BRASIL, A MACABRA DANÇA DA NARRATIVA ANTICIENTÍFICA – Ackson Dantas

Vivemos hoje no Brasil uma espécie de transe originado em uma complexa rede de notícias disponibilizadas em redes sociais. O governo brasileiro, principal beneficiado, cotidianamente investe tempo e energia para disseminação destas. Entre outros intentos, tais notícias ensejam a distorção da realidade e dos fatos, e neste ponto o mais grave é a tentativa de construção de uma narrativa anticientífica, já que passamos por uma pandemia de grande letalidade. Contar uma história, criar uma realidade paralela, manipular pessoas em benefícios particulares tem sido a grande e grotesca obstinação do governo brasileiro. Tal narrativa macula o povo, mas justamente este povo começa a se comportar favoravelmente a esta. Porque isso acontece é o que vamos destrinchar abaixo.

O ser humano, há milhões de anos, conseguiu se desgarrar das outras espécies de animais e se tornar o ser mais poderoso do planeta. Aliás, o homo sapiens foi a única espécie humana que sobreviveu ao longo do tempo. O que fez chegarmos até aqui foi uma série de fatores, no entanto a capacidade de mobilização coletiva em torno de um único objetivo tem papel preponderante nisso. O sapiens foi capaz de criar histórias e fazer com que outros acreditassem e defendessem. A narrativa criada por um ser ganhou apoio em outros e estes não só acreditavam como também a defendiam até mesmo com suas próprias vidas.

Contar e acreditar em histórias, mover-se em direção a elas e por elas foi algo revolucionário. Já imaginou se um grupo de cães começa a seguir o líder da matilha porque ele os convence a atacar todos os seres humanos? Se ao perceber isso, outros cães também começam a seguir e disseminar que o ser humano deve ser atacado? Quantos cães existem no mundo, qual a dimensão do prejuízo da população? Pois bem, os cães não são capazes de criar bandos com causas específicas, tampouco disseminá-las e convencer outros cães para estas causas. O máximo que pode acontecer é uma matilha seguir o líder com um único e singelo propósito, caçar para se alimentar e sobreviver.

O que torna o homem diferente e dominante é sua capacidade de linguagem e comunicação apenas? Creio que não. Fora assim, ainda viveríamos em tribos rivais com dois únicos objetivos: se alimentar e destruir o outro. A aglutinação em vilarejos, cidades, país não seria possível, pois não haveria unidade em torno das pessoas. O que nos une está no que acreditamos, são nossas crenças que nos aproximam, nos fazem um ser coletivo.

Estas crenças só se tornaram possíveis a medida que percebemos na linguagem uma função muito maior do que simplesmente gerar diálogo e entendimento de maneira mais complexa. O homo sapiens percebeu na linguagem seu potencial de mobilização a partir de histórias contadas. Daí a nossa tradição oral dos avós que contam histórias, daí as histórias infantis com uma moral no final, daí as reuniões ancestrais ao redor das fogueiras para o mestre ensinar lições de caça, explicar estratégias de guerra, convencer todos a sacrifícios em benefício dos deuses.

As narrativas produziram sistemas de crença e estes conduziram os sapiens nesta jornada milenar que vivemos no presente. Para chegar até aqui as narrativas foram se moldando ao “espírito” da época. O que a princípio era narrativa politeísta se transformou em presença de um único deus, por exemplo. Mas as crenças e as narrativas se diversificam ao longo da história, a política e a economia criaram suas crenças e narrativas também. Quanto mais complexo o homem, maiores seus sistemas de crenças (religião), mais ampla a construção de coletivos por meio de narrativas.

Nem sempre as narrativas são benéficas, muitas vezes causam destruição e põem em risco a própria existência humana. A Alemanha nazista é um dos exemplos mais emblemáticos, o povo alemão passou a acreditar em um contador de história que afirmava ser seu país povoado por seres humanos superiores. Dizia ele que todos os outros, por não estarem aos seus pés, deveriam ser subjugados e eliminados, assim não contaminariam o ser supremo, o homem ariano.

Se a população alemã houvesse rechaçado Hitler é provável que o holocausto nunca tivesse entrado em nossas memórias. Imaginemos agora os jihadistas, quantos atentados seriam evitados se o poder de contar histórias e gerar um sistemas de crenças não existisse? Na política tivemos o Comunismo e o Liberalismo que durante anos impuseram uma disputa pela afirmação de suas crenças particulares.

Na atualidade algumas histórias forjam sistemas de crenças mais complexos ou, no mínimo, mais fragmentados. Não se trata mais de um deus ou um conceito político a mover o homem. O que alguns chamam de bandeiras como: questão de gênero, meio ambiente, oposição ao racismo, defesa das minorias e outros são um emaranhado de pequenas crenças em torno de uma religião maior. Se observarmos bem, iremos encontrar duas religiões que abarcam todas estas crenças,  “dinheiro e ciência”.

Para ilustrar a afirmação acima faço a seguinte reflexão: a questão de gênero é um movimento que surge e se identifica a um determinado sistema de crenças. É quase impossível imaginar esta bandeira distante da religião que conduzia o pensamento político de esquerda no século passado. No entanto, atualmente, nem toda pessoa crente na igualdade de gênero tem em perspectiva política o ideário de esquerda. Mas no mínimo é a ciência (seja biológica, seja social) que pauta seu pensamento e a faz reafirmar a importância da igualdade dos papeis sociais entre homens e mulheres.

Em outro momento tratarei com maior detalhamento a religião chamada dinheiro. Permaneço na religião ciência para desaguar em nós, brasileiros dos anos 20 do século XXI. Obviamente, como toda religião, é preciso fazer ponderações e não seguir fanaticamente seus preceitos, impor limites e ordenar regramentos para não se tornar absoluta em tudo. A história nos conta grandes desastres quando deixamos a passionalidade acima da racionalidade. No entanto a religião ciência baliza o mundo e as tomadas de decisões. É possível imaginar um país negando a ciência e o que ela aponta? É possível negar suas traduções para o mundo e a dinâmica de vida atual?

O Brasil é um dos poucos países no planeta a pleitear esta aventura. Sim, o Brasil! País em que moramos eu e você, caro leitor. Você deve se perguntar, mas como assim? Temos universidades, temos conexão com o mundo, nossos cientistas desempenham papel preponderante e alguns possuem reconhecimento internacional. Somos referência mundial em ciência e tecnologia agropecuária. Apesar de tudo isso, o país caminha para a bancarrota científica?

Verdade seja dita, há muitos esforços e expoentes em diversas áreas que nos poriam em evidência com a crença na ciência. No entanto, como falei anteriormente, as narrativas têm o poder de unir e mover pessoas. No país brasileiro diversas pequenas histórias estão sendo contadas, criando crenças exatamente opostas ao pensar científico. Neste exato momento, vinte e sete de maio de dois mil e vinte, estamos sendo coreografados para a ópera A Dança Macabra de Camille Saint-Saens. Estamos no cemitério dançando freneticamente com cadáveres no intento de, ao fim da madrugada, quando os mortos voltarem aos seus túmulos, nada mais nos seja possível.

Certa vez me perguntaram o tamanho do prejuízo que causaria a eleição de Bolsonaro a presidente do Brasil. Eu, de prontidão  respondi: não me alarda a hipótese de um golpe militar como tantos pronunciam. Me preocupa muito mais o discurso em vez da prática. Uma suposta tentativa de golpe militar neste momento seria um tiro no pé, obviamente os sonhos do presidente passam constantemente por isso, todavia rapidamente seriam desfeitos e seus conspiradores possivelmente conduzidos à cadeia.

Este seria o desfecho caso os beligerantes e delirantes ecos desta patota realmente se concretizassem. O mundo global e a religião Dinheiro emanada pelas forças ocultas do mercado logo poriam fim nesta aventura tresloucada. Não, senhoras e senhores, o mercado não é o super-herói a salvar a sociedade e garantir a liberdade. O que lhes interessa são as movimentações cambiais, investimentos estrangeiros, ações lucrativas na bolsa de valores e tudo mais que se relacione a dinheiro e riqueza. Um Brasil em guerra civil, uma ditadura, não interessaria a investidores que rapidamente sumiriam. Sem capital estrangeiro, aumento no preço do dólar, ações em baixa, a economia afundaria. Me arrisco dizer que até o Trump daria uma forcinha para a queda do ditador.

Por isso minha preocupação sempre se inclinou para o plano do discurso, esse sim é um grande legado maléfico que será deixado em nossa sociedade. Pois a fala do presidente ressoa e encontra diversos interlocutores Brasil adentro. O voto recebido teve diversas motivações, mas de longe a narrativa conservadora e reacionária foi e é a mais potente.

A chegada ao planalto carregou consigo uma série de demandas antes comprimidas, agora escancaradas. Naturalmente isso aconteceria a qualquer presidente elevado ao poder, seu histórico, seu partido e suas bandeiras não seriam dissociadas. Acontece também e todo dia na moda, no cinema, na literatura, personagens ascendem ao gosto coletivo que. por sua vez. passa a segui-lo, aos seus costumes, ideias e outros.

Diante de todas as narrativas construída pelo palácio da Alvorada uma chama maior atenção, pelo seu poder destrutivo neste exato momento, pela maneira como vem sendo incorporada a vários setores e camadas da população e pela letalidade que esta pode causar, a crença na não ciência. Esta negação já se impregnava na sociedade brasileira antes mesmo da eleição, mas com a crise e pandemia causada pelo Covid-19 ganhou corpo e aglutinou adeptos.

A construção da narrativa anticientífica tem alicerce em outras duas religiões, a política e a igreja. Estas religiões, mesmo ultrapassadas, encontram força na base formadora da identidade das pessoas, suplicam protagonistas e sobrevivência. No caso brasileiro se evidencia esta narrativa a partir dos discursos do presidente, dos seus ministros e apoiadores mais próximos. Não por coincidência o lema do governo carrega o pensamento religioso como norteador da nação.

Importante salientar que o problema não se trata de acreditar em um deus, ser cristão, católico ou evangélico. Contudo, mover o país na direção do pensamento religioso está mais próximo da Idade Média do que da pós-modernidade e isso gera um preço muito alto a pagar. Faço aqui a distinção entre religioso (dogma relacionado a um tipo de igreja ou seita) e religião (conjunto de crenças que unem pessoas diversas em um único objetivo).

Neste governo o que não falta são demonstrações do pensamento não científico, basta olhar para os lados e enumerar. Ou não é um pensamento anticientífico um ministro da educação constantemente atacar as universidades públicas? Aliás, tal ataque é motivado por um misto de apego ao religioso e ao político. Religioso porque em suas manifestações o ministro ataca justamente particularidades condenáveis à religiosidade cristã: drogas, sexo, bebidas e outros. Político porque, como um extremista de direita, enxerga o serviço público como algo imprestável, como algo necessário de privatização para realmente funcionar.

Quando a ministra dos direitos humanos e da mulher profere frases fazendo relações de gêneros à cor, o faz pelo princípio religioso. Assim nega a ciência e ao bom senso que notadamente não indicam cores de roupa, brinquedos e outros como elementos formadores da sexualidade do indivíduo. Quando a mesma propõe para o atendimento das mulheres vítimas de violência doméstica uma sala cor de rosa como solução, nega a ciência antropológica, social e jurídica, no mínimo.

Quando o presidente notadamente insiste em recomendar um medicamento às pessoas, mesmo ele não sendo médico, mesmo tendo a maior parte da medicina indicando não eficácia e alertando perigo para efeitos colaterais. Quando o presidente insiste em não seguir e convocar as pessoas para a quebra do distanciamento social, mesmo a Organização Mundial da Saúde reforçando a importância disso, mesmo observando o que os outros países fizeram e quais as consequências dos seguimentos de tal orientação. Faz o presidente um discurso anticientífico, investe na narrativa da negação a ciência. Nestes dois casos, restritamente pela crença política.

Estas narrativas se incorporam cada vez mais aos brasileiros que passam a assumi-las como verdadeiras. As não medidas de segurança em relação à pandemia, a ojeriza a professoras e professores, a violência contra jornalistas que refletem sobre o equívoco destes pensares, o aumento da violência contra mulheres, LGBTSQ+ e outras minorias, são substratos de uma construção ressoante no consciente coletivo brasileiro.

Como disse anteriormente, caso isso não mude, estaremos a caminho do cemitério, estaremos a dançar com cadáveres antes da madrugada acabar, antes de um possível alvorecer. Até lá muitos de nós teremos o nome cravado na sepultura e estaremos à espera da próxima dança macabra.

Ackson Dantas

Ackson Dantas é pedagogo e especialista em gestão escolar, neuroeducação e ensino de artes. Professor de pós-graduação em Neuropsicopedagogia e coordenador pedagógico. Arte-educador, ator, diretor teatral e poeta estreando sua primeira obra em 2019 intitulada “O Costurador de Mundos”.

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