Brasil veste-se de preto – ALDER TEIXEIRA

A data emblemática traz-me à memória as palavras de Edmund Burke (1729-1797) em livro clássico sobre a Revolução Francesa: “A pátria para fazer-se amar, deve ser amável.”
De tanto vê-la (a pátria) objeto de hipocrisia e desrespeito aos valores fundamentais do homem, movido pelo ideário iluminista, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) propagou em bom francês: “Ces deux mots patrie et citoyen doivent être effacés des langues modernes” (sic), ou seja, “Estas duas palavras pátria e cidadão devem ser apagadas das línguas modernas”.
Houve, entre os escritores clássicos, aqueles que apregoaram ser “doce e honroso morrer pela pátria”, a exemplo do que fez, em Odes, Horácio (65-8 a. C.), e mesmo quem o tenha feito com um nível de abstração ligeiramente confuso, como Stendhal (1783-1842), para quem “a pátria é o lugar em que encontramos o maior número de pessoas que se parecem conosco”.
Sou de uma geração que precisou de esforços para readquirir o sentimento telúrico que os festejos pátrios ensejam. É que por trás dos nossos maiores símbolos escondiam-se censores, policiais violentos e, em grande escala, torturadores.
No colégio, em que éramos obrigados a cantar o Hino à Bandeira, hasteada sob o olhar cúmplice do diretor-geral e ante a nossa intranquila compenetração, não podíamos sequer conversar em grupos de alunos: “Circulando, circulando, circulando”, a voz autoritária a nos dispersar.
Os nossos corações, contudo, como no poema de Drummond, estavam no México, “batendo pelos músculos do Gérson, a unha de Tostão, a ronha de Pelé, a cuca de Zagalo, a calma de Leão e tudo mais que liga o meu país a uma bola no campo e uma taça de ouro”, enquanto jovens brasileiros eram trucidados nos porões da ditadura ou atirados ao mar do alto de helicópteros.
“Prá frente Brasil, Brasil…” bradava o povo a plenos pulmões.
“C’est la cendre des morts qui créa la patrie”, está em A Queda de um Anjo, de Lamartine (1790-1869), pois que “É a cinza dos mortos que criou a pátria”.
Pátria são todos os lugares em que somos respeitados e temos os nossos direitos assegurados. Pátria é o sentimento que nos une na alegria e na dor, e que nos enche o peito de esperança e de fé no porvir. Pátria é muito mais que limites e fronteiras, muito mais que uma bandeira no alto de um poste, que um hino a exaltar riquezas e valentias. Pátria é liberdade de ser o que se quer, de fazer escolhas… pátria são índios e negros, brancos e mulatos… pátria são mulheres, trabalhadores, artesãos, artistas, professores… Pátria é justiça, pátria é escola de qualidade, saúde, moradia, trabalho, lazer… Florestas…
“A pátria é a necessária iniciação na pátria universal”, para citar, ainda uma vez, Lamartine, a nos chamar a atenção para o espírito de cordialidade para com os nossos vizinhos, passo indispensável no rumo da fraternidade, da harmonia e da paz universais.
Pisoteado em sua dignidade, o Brasil dos brasileiros veste-se de preto desde a antemanhã.
Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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