BRASIL E NORUEGA: UMA QUESTÃO DE VISÃO ESTRATÉGICA, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Um dos últimos dislates do capitão Bolsonaro foi o de atacar a Noruega em virtude de aquele país haver suspendido, assim como a Alemanha, o repasse de cerca de R$133 milhões destinados ao Fundo da Amazônia para a utilização de projetos de conservação ambiental, pela mudança da filosofia da política ambiental introduzida pelo governo do capitão, externada por diversas vezes em seus bramidos midiáticos. Vale lembrar que a Noruega é o maior financiador do Fundo, tendo doado cerca de R$3,7 bilhões nesses dez anos.

Bolsonaro, em mais uma resposta biliar que lhe é típica, disse: “Noruega? Não é aquela que mata baleia, lá em cima, no Polo Norte? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a oferecer a nós!”. E ainda acrescentou para o governo norueguês pegar “a grana” e “ajudar” a chanceler alemã Angela Merkel a reflorestar a Alemanha.

Como se não bastasse, o capitão acusou os cientistas do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) de publicarem dados sobre desmatamentos da Amazônia que “não condizem com a realidade”, exonerando o diretor do instituto, o renomado internacionalmente engenheiro Ricardo Galvão, que há décadas contribui para a ciência, tecnologia e inovação do Brasil. Em seu lugar, Bolsonaro empossou o militar da aeronáutica, coronel Darcton Damião. Entre as muitas publicações em redes sociais, em maio de 2016, conforme noticiou o jornal O Globo, Damião postou uma petição para conseguir apoio para pedir a cassação do registro e obter a extinção do Partido dos Trabalhadores (PT). Com Damião, cerca de treze outros militares foram incorporados ao INPE, conforme relatou o cientista Ricardo Galvão à jornalista Renata Lo Prete em seu programa PAINEL, na Globo News.

Mas será que a Noruega teria algo a nos ensinar?

Se pensarmos do ponto de vista da distribuição da renda nacional, poderíamos fazer um comparativo entre os PIB PER CAPITA (PPC) do Brasil com o da Noruega para verificarmos o grau de diferença entre ambos. Entende-se por PIB (Produto Interno Bruto) como a soma de todos os bens e serviços produzidos em um país. E por PPC como sendo o PIB dividido pela quantidade de seus habitantes. O PPC é um indicador muito utilizado nos cálculos macroeconômicos como forma de avaliar a qualidade de vida das populações nacionais. Vejamos a tabela abaixo.

 

 

PRODUTO INTERNO BRUTO PER CAPITA (PPC) – Valores em Dólares Americanos (US$)

BRASIL NORUEGA ANO
9.821,41 75.504,57 2017
8.639,37 70.890,04 2016
8.750,22 74.498,14 2015
12.026,62 97.199,00 2014
12.216,90 103.059,00 2013
12.291,47 101.668,17 2012
13.167,47 100.711,22 2011
11.224,15 87.770,27 2010

Fonte: Banco Mundial

Portanto, uma breve visualização da tabela nos permite constatar que a população norueguesa tem um PIB PER CAPITA oito vezes maior que o da população brasileira. Uma média aritmética simples desses anos registrados na tabela aponta para US$11.017,20 para o PPC brasileiro enquanto o norueguês é de US$88.912,60.

Além disso, conforme relatório divulgado em 2010 pela Organização das Nações Unidas (ONU), a Noruega detém o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo: 0,938. Os serviços de saneamento ambiental atendem a todas as residências; a taxa de mortalidade infantil é uma das menores: 03 óbitos a cada mil nascidos vivos; todos os habitantes acima de 15 anos são alfabetizados; todos os domicílios com acesso a água potável e com acesso a rede sanitária.

Por último, quanto à questão ambiental, no que tange à caça das baleias, apesar de ser uma prática muito criticada por ambientalistas, ela é submetida a leis muito rígidas. Por exemplo, apenas um tipo de baleia pode ser caçada, “a minke”, por ser um animal fora de perigo de extinção. Há algo em torno de 100 mil baleias minke nas águas daquele país. Além disso, o número de baleias caçadas vem caindo sistematicamente, ao contrário do que está ocorrendo com o desmatamento da Amazônia neste período recente. Em 2018, a cota estabelecida para a caça das baleias foi de 1.278; entretanto somente 454 foram caçadas efetivamente. Segundo o governo, essa cota é baseada em cálculos do comitê de ciência da Comissão Internacional de Caça de Baleias (IWC, na sigla em inglês), que garante a caça sustentável das baleias minke.

Enquanto isso, aqui no Brasil as políticas apresentadas até agora são “liberar a retirada das cadeirinhas de segurança de crianças dos veículos”; “aumentar a capacidade de violência armada da população”; “proibir a fiscalização de velocidade com a retirada dos sensores móveis das estradas federais”. Isso é que é visão política estratégica, de dar inveja a alemães e noruegueses.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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