Baile de máscaras dos sete selos – Pedro Henrique

Retornando da guerra, aquele nobre cavaleiro cruzado, Antonius Block, reencontra sua Ítaca sueca, acompanhado de seu Sancho, o vassalo escudeiro Jöns. Um retorno nada festivo, mas penitente, àquela média Europa de fim de era – de fim de ciclo –, de fim dos tempos – de fim de mundo –, diante do Juízo flagelador batizado de: peste. A morte se apresenta, então, à espreita dos viventes para deixar-lhes apenas os cabelos na frialdade inorgânica da Terra.

Block, o suserano, está angustiado; Jöns, o vassalo, desencantado. Block desafia a morte em um pretenso jogo astucioso de Xadrez, que não passa, ao fim e ao cabo, de um retardo da fatídica derrota para a tal Ceifadora, sempre no encalço, uma permanente sombra que chegará pontualmente na hora incerta para por termo à vida de homens medrosos, culpados, atormentados.

Abre-se o filme – que nasceu de uma peça e se encaixa perfeitamente na visão barroca do mundo como um teatro de máscaras – com a passagem bíblica de abertura do sétimo selo pelo Cordeiro: “E havendo aberto o sétimo selo, fez-se silêncio no céu por quase meia-hora” (Apocalipse, 8:1); e assim, ressoa ao fundo as trombetas da ira, da vingança de Deus contra a Besta representada por aquela baixa Idade Média, nada distante do passado recente de Bergman, o flagelo do entreguerras, como nem tão distante do passado remoto da decadência do Império Romano; e nem tão distante de nós…

O sétimo selo é um sinal e uma visão.
A primeira cena termina com os dois caminhando e o vassalo, em seu desencanto, constata que há de encontrar a felicidade entre as pernas de uma mulher antes que o diabo venha e faça seu serviço, já que não se sabe aonde foi parar Deus.

Na cena seguinte, Jot, o saltimbanco, que costuma ter visões, enxerga a virgem Maria imaculada; na verdade, ele mesmo diz que esse tipo de coisa a gente não vê, sente: para ver, imaginar, é preciso sentir.

A outra cena é a do vassalo com o pintor, que resolveu pintar não mais a beleza, mas as terríveis imagens do fim; diz mesmo que a morte é mais interessante de se pintar do que uma mulher nua. Na conversa, fica explícito que a glória de Deus cai para os homens diante da peste e da guerra. – “Todos os males humanos se moderam, se retiram… Pela sua interseção, foge a peste, o erro, a morte, o fraco torna-se forte e o enfermo torna-se são”, os lembraria Santo Antônio em oração…

Aos “18 min.” surge a clássica cena da confissão à morte; Block se depara com o vazio e quer entender os mistérios de Deus, da existência, quer saber e não crer; e então a morte lhe retira a confissão de sua próxima jogada.
Castigo e expiação às “bruxas”, na cena seguinte.

É preciso entender o significado dos saltimbancos em sua época, o seu uso de si e dos prazeres, o seu caráter lúdico numa época lutuosa que enxerga a si mesma como condenada pelo pecado. Em meio à apresentação dos saltimbancos na praça pública, o chefe da companhia foge com a mulher do dono de uma taberna e um cortejo de penitentes, diante do qual todos dobram os joelhos e se assombram, a interrompe.

Mas o vassalo não se assombra mais, aproveita o tempo que resta – o problema é que se considera uma alma limpa. Assim, o imaginário cristão aparece marcado pelo seguinte sintoma decadente: a culpa e o medo.

Uma bela cena, talvez um curto instante de redenção, se dá no encontro do suserano e do vassalo com os saltimbancos, e tem-se uma tarde de partilha na luz e na paz. Para logo em seguida vir a floresta escura – como aquela na qual caiu Dante a meio caminho da estrada da vida –, seu cenário sombrio numa noite de lua cheia.

Uma cena fatal é a queima da “bruxa”, que diz ter visões terríveis do mundo, diz ter o diabo a seu lado. Block acaba perguntando para ela o que o diabo pode dizer a respeito de Deus, a quem ele tanto busca. E então ela fica lá, sozinha, vendo-se diante do fogo, e logo desperta para uma visão, essa sim realmente terrível: a do vazio da existência, a do nada, a desolação à qual está submetida, não há ninguém a seu lado a não ser o seu próprio caminhar para a morte, o grande enigma.

E a morte também toma outro homem pela peste, pela sede que marca a peste.
O desfecho é o encontro no Castelo, em meio a uma tempestade, e no Castelo parece haver a fantasmagoria de uma mulher – a mulher do suserano! –, até que a morte leva todos em seu cortejo, visto de longe por Jot no amanhecer da noite escura, salvos ele, a mulher e o filho em sua errância lúdica de artistas saltimbancos.

Pedro Henrique

Pedro Henrique

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Terapeuta Holístico em formação pelo espaço Ekobé.

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