, escrevo também. A vida pede que falemos dela, porque nem a vida se suporta oculta, uma porta entreaberta. A vida grita, pede socorro e os escritores, então, nascem. A realidade é os olhos de Deus. Nós, que escrevemos, somos a boca divina gritando aleluias e nem todos entendem esse grito, nem todos compreendem, porque paira uma cegueira torpe, a blasfêmia de um porco que quer ser Deus. Somos, então, governados, criados, educados, mal amados ou tão igualmente odiados e violentados por porcos blasfemos. E nos vemos envoltos por tantos deuses, tantos mitos, tantos dogmas, que parece mais fácil e lúcido renegá-los ou refutá-los. Eu refuto, eu renego, mas com os pés postos dentro de mim, em meu íntimo, no meu lugar de brincante de ser Deus, porque quando escrevo eu sinto a boca divina se abrir e então eu sou Ele e falo através Dele. Minha língua tem o poder de edificar algo novo, de contar a realidade ou inventar realidades, mas sempre verdades. Às vezes oculto o que quero falar, distorço, me engano, me sinto no limite de minhas capacidades de conhecimento e de causa, não entendo a mim mesmo ou entendo anos depois… porque sou a imagem e a semelhança Dele.

Se eu pudesse escrever um mundo agora, ou reescrever um, seria como o poema musicado de Lennon. Seria algo como não haver fronteiras, nem países, todos compartilhando o mesmo mundo, sem possessividade, sem que sintamos direito de possuir a natureza e os corpos de homens e mulheres, crianças ou adultas, plantas ou animais; que pessoas pretas, pardas, amarelas e vermelhas tivessem sua existência preservada igualmente e dignamente como as pessoas brancas. Que pessoas trans ou queers existissem em igual dignidade como Deus quer. Que parem de matar, estuprar, violentar, censurar, saquear e torturar em nome de uma divindade torta e insana que, em verdade, tem existido mais nos últimos séculos do que qualquer arquétipo de um deus que reverbere paz e amor verdadeiros.

 

Mas, aí… Aí, eu seria um sonhador, como na canção. Não o único. Apenas repito o mesmo e sei que um dia, não hoje, mas um dia pessoas nascerão e morrerão pensando como eu ou como Lennon ou como Jesus ou como Marielle Franco ou sei lá mais quem. Há horas nas quais as utopias nos lançam no mais pesado e desesperador cansaço; como se estivéssemos rodando em círculos num labirinto sem saída, presos num truque torturante, um truque que só pode ter saída no mesmo ponto onde se entra, retornar ao pó ou ao sopro de vida da boca de Deus (não o Deus-porco-macho, mas algo que aqui é Deus com todos os sexos, todos os gêneros, todas as raças, todas as línguas, algo como quando a gente se apaixona por alguém tão diferente do que a gente deseja para a nossa vida e sente o conforto de amar plena e verdadeiramente que até um adeus é possível graças ao amor que é maior do que tê-lo para sempre).

Chamo de Deus, mas é qualquer coisa que não sei dar nome, como o amor ou como a morte. Eu não mais temo e espero jamais temer outra vez, pois é dessa mesma matéria crua e sobrenatural que são feitos a minha vida e o meu corpo, e cujo poder corre em minhas veias e reverbera em minha língua e em meus dedos quando falo ou escrevo.

Outro dia chamaram-me de hermético. Me senti orgulhosíssimo, pois fizeram o mesmo com Clarice, Orides, Ana C., Adélia e Hilda. Não que eu me compare a elas – não! Estou aquém de mim mesmo, a deus dará, quem dirá das escritoras brasileiras que me fizeram enxergar que eu não sabia ler e me obrigaram a reaprender a ler, pois não o sabia de fato – eu era poeticamente mal letrado. A elas sou grato e a elas venero, oro, recorro sempre em busca da salvação de minha alma.

Me chamem de hermético ou abestado ou louco! Só assumirei o louco, os demais títulos não aceito. Não sou hermético, nem tenho vocação para besta; só tenho a enorme necessidade de responder às perguntas da vida e às minhas com a mesma complexidade, com o mesmo desespero, com a mesma cisão que o mundo me exigiu ao nascer. É minha condição como ser humano para permanecer.

Das pessoas só peço: me leiam enquanto estou quente, por favor! Antes que acabe o sopro de vida divino que emana de meu ser ou antes que meu amor se torne mais em vão! Então leiam minhas bíblias deixadas por aí, leiam minhas palavras e as de tantas outras escritoras e outros escritores escondidas na poeira das livrarias, dos sebos, das bibliotecas e das estantes de amigos. Me peçam uma lista que eu farei uma. Me peçam tempo para ensinar a ler a poesia nos livros e nos muros ou no cotidiano e eu ensinarei. Rogo por vocês sempre que escrevo ou falo ou canto. Façam o mesmo por mim. Me chamem e me corrijam, critiquem ou discordem. Do mármore à piçarra, estarei em todos os lugares enquanto eu escrever.

E enquanto eu escrever, garantirei a vida eterna ou, ao menos, não terei amado tanto em vão.

 

Jair Cozta

Jair Cozta

Jair Cozta é concludente do Curso de Bacharelado em Letras pela UECE, sendo também revisor de textos, poeta, ilustrador e ativista queer. Atua como Produtor Cultural no Cineteatro São Luiz Fortaleza desde 2016 e foi Coordenador de Difusão e Programação da Rede Cuca. Idealizou o primeiro Festival de Canto de Fortaleza realizado em 2017 e 2018

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2 comentários

  1. Sérgio Costa

    Sérgio Costa

    Fantástico, Jair! Dá pra sentir ao mesmo tempo tua raiva, mas também uma ânsia muito grande e bonita em escrever, por uma vida que nos entregue mais. Mais e melhor.

    Abraço cara, e parabéns!

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