BRINCANDO COM A LITERATURA 4 – PEQUENAS NOTAS SOBRE “ADMIRÁVEL MUNDO NOVO”

1. – Recomendo que veja o Filme “Admirável Mundo Novo”, ou leia, ou releia, o romance “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, escrito em 1931 e publicado em 1932, num período marcado pelo pós-taylorismo (economia de tempo e de esforço, com o máximo em produção e rendimento) na primeira década do século XX, pelo desenvolvimento da indústria automobilística, pelo pós-fordismo (técnicas de produção industrial) durante a década de 1920, pelos acontecimentos violentos das sociedades totalitárias, como o Fascismo na Itália, o começo do Nazismo na Alemanha, o Stalinismo na Rússia (antiga União Soviética), pela produção e consumo em massa, pela revolução no conhecimento, pelos avanços na ciência, particularmente com o desenvolvimento das pesquisas eugênicas, com possibilidades de manipulação genética e de produção artificial de seres humanos, e as consequências disto para a sociedade. Esse romance é tido como uma distopia clássica, considerada a primeira distopia moderna, que é um ideal de uma comunidade perfeita, harmoniosa, em que os cidadãos estão sempre felizes, satisfeitos (= como uma utopia), mas uma sociedade perfeita disfarçada, mascarada, pois, por trás desse modelo perfeito, esconde uma sociedade hierarquizada, autoritária, controladora e manipuladora (= como uma distopia), muito parecida atualmente com o nosso “admirável Brasil novo”, “o Brasil que queremos”, que almeja para o Brasil uma sociedade alienada, homogênea, de um Partido Único, sem pluralidade, sem direito à divergência e ao pensamento livre, crítico;


2. – DUAS CRÍTICAS DURAS DE HUXLEY: O romance “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, trata, na minha opinião, de duas questões básicas: a) uma preocupação com o possível mau uso da biogenética por Governos autoritários e b) uma crítica às sociedades autoritárias e às sociedades de massa, de produção e consumo de massa. Portanto, Huxley faz, por um lado, uma crítica a uma sociedade futura autoritária, dominada pela técnica avançada, que se sobrepõe ao homem, em que o espírito humano e a sua liberdade são sacrificados. Nessa sociedade nova, os indivíduos são, literalmente, fabricados pelo Governo dentro de usinas de inseminação artificial, produzidos em massas, geneticamente iguais, e divididos por uma hierarquia intelectual, chamada de castas. Essas menções às usinas, à fertilização artificial, à fabricação em laboratórios de sujeitos, ou gerados em incubadoras, em sacos embrionários, mostra a preocupação de Huxley com a manipulação, sem limites éticos, da biogenética por Governos autoritários numa possível “fabricação” e coisificação dos sujeitos”, geneticamente predeterminados, para controlar e restringir a liberdade humana. Por outro lado, Huxley usa, ironicamente, nos personagens deste seu romance “Admirável Mundo Novo”, nomes de pessoas históricas da esquerda e da direita, como os de Darwin Bonaparte, Bernard Marx, Sarojini Engels, Herbert Bakunin, Lenina Crowne, Sra. Polly Trotsky, Maoina Krupps, Malthusiana, Freud, Elliot, Ford, Stelina Shell, Adolf, Gandhi, dentre outros, para expressar, de forma bastante dura, uma crítica ao totalitarismo, seja de direita, seja de esquerda, isto é, às sociedades autoritárias, às sociedades de controle, às sociedades homogêneas e às sociedades do consumo, em que a maioria dos cidadãos não tem direito à liberdade e é reduzida a massas, que são, desde o nascimento, geneticamente pré-determinadas, manipuladas psicologicamente e condicionadas para se comportarem, pensarem e agirem de forma alienada e de acordo com os interesses daqueles que governam autoritária e antidemocraticamente;


3. – QUESTÕES IMPORTANTES NO “ADMIRÁVEL MUNDO NOVO”: Nesse romance, podemos destacar ainda, dentre outras, as seguintes questões: 1) a apresentação de uma admirável sociedade nova, de um fantástico mundo novo, em que os indivíduos são e estão, aparentemente, sempre felizes, alegres e despreocupados. Como eles acreditam seriamente que “são felizes”, não há, e é isto que interessa ao Governo, reclamações, críticas, nem oposições e conflitos;

2) mas esse encantado mundo novo, essa sociedade nova é nova só na aparência, no visível, no imediato, pois trata-se, na verdade, de uma sociedade alienada, mascarada, que esconde, por trás dessa máscara, uma sociedade manipulada geneticamente, uma sociedade que domina, controla e manipula as mentes humanas, que condiciona, e isto é fundamental, os indivíduos, desde o nascimento, a pensarem, a sentirem e a agirem como felizes e conformados, sem problematização, sem conflito e sem revolta;

3) para que não haja protesto, a maioria dos indivíduos é “fabricado”, “formado”, como massas, como “gados”, com pouca, ou péssima, alimentação, para que seus cérebros não se desenvolvam, e, como quer, por exemplo, o Governo Bolsonaro atualmente, sem formação cultural, intelectual, sem ciência, sem conhecimento, sem pensamento, sem criticidade, para aceitarem e se conformarem à sua aparente felicidade;

4) para assegurar que os cidadãos não perceberão que vivem num mundo mascarado, falso, numa liberdade ilusória, que eles foram, na verdade, condicionados a se sentirem felizes, satisfeitos e livres, são eles, então, obrigados desde crianças a ingerirem uma droga, chamada O SOMA, que os deixa sedados, numa sensação permanente de felicidade. Essa questão é fundamental, parece-me, nesta distopia de Huxley, a saber, que os sistemas políticos dominantes, antidemocráticos, autoritários, como, por exemplo, o Bolsonarismo no Brasil, necessitam de tipos de “SOMA”, de espécies de “narcóticos”, para consolarem e manipularem o povo, a massa, para mantê-la sob o domínio. O SOMA, como uma espécie de “pílula da felicidade”, deve ser compreendido como “o cristianismo sem lágrimas”, como uma metáfora, que pode ser, atualmente, entendida como os diversos entorpecentes, as diversas “drogas”, que consolam e conformam a alma, o espírito, do povo. Atualmente, exemplos de SOMA são algumas religiões evangélicas, como uma espécie de má “aguardente espiritual”, que entontece a consciência do homem; o assistencialismo que conforma os indivíduos; os entretenimentos de massa, como os programas de TVs de baixa qualidades, as músicas alienantes de forrós, os vícios ligados às redes sociais, das quais os indivíduos estão condicionados, e que são fundamentais para embrutecê-los, contribuindo para que os Governos autoritários e antidemocráticos permaneçam no poder sem uso explícito da força, da violência, de forma imediata, a não ser como último recurso, caso necessário, para a manutenção do poder,

e 5) mas o ser humano não é só um ser meramente condicionado, manipulável, influenciável, pois faz parte também de sua condição humana a incompletude, a insatisfação, a contestação, como se vê nos personagens Helmholtz Watson, Bernard Marx e no jovem John, “o Selvagem, condição essa que os leva a protestarem, a se voltarem contra uma sociedade tirânica, totalitária, que nega a liberdade, a igualdade e a própria condição humano entre todos os homens;

 


4. – “A FELICIDADE” COMO SUPREMO BEM: No “Admirável Mundo Novo”, mostrado por Huxley, todos os indivíduos, de todos os níveis, são condicionados a se sentirem extremamente felizes e satisfeitos, plenamente contentes com sua servidão, completamente conformados com a vida tal como ela é, bizarra e anormal, nessa sociedade, sem se revoltarem;


5. – MAS TEM UM PREÇO A PAGAR PELA “FELICIDADE” E “ESTABILIDADE” – A NEGAÇÃO DA LIBERDADE: Por isto, nesse “admirável mundo novo”, em que a ciência e a tecnologia são avançadas, “tudo é considerado perfeito” no presente, e “tudo será perfeito no futuro”; “tudo é perfeito, estável”. Ninguém reclama, ninguém se revolta, pois nada é estranho, e, mesmo tudo sendo artificial, tudo é considerado normal. Não há espaço para problemas, tristezas, insatisfações, inconformidades, nem para questionamentos, pois tudo isto “deve ser deixado fora”, é considerado pernicioso, pode levar os indivíduos a pensarem, a terem “ideias radicais, perigosas e subversivas”, a tomarem consciência do absurdo de suas “vidas felizes” e se revoltarem, protestarem, o que não é permitido nessa “admirável sociedade nova”, tal como, atualmente, na nossa “Amada Pátria Brasil”, no nosso “Brasil novo que queremos”, em que a ciência e a educação são desvalorizadas, atacadas, e o pensamento crítico é visto, de forma deturpada, como “ideologia”, como “falsa consciência”, como forma “errada” de se pensar, pois “pensar certo”é não pensar, é não ter pensamento nenhum, ser acrítico;


6. – É POSSÍVEL UM MUNDO PERFEITO E TODOS FELIZES? Para isto, são necessários alguns ajustes. O Governo deve condicionar todos os cidadãos, desde bebês, a se comportarem, a pensarem e agirem da maneira mais conveniente à vida nesse maravilhoso mundo novo. Nessa sociedade nova, os valores também devem ser alterados, como:

1) abolição do conceito de família: em vez de mães, pais, irmãos, os indivíduos são previamente planejados num laboratório, em incubadoras, “fabricados em usinas de inseminação artificial”. Os indivíduos saem em lotes, em massa, geneticamente iguais; 2) e saem da fábrica já divididos em castas, classificados em níveis de acordo com suas características físicas e suas aptidões intelectuais.

Uma sociedade nova, dividida em sistema de castas, significa, na verdade, que ela está “fatalmente predestinada”, marcada pelo “destino”, ao qual ninguém pode escapar; nessa sociedade, as castas superiores têm acesso à boa alimentação e à educação, e as castas inferiores, que vivem à margem de tudo, que “não se importam de serem inferiores”, se sentem, mesmo assim, felizes e livres. As castas vão decrescendo de acordo com o nível de inteligência e capacidade, a saber: em Alfas (Alphas) (α), Betas (β), Gamas (γ), Deltas(δ) e Épsilons (ε).

2.1) Os indivíduos da casta Alfa (α) são fabricados individualmente, não em grande quantidade, são mais afeiçoados, distintos, e, desde quando eram embriões, foram estimulados, para serem formidavelmente mais inteligentes, mais capazes, mais preparados, para se tornarem intelectuais, cientistas, filósofos, ou futuros líderes.

2.2) E o nível mais baixo é constituído por indivíduos da casta Épsilon (ε), que foram produzidos como quase dementes, tão estúpidos que nem sabem que são. Os Épsilons (ε) são embriões que receberam menos oxigênio, menos nutrientes de propósito, para prejudicar o cérebro e serem, praticamente, retardados, semi-imbecis biologicamente, incapazes de grandes raciocínios e com pouca inteligência.  Aos  Épsilons (ε) cabem os trabalhos mais pesados, mais estressantes, nos campos e nas cidades; 3) afirmação exclusiva do princípio da identidade, sem dualidade e diferença;

4) garantia da segurança econômica e da estabilidade social, em detrimento da liberdade, dos direitos individuais e de qualquer conflito;

5) supervalorização da comunidade, da coletividade, em detrimento do singular – o indivíduo não importa, pois o mais importante é que “cada um pertence a todos”, que “cada um trabalhe para todos os outros”, cada um cumpra a sua função preestabelecida para o bem da comunidade;

6) liberdade sexual, pois os indivíduos “copulam” simplesmente, tendo relações sexuais com diversos parceiros, indistintamente: “Mas cada um pertence a todos os outros”;

7) negação dos laços de família, de amizade, aos vínculos amorosos, afetivos, pois isto pertence aos “incivilizados” e pode gerar conflitos, que são inadequados a esse “admirável mundo novo”;

8) rejeição à natureza, ao vínculo do indivíduo com ela, pois isto não serve para aumentar o consumo e pode levar a negação das fábricas;

9) regime de consumo exacerbado e de prazer, para que os indivíduos se sintam sempre felizes, satisfeitos, pois se os indivíduos têm, se eles consomem, logo eles são: “se você pode fazer, você pode usar”, mas “se você não pode usar, não pode ser fabricado”, e, por fim, embora a religião seja julgada supérflua e os livros sagrados, como “A Bíblia”, com “O Velho e Novo Testamentos”, considerados “livros pornográficos”, indecentes, há, nesse mundo novo,

10) endeusamento ao fordismo, considerado “sagrado”, com uma “Catedral”, onde se fazem cultos em louvor ao “Grande Ser”, ao Henry Ford, que “proporcionou” produção e consumo em massa, “deu a felicidade a todos, produzindo mais coisas para mais pessoas, e mais pessoas para mais coisas”;


7. – SE, POR ACASO, ALGUMA COISA CORRER MAL, HÁ A DROGA, O SOMA: Para que algo não atrapalhe e todas as brechas sejam fechadas, para que os indivíduos permaneçam sempre “felizes” e conformados, devem eles, além de serem condicionados desde crianças, consumir todos os dias, como complemento, um medicamento “maravilhoso”, uma porção de uma droga, chamada O SOMA, que é um narcótico, agradavelmente, alucinante, distribuída gratuitamente pelo Governo e, uma vez consumida, proporciona um “paraíso artificial”, fuga ou esquecimento da realidade, como um “socorro externo”, para acalmar as emoções negativas, para suportar os dissabores da vida, provocando nos indivíduos sensação de tranquilidade e de felicidade. A sociedade nova, mantida pela injeção da droga O SOMA, acaba sendo uma sociedade “espiritualmente doente”, que torna seus habitantes dependentes da droga, para se sentirem, ilusoriamente, felizes, satisfeitos com a vida;


8. – MAS HÁ NO “PERFEITO MUNDO NOVO” LACUNAS: Thomas, o Diretor Geral da Incubação e do Condicionamento, um Alfa-Mais, acaba, contraditoriamente, tendo com Linda, fora do “admirável mundo novo”, um filho, o John (“O Selvagem”), de forma natural, na sociedade dos “selvagens”, o que é considerado inaceitável, “não civilizado”; o Alfa (α)+ Helmholtz Watson, que tem “defeitos” por excesso de capacidade, “de elevada condição intelectual”, que deveria ser só racional, tem também inclinação para a sensível, para o emocional, para as paixões humanas, que pode “desencaminhar os outros”, e o Alfa (α)+ Bernard Marx, que, embora Alfa, foi fabricado de forma errada e tem defeitos por insuficiência, imperfeições, lacunas e falhas, sendo um mal exemplo para o modelo de perfeição do admirável mundo novo;


9. – UMA SAÍDA, VINDA DE DENTRO DA SOCIEDADE: Mesmo nesse “admirável mundo novo”, nessa “sociedade nova”, onde tudo e todos são condicionados, cercados, fechados, há espaço ainda para uma certa brecha, uma certa abertura, pois nem tudo pode ser corrigido por laboratórios, uma vez que a realidade é contingente, que algo diferente pode acontecer, e o ser humano tem sua condição humana, conserva características humanas, é um ser, por natureza, falho, indócil, inconformado, revoltado, insatisfeito com o mundo e com sua condição no mundo. Fazem parte da condição humana a diferença, a contradição, o conflito, a oposição, pois, sem isto, tudo seria idêntico, comum, e não poderíamos nos distinguir um dos outros, como singulares, diferentes, e nos tornaríamos indistintos, como massa, como “gados”, tais como querem os Governos autoritários e antidemocráticos. Há uma brecha para sair dessa sociedade fechada, e isto é visível, neste romance “Admirável Mundo Novo”, num personagem, que foge do comum: Bernard Marx, por exemplo. Ele é um Alfa (α)+, condicionado a pensar e a agir como Alfa. Entretanto, durante a sua fabricação algo deu errado.

Na produção de um humano Alfa plus, deram, por engano, os nutrientes de um humano Beta. Portanto, Bernard Marx tem um defeito de fabricação, ele é um Alfa+, todavia com os nutrientes de um Beta, que é menos que um Alfa. Ele é um “desvio”, uma desordem na ordem. Daí, ele percebe, quando adulto, que há ironias, preconceitos contra ele, que riem e zombam dele, por ele não ser um Alfa pleno, legítimo, não estando em conformidade com os outros Alfas+. Embora ele seja inteligente, ele tem um pequeno e magro corpo, é desajeitado, atrapalhado, comete falhas em suas funções, tem sentimentos de medo, de ódio, de amor, de inveja, de ciúme, se apaixona violentamente pela encantadora, belíssima, Lenina (“eu penso nela o tempo todo”), sente vergonha, quando vai “copular”, “encaixar”, pela primeira vez, e é com Lenina, duvida, reflete, se queixa, xinga constantemente os seus compatriotas, chamando-os de “porcos idiotas”, e se recusa, decisivamente, a tomar a droga o SOMA, para “corrigi-lo” imediatamente. Ele diz: “eu não preciso de Soma”, “eu não a quero”. Ele “deseja ser livre, e não escravo pelo seu condicionamento”. Ele aparenta ter sentimentos humanos, características humanas, mas negadas nesse mundo novo. Sua identidade se constrói pela diferença em relação aos outros Alfas. “Ser diferente condena a uma fatal solidão”. Porém, por se ver diferente, sozinho, isolado e deslocado no meio dos Alfas-Mais, ele não é feliz, sente que não pertence ao “admirável mundo novo” e é, por isto, inconformado;


10. – UMA OUTRA SAÍDA, VINDA AGORA DE FORA DA SOCIEDADE NOVA: Bernard Marx e Lenina recebem permissão para realizarem uma viagem de férias para visitarem, o que era muito raro, uma sociedade diferente, os pobres e excluídos da sociedade nova, os que vivem à margem da “civilização”, a parte considerada “antiga-tribal”, que, no romance, é chamada de “Maupaís”, “o Lugar do Diabo”, a “Reserva de Vida Selvagem”, na qual os habitantes, considerados “não civilizados”, mantêm a condição de humanos, têm hábitos de humanos normais, tidos pelo “mundo civilizado” como inconcebíveis, primitivos, aberrantes, desagradáveis, horríveis, como rir, chorar, ter barba, envelhecer, adoecer, morrer naturalmente, casar-se, ter família, manter laços familiares, mulheres ficarem grávidas, darem à luz crianças, naturalmente, amamentar bebês, ter contatos com a natureza e comer coisas naturais da terra, consideradas sujas pelos habitantes da sociedade nova. Nessa sociedade velha, Bernard Marx e Lenina conhecem a Linda, uma antiga habitante da sociedade nova, que estava grávida do Thomas (do “Tomakin”), de um Alfa (α)+, quando, por acidente, ficou perdida na sociedade antiga e aqui passou a viver como “estrangeira” e teve um filho, o John. Ambos, John e sua mãe, Linda, são levados por Bernard Marx e Lenina para o “admirável mundo novo”, a sociedade perfeita, “cheia de maravilhas”, altamente tecnológica, “ civilizada”;


11. – A SOCIEDADE NOVA CORTA AS SUAS POSSÍVEIS BRECHAS: Na sociedade nova, Linda, já doente, morre. Helmholtz Watson e Bernard Marx se aproximam de Johh, “O Selvagem”, mas eles são expulsos e transferidos para subcentros de “baixas categorias”, para duas ilhas distantes do “admirável mundo novo”. O talentoso Helmholtz, que faz versos, que se aproxima da poesia, tem forte atração pela solidão, pela sensibilidade, pelos sentimentos de amor, ódio, paixão, e isto é considerado perigoso pelos habitantes da sociedade nova, pois isto pode “contagiar” os outros, levando-os a descontentamentos, a conflitos, a instabilidades, o que não é aceitável nessa sociedade nova. E Bernard Marx, que recebeu do Diretor Geral dessa sociedade a missão de “civilizar” o jovem “selvagem” John, mas não consegue obter bons êxitos, e ele tem má reputação, é desprezado, humilhado, hostilizado, visto como falho, sem habilidades, e isto pode influenciar negativamente os habitantes do “mundo novo”, em que todos, condicionados, devem fazer “o que têm a fazer” perfeitamente;


12. – FELICIDADE MANIPULADA OU LIBERDADE?: Na sociedade antiga, o jovem John não se encaixava, por ser filho de um Alfa (α)+, e na sociedade nova, ele é visto como um bruto e, embora tenha um nome, é chamado de “O Selvagem”, o “Sr. John Wild”, “o incivilizado”, o vulgar, a natureza bruta a ser observada, o que o desagrada bastante. Ele teve uma formação diferente, é culto, leitor de Shakespeare. Ele significa, além do Helmholtz Watson e do Bernard Marx, uma outra brecha para enxergar a alienação e o controle autoritário da sociedade nova sobre os indivíduos. Como John veio de fora dessa sociedade, imerso num ambiente incondicionado, ele não se adequa à nova sociedade, considerado estranho, e fará duras críticas a tal sociedade. Ele percebe que, nessa sociedade, a vida é mecânica, superficial, tudo é programado, condicionado, sem liberdade e ausente de paixões. Além de Bernard Marx, o John é também apaixonado pela jovem Lenina, mas ela não tem noção do que seja o amor. “Amo-a mais que tudo no mundo.” Há o confronto, aqui, de dois mundos: de um lado, o mundo novo, maravilhoso, no qual há “sempre felicidade”, e o mundo velho, no qual há incertezas, dores, infelicidades, mas possiblidades para a liberdade. Isto é notável na conversa do Administrador Geral do “admirável mundo novo”, Mustafá Mond, com John, o Selvagem. Mustafá Mond pergunta ao Selvagem se ele “não gosta nada da civilização”, e o Selvagem diz que não e reivindica o direito de ser livre e homem, isto é, o direito à liberdade, de ser infeliz, de não ter o suficiente, de decidir viver ou se matar, porque é isto que o faz ser humano. John é também condenado, sendo obrigado a morar sozinho num abrigo reservado do próprio Admirável Mundo Novo, área considerada por ele como “um jardim”. Aqui, John, sozinho, isolado, resolveu “dormir” para sempre. Então, compensa ser alienado, vivendo num mundo novo, preso a um sistema para sempre, sendo manipulado para ser feliz?

Há problemas se os indivíduos, reduzidos a massa, amam a sua servidão e se sentem “satisfeitos” assim, mesmo sendo vigiados e condicionados a se sentirem assim, numa sociedade totalitária, em que ninguém se revolta, se insurge? Ou é melhor sermos críticos, não manipuláveis e ficarmos no mundo humano, no mundo velho, com as suas misérias, infelicidades e instabilidades, mas com possibilidades, mesmo limitadas, de ter esperança, de escolher, pensar, sentir e agir? Oh, admirável mundo novo, oh, admirável mundo novo, oh, admirável mundo novo, como a humanidade é bela! A liberdade, a liberdade! Sim, homens, homens!

Eduardo Chagas

Eduardo Chagas possui Graduação em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (1989), Mestrado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (1993) , Doutorado em Filosofia pela Universität Kassel (Alemanha) (2002) e Pós-Doutorado em Filosofia pela Universität Munster (Alemanha) (2018-2019). É professor efetivo (Associado 4) do Curso de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Ceará - UFC, professor do Programa de Mestrado Profissional em Filosofia (PROF-FILO) e professor Colaborador do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da FACED - UFC. Atualmente, é Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq (PQ nível 2); é Editor da Revista Dialectus (http://www.revistadialectus.ufc.br/index.php/RevistaDialectus/about/editorialPolicies#sectionPolicies). E dedica suas pesquisas ao estudo da filosofia política, da filosofia de Hegel, do idealismo alemão e de seus críticos, Feuerbach, Marx, Adorno e Habermas. Outras informações acesse a homepage: www.efchagas.wordpress.com. É membro da Internationale Gesellschaft der Feuerbach-Forscher (Sociedade Internacional Feuerbach).

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Eduardo Chagas possui Graduação em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (1989), Mestrado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (1993) , Doutorado em Filosofia pela Universität Kassel (Alemanha) (2002) e Pós-Doutorado em Filosofia pela Universität Munster (Alemanha) (2018-2019). É professor efetivo (Associado 4) do Curso de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Ceará - UFC, professor do Programa de Mestrado Profissional em Filosofia (PROF-FILO) e professor Colaborador do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da FACED - UFC. Atualmente, é Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq (PQ nível 2); é Editor da Revista Dialectus (http://www.revistadialectus.ufc.br/index.php/RevistaDialectus/about/editorialPolicies#sectionPolicies). E dedica suas pesquisas ao estudo da filosofia política, da filosofia de Hegel, do idealismo alemão e de seus críticos, Feuerbach, Marx, Adorno e Habermas. Outras informações acesse a homepage: www.efchagas.wordpress.com. É membro da Internationale Gesellschaft der Feuerbach-Forscher (Sociedade Internacional Feuerbach).