As três vias

No debate político nacional nos dias de hoje só se fala na tal ”terceira via”.Quase nunca essa discussão se baseia nas reflexões do sociólogo inglês Anthony Giddens[1] sobre este conceito, que já significou muitas coisas no século XX e agora surge como grande novidade no Brasil. Porém, se por aqui falamos em terceira via, quais são as outras duas vias? elas chegam competitivas para as eleições? Um panorama sobre as ”três vias” eleitorais é o objetivo deste texto, e a última pesquisa do instituto Datafolha[2] divulgada no dia 17 de setembro nos ajuda a apontar alguns caminhos.

Segundo a pesquisa, o ex presidente Lula(PT) possui 44% de preferencia do eleitorado num eventual primeiro turno das eleições presidenciais contra 26% de Jair Bolsonaro(Sem partido), 9% de Ciro Gomes(PDT), 4 % de João Doria(PSDB) e 3% de Luiz Henrique Mandetta(DEM).Brancos, nulo e nenhum dos candidatos somam 11% das respostas. Diante desses números e pensando na conjuntura geral,quais as potencialidades e dificuldades de cada uma das opções ao Palácio do Planalto? Quais as chances das ”três vias”?

A ”primeira via” é Jair Bolsonaro (Sem partido). Um presidente eleito naturalmente trabalha no seu mandato para obter uma reeleição e seus apoiadores e base parlamentar desejam que o poder não mude de mãos para que os acordos estabelecidos se mantenham. Bolsonaro possui uma base fiel, barulhenta e radicalizada disposta a reservar um feriado para ocupar as ruas das capitais em defesa das pautas políticas do ”mito”, que nada se confudem com a defesa dos interesses da maioria da população. A despeito de sua alta rejeição, seus flagrantes crimes, falas autoritárias e gestão desastrosa da economia um grupo 25% da população o defende sem pudor, nesse sentido, as chances de vitória eleitoral passariam por furar esta bolha de apoiadores e conseguir convencer parte dos atuais insatisfeitos com o governo a acreditarem que as alternativas são piores que o atual chefe. Para essa narrativa ir adiante uma nova onda anti petista e anti esquerda precisa surgir no mar político nacional. Isso, é claro, contando com a complacência do Congresso e da justiça que se sentem satisfeitos com notas de repúdio e ”recuos” do mandatário e com parte da mídia que ou apoia o projeto Bolsonarista(Jovem pan) ou tenta criar o universo paralelo onde ”Bolsonaro é igual a Lula” (Folha de SP, OGlobo, Estadão) presente na mentalidade de pessoas que em geral votaram 17 na última eleição e estavam na manifestação do dia 12 de setembro.

O grande nome da oposição e a principal ”segunda via” é Lula(PT).Por mais que diga que ainda não é candidato e o PT irá decidir qual será seu candidato em março de 2022 é inegável que o sindicalista está no páreo e com boas chances;possui uma base eleitoral significativa e ostenta um simbolismo que o confere um ar quase heroico daquele líder que ”faz as coisas acontecerem” independente de qualquer circustância, nesse sentido, o lulismo é uma força política singular no Brasil. Se quiser conseguir os votos necessários pra ganhar a eleição precisa buscar apoio em bolsonarisas arrependidos ou em eleitores não petistas, alinhados do centro a centro-direita. O tom moderado que o ex presidente vem adontando nas suas aparições públicas(falando em governar para todos, sem ódio e ouvindo todos os lados) parece sinalizar um caminho nesta direção. O resistente anti petismo ainda presente na população, alimentado diariamente pelo bolsonaristas nas redes sociais e pela mídia ”neutra” que tenta desidratar a candidatura do petista, é e será uma grande pedra no sapato nas pretensões de Lula.

E a propalada ”terceira via”? É importante lembrar que não existe apenas uma via na dita ”terceira via”. Ciro Gomes(PDT) não pode ser colocado no mesmo saco de João Doria(PSDB) ou Sergio Moro(Sem partido). Para o ex Governador do Ceará o filão de votos a serem conquistados está entre o petismo, os anti petismo e os indecisos. Para ser competitivo Ciro precisa convencer eleitores progressistas que pode ser mais de esquerda que o PT na economia e sinalizar para os não petistas que será eficiente na gestão, combaterá a corrupção e adotará um tom diferente na sua relação com o Congresso. Seus trunfos estão na sua retórica envolvente, sua desenvoltura em assuntos técnicos e na sua figura de ”novo” na política, suas fraquezas estão no relativo pouco carisma que o impede de não ser visto pela maioria da população brasileira como ”aquele cara que tá sempre bravo e falando palavras que ninguém entende”. O marqueteiro João Santana parece que notou isso e deve ter sido um nome que apoiou a criação do canal no Youtube em que Ciro é o apresentador, onde adota uma postura informal, familía e não engata tanto no economês. É esperar pra vê se essa estratégia funcionará ou se Ciro terá que se refugiar novamente em Paris no segundo das eleições presidenciais do ano que vem.

João Doria(PSDB), Luiz Henrique Mandetta(DEM) e Sergio Moro(Sem partido), tem pela frente o desafio de roubarem votos de bolsonaristas, indecisos e até de ciristas para construir uma candidatura com musculatura. Do ponto de vista do programa político, Doria, Mandetta e Moro certamente se apresentarão como os únicos que podem resgatar a agenda supostamente defendida por Jair Bolsonaro em 2018 a do liberalismo econômico com o seu corolário de reformas em prol do mercado. Além disso, é importante para estes nomes defender a estapafúrdia relação ”Bolsonaro igual a Lula” para que assim somente eles possam bater no peito e afirmar que são os únicos nomes que podem ”pacificar” o país do petismo e do bolsonarismo.

Qual das vias irá se impor em 2022?

Referências

[1]GIDDENS,A. A terceira via: Reflexões sobre o impasse político atual e o futuro da social-democracia. Rio de Janeiro: Record,1999.
[2]G1.globo.com/politica/noticia/datafolha-lula-segue-a-frente-de-bolsonaro-e-no-2o-turno-tem-56percento-contra-31percento. https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/09/17/datafolha-lula-segue-a-frente

Gilvan Mendes Ferreira

Cientista social graduado pelo Universidade Estadual do Ceará-UECE, com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

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