Belo como uma Catedral em chamas, por HELIANA QUERINO

Eu li uma frase estranha sobre a beleza: “Belo como o encontro casual de uma máquina de costura e um guarda-chuva numa mesa de operações”. O conde de Lautréamont, pseudônimo do escritor Isidore Ducasse. Ele escreveu um único livro, os “Cantos de Maldoror”. Um dos mais misteriosos autores de sua época, nasceu no Uruguai e morreu aos 24 anos em Paris. O livro é um poema delirante e parece um pesadelo que demora pra acabar. Pouco conhecido até ser elogiado e apontado pelos surrealistas, nos anos 1920, como o seu máximo precursor, e com insistência se referiam a ele, repetindo sempre a frase sobre a beleza.

Penso que a estranheza da frase é por não termos o costume de consideramos “belo” o cenário descrito.  As nossas ideias e ideais espontâneos de beleza são diferentes: um pôr do sol refletido no mar ou as flores no gramado, um corpo jovem e com moléculas bem distribuídas, o olhar infinito dos felinos, as casinhas de abelhas, perfeitinhas e cheia de mel, a casa do João de Barro, o culto à bunda, principalmente no Brasil…

A Beleza, muitas vezes, é ligada também aos valores morais, ao bem e à verdade. Desde os tempos de Platão.

Esta concepção tradicional de beleza – que tem muito a ver com sentimentos como harmonia, tranquilidade, paz interior, acordo do sujeito com o mundo exterior, descanso espiritual, até valores religiosos – predomina na consciência comum até hoje. A sua forma extrema é o kitsch.

Mas, entre o romantismo e as vanguardas artísticas, no século XIX nasceram também novas concepções de beleza nos ambientes artísticos e literários. No “Hino à beleza” (1857), Charles Baudelaire escreveu:

“Que venhas lá do céu ou do inferno, que importa?

Beleza! Ó monstro ingênuo gigantesco e horrendo!

Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta

De um infinito que amo e que jamais desvendo?

Aqui, a beleza começa a ser não mais harmonia e paz, mas emoção violenta e conflito. Baudelaire não busca o feio, mas sim a beleza: e ele encontra a beleza em lugares e situações onde os outros não veem nada de belo: a grande cidade e as multidões nas ruas, os mendigos e as prostitutas, a embriaguez e a droga, a pobreza e a solidão, as lésbicas e os criminosos, Satanás e a morte. E também encontra a beleza das belas mulheres e nos atos nobres, nos perfumes requintados e nos cenários exóticos. “Que venhas lá do céu ou do inferno” não importa, o importante é que seja beleza. A beleza se separa da moral, se torna valor autônomo.

Nas vanguardas artísticas é possível notar esses detalhes. Uma pintura de Picasso não corresponde à ideia de beleza tradicional, pode até parecer feia, para alguém. Mas a essas coisas é preciso se acostumar, aceitar novas concepções da beleza – menos imediatas, e com mais reflexões.

Então, coisas negativas ou terríveis podem suscitar emoções estéticas. O pico mais alto da montanha ou o mar resoluto em tempestade. E se antes apenas suscitavam terror nos homens, se tornaram “belos” para os românticos com o nome de “sublime”. É um tipo de uma beleza mais dinâmica e mais conflitual. Pode chegar a formas extremas. O escritor inglês Thomas de Quincey (traduzido por Baudelaire) publicou em 1827 “Do Assassinato Como uma das Belas Artes”. Crimes como o assassinato ou o incêndio podiam ser considerados belos, do ponto de vista estético.

Agora uma questão: as inúmeras pessoas que assistiram com grande emoção ao incêndio de Notre-Dame choravam a perda do edifício ou admiravam a terrível “beleza que vem do inferno” do incêndio?

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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5 comentários

  1. Avatar

    Paulo Eduardo de Souza Santiago

    A Beleza por si só é antagônica, A expressão popular que diz que: “quem ama o feio, bonito lhe parece”, expressa bem esse antagonismo. A beleza está nas qualidades internas do ser. Quanto ao incêndio na Catedral foi de uma beleza intensa como o fogo que a consumiu. Parabéns Heliana Querino.

  2. Osvaldo Euclides

    Osvaldo Euclides

    Heliana, tive que queimar um tronco seco de mangueira. Gravei em vídeo as chamas por um minuto. Mandei pra meu neto Berrnardo, de 7 anos,. Ele adorou e me disse para convidá-lo para o próximo fogo.

    • Heliana Querino

      Heliana Querino

      A beleza das chamas ou a beleza do encantamento do Bernardo admirando as chamas. O olhar de primeira vez.

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