Assumir as próprias escolhas

“A certeza na frente, a história na mão”. Geraldo Vandré

 

No Brasil, o temor pelo enfrentamento de tensões políticas por parte de alguns movimentos religiosos cristãos, envolvendo litígios profundos entre seus membros militantes, é um tema de relevância atual para pesquisadores do campo das ciências sociais e da ciência da religião. Diante da polarização política desenvolvida como estratégia da guerra híbrida para a implantação do Golpe de 2016 para efetivar a derrubada ilegítima do governo Dilma Rousseff (PT), certos movimentos religiosos católicos em vez de criar espaços nos quais, por meio de um enfrentamento dialógico franco, pudessem inaugurar processos consistentes de reflexão crítica e autocrítica em torno das aludidas tensões políticas vividas no seu âmbito interno, adotaram uma atitude conciliadora, acomodando o conflito real numa espécie de silêncio sepulcral. Desta forma, possibilitam que aquela “porta estreita” anunciada nos evangelhos cristãos se transformasse cada vez mais em uma porteira escancarada pela qual se justifica a passagem de todos, indistintamente, diante da dura realidade concreta vivenciada nos últimos anos no Brasil com a ascensão do bolsofascismo ao poder em 2019.

Um dos notórios riscos enfrentados por tais movimentos é a autorreferência, concebida como a práxis vivenciada por todos os seus membros, a partir da classe dirigente, por meio da qual toda a interpretação da realidade fundamenta-se prioritariamente na doutrina espiritual legada por seus fundadores, colocando-a como uma espécie de referencial de verdade absoluta. A existência local e universal é interpretada e justificada mediante os enunciados do seu cânon carismático, deixando inclusive de recorrer a análises sociológicas, econômicas e políticas como ferramentas importantes para o entendimento da realidade concreta. Como consequência de tal postura, emerge uma práxis religiosa triunfalista e superlativa que perpassa toda a instituição, posicionando-a acima da crítica.

Para dialogar com a situação exposta acima, recorremos a uma entrevista recente, realizada em 22 de novembro de 2022, por cinco representantes do grupo America Media, dos jesuítas estadunidenses, com o Papa Francisco em sua residência, Casa Santa Marta, no Vaticano. Eles dialogaram sobre uma ampla gama de temas incluindo a polarização na Igreja dos EUA, o racismo, a guerra na Ucrânia, as relações do Vaticano com a China e o ensino da Igreja Católica sobre a ordenação de mulheres.

De forma particular escolhemos uma resposta ao entrevistador Matt Malone, sobre uma pergunta em relação às críticas que Francisco faz ao capitalismo. O Papa disse o seguinte: “Eu tento seguir o Evangelho. Estou orientado pelas Bem-aventuranças, mas principalmente pelo padrão pelo qual seremos julgados: Mateus 25: ‘Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e vocês me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e vocês cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar’. Então, com essas palavras Jesus pode ser considerado um comunista? O problema que está por trás disso, que você justamente tocou, é a redução sociopolítica da mensagem do Evangelho. Se vejo o Evangelho apenas de maneira sociológica, sim, sou um comunista, e Jesus também. Mas por trás das bem-aventuranças e de Mateus 25, há uma mensagem que é do próprio Jesus. E isso é ser cristão”.

Ou seja, Jesus de Nazaré é portador de uma mensagem, de um roteiro, que numa perspectiva sociológica, como afirmou Francisco, não é neutro, nem acrítico, mas possui um compromisso de caráter distributivo e universalmente inclusivo.  Não há em Jesus uma dimensão relativista absoluta, sem limites, porque senão não haveria um referencial do Bem e da Verdade. Jesus apresenta questões concretas diante do mundo em que existiu, requerendo dos seus seguidores uma atitude semelhante no tempo-espaço onde eles habitam.

Em seus estudos produzidos pela sociologia da religião, o professor emérito Richard Horsley, da Universidade de Massachusetts (Boston, EUA), examinador de novas e críticas pesquisas da evidência que os Evangelhos oferecem da prática e pregação de Jesus de Nazaré, encontra novas compreensões e encaminhamentos para o agir de seus seguidores. Um ponto dessa temática trata de elucidar que “paz não significa ausência de conflitos, mas que o enfrentamento corajoso e sereno dos litígios pode conduzir a sínteses de paz”.

Segundo o autor, a tradição dos Evangelhos está repleta de conflitos, muitos deles com dimensões violentas. Todos os três Evangelhos Sinóticos começam e terminam com conflitos. No início do texto de Mateus, encontra-se o massacre dos meninos inocentes abaixo de dois anos de idade, ordenados por Herodes o Grande (Mt 2, 16). Em seguida, Herodes Antipas manda prender e executar João Batista, autorizando cortarem sua cabeça (Mt 14, 9-11). No evangelista Lucas, Maria mãe de Jesus canta um Deus que “derruba do trono os poderosos e eleva aqueles que estão na base da sociedade judaica” (Lc 1, 52). Além disso, no Discurso da Planície, Jesus oferece o Reino de Deus aos pobres e pronuncia “ai de vós” contra os ricos (Lc 6,20-24). Quando avisado que Herodes Antipas procura matá-lo, Jesus declara que continuará a exercer suas atividades repreensíveis (Lc 13, 31-33). Portanto, para Horsley, em termos de “espiral da violência” (conceito desenvolvido por D. Hélder Câmara), as tradições dos Evangelhos deixam claro que Jesus se opôs diretamente contra a opressão praticada por grupos dirigentes e que sua conduta era virtualmente um convite aberto a enfrentá-la.

O mais proeminente dos conflitos apresentado pela tradição dos Evangelhos é a crucificação de Jesus de Nazaré pelos romanos. As acusações que incidiram sobre ele não eram falsas. A execução na cruz não era uma pena imputada a quaisquer tipos de crime, mas aplicada pelo Império Romano àquelas pessoas que conspiravam e buscavam romper a ordem dominadora. Ao anunciar a iminência da chegada do Reino de Deus, Jesus estava anunciando o fim da ordem antiga da “pax romana”. Ou seja, a qualificação do crime de Jesus continha uma dimensão política. Ele não chegou à condenação de cruz por nada, por não ter anunciado nada ou nem por não haver agido buscando influenciar na queda da ordem social opressora de então. Ele foi condenado, torturado e executado na condição de criminoso político. Ele assumiu as consequências de suas escolhas.

O professor de Direito, Dr. Newton Menezes de Albuquerque, em artigo recente no Mídia Crítica, destaca que “não podemos em nome da democracia aceitar o seu aviltamento, a mentira compulsiva, o chamamento cotidiano ao uso da força e da morte dos outros. A Alemanha pós-hitleriana aprendeu, com muito custo, que a tolerância na democracia não é a tolerância com a intolerância, muito menos dos que se aproveitam dela para destruir o plexo de direitos fundamentais, de garantias e prerrogativas que conformam a sutil e histórica construção da democracia”.

Como lembra o Papa Francisco, no final da existência do cristão, Jesus dirá: “Apartai-vos de mim, malditos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me recebestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. Porque quando não o fizestes a um destes pequeninos, não o fizestes a Mim”. Em suma, é preciso assumir as próprias escolhas.

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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