As tiranias perdem as guerras

“Nasci lá, estive no exército na União Soviética e para eles a vida de uma pessoa não é nada, as pessoas não existem e, portanto, como não há pessoas, não há problema. Por isso, tudo o que eles fazem é para matar.”

Igor Pidgirnyi, médico ucraniano do Hospital São José, 28-2-2022

Disse, num artigo publicado em março de 2022, dias após o início da invasão russa à Ucrânia, que Putin já havia perdido a guerra. Afirmei-o, não pelo aspecto bélico da contenda, que se imaginava desigual, dado o presumível poderio bélico da Rússia de então, mas pelo aspecto moral, já que sempre acho monstruoso o bombardeio e agressão militar de inciativa de qualquer país que mata a população civil inocente (incluindo-se crianças, mulheres e velhos inocentes).  

Condenei a invasão do Iraque pelos Estados Unidos que soltava bombas a partir 10.000 metros de altura sobre a cidade de Bagdad, sob a alegativa inconsistente de existência de armas químicas naquele país, mesmo sabendo que Saddam Hussein era um tirano desumano, e o fiz da mesma forma que condeno a agressão de Putin à Kiev.

Lamento que setores da esquerda tentassem justificar o injustificável nesta guerra de conquista russa, aí incluída a manifestação de Lula sobre a igualdade de responsabilidades entre um agressor, a Rússia de Putin, e o agredido, a Ucrânia de Zelensky.  

É reprovável que os pretensos interesses geopolíticos (no caso o bloco dos Brics) sirvam para se aceitar o abandono de sentimento humanista que deve nortear a esquerda na sua busca pela emancipação humana. Tal comportamento nos descredencia e nos torna iguais aos que combatemos.  
Sob Stalin e seus reiterados processos de expurgos de revolucionários em nome da salvação de uma revolução que se perdia a si mesma, verificamos como podem ser perniciosos os pretensamente meritórios fins justificando os abjetos meios.  

Os Estados Unidos saíram como derrotados, tanto no campo bélico, como no campo moral no conflito no Vietnam, que além de ter milhares dos seus jovens mortos em terras distantes num conflito contra o “comunismo”, a surrada bandeira usada pelo fascismo e congêneres, recebeu de volta homens e mulheres mutilados fisicamente no corpo e na alma por traumas psicológicos irremediáveis.  

Há um aspecto nas guerras que é bem conhecido pelos generais: a questão moral das tropas.  

Napoleão Bonaparte, que havia obtido destaque na Revolução Republicana da França, logo, logo arvorou-se do poderio militar e passou à guerra de conquista obtendo muitos sucessos iniciais que o tornaram o homem mais poderoso da Europa no início do século dezenove.  

Mas, de tanto se envaidecer com as vitórias e o poder (1804 a 1814/1815), tornou-se imperador como Napoleão I, e perdeu a autoridade libertária que antes obtivera e terminou por ser derrotado justamente pela Rússia, e, enfraquecido politicamente, terminou por ser exilado na distante Ilha de Elba, no sul do Atlântico, onde morreu esquecido aos 51 anos, e longe do poder.

A Rússia que hoje está perdida em conflitos internos que envolvem o exército regular e mercenários que combatem a soldo de corrupção política e tirania na guerra da Ucrânia, e até na África explorando ali a extração mineral (como Boçalnaro, o ignaro, fazia no Brasil, fazendo vistas grossas aos garimpos em guerras indígenas, poluindo rios e derrubando a floresta amazônica), e está perdendo a guerra para os ucranianos também no  campo bélico (quem diria?).  

A derrota da Rússia, mesmo que não venha a ocorrer, já é uma guerra perdida e Putin vai passar à história como um genocida. Aliás, tal como Boçalnaro, o ignaro, o genocida da covid 19, que o visitou como amigo e se anunciou como apaziguador capaz de evitar a invasão (lembram-se?), caindo no ridículo dias depois de seu anúncio tão precipitado quanto farsesco.  

A mesma Rússia, durante a segunda guerra mundial, escudada numa armadura moral, mesmo perdendo cerca de 27 milhões de russos, foi capaz de ganhar a guerra contra a Alemanha do tirano Adolf Hitler, e com todos os méritos deve se orgulhar de ter contribuído decisivamente para salvar a humanidade do perigo fascista de 1930/1945.

Infelizmente, por lá, pela Europa e pelo Brasil, renasce o fascismo, redivivo, infelizmente (e praticado por seus líderes políticos que se aliam com gente como este ex-presidiário Yevgeny Prigozhin, que fora condenado por assalto, e atual dono do grupo mercenário Wagner), e não podemos nos igualar a tais comportamentos, sob pena de perdermos credibilidade e contribuirmos por tal renascimento fascista.

A emancipação humana somente pode ter este nome se incluir procedimentos civilizatórios em cada gesto, sem conciliação com o que há de podre na sociedade capitalista, ainda que isto signifique um alongamento do caminho a ser percorrido.  

Vivemos no mundo um momento de saturação do modelo capitalista que é praticado como forma de relação social em todas as sociedades nos seis continentes (se incluirmos a Antártida) e sob as mais variadas formas políticas.

Mas é flagrante, destrutiva socialmente e autodestrutiva, a contradição sob o capital entre forma e conteúdo, ou seja, entre a dinâmica da relação social mediada pela produção de valor (dinheiro e mercadorias) e a prescindibilidade do trabalho abstrato, único capaz de produzir valor, e que está tornando reduzidos os empregos em proporção acelerada, causando o que se denomina como desemprego estrutural.  

Há mais empregos sendo eliminados do que novos nichos destes causados pela própria tecnologia.  

Tal fenômeno está produzindo a redução da massa global de valor, e já se calcula que haja mundo afora cerca de 800 milhões de desempregados, e tantos bilhões de outros subempregados por conta do avanço irremediável do desemprego sob a lógica capitalista de mercado, causado pela tecnologia aplicada à produção de mercadorias (bens e serviços).

Com a falência do Estado, suporte de sustentação do capitalismo, estimulam-se entre políticos e oligarquias econômicas cada vez mais concentradas em monopólios econômico-financeiros, as ideias de gerico da disputa de blocos pela hegemonia econômica como forma de salvação destes mesmos blocos. Este é o gatilho da guerra, que agora pode resvalar perigosamente para uma hecatombe nuclear.  

O que norteia os governos é a permanência dos governantes no poder, e como o eleitorado costuma racionar pelo bolso, numa reflexão eleitoral superficial, os políticos estão sempre aptos dar aos seus nacionais a comodidade financeira que os prestigia, e a guerra, infelizmente, costuma ser a saída político-populista para a solução de problemas que são cada vez mais comuns em razão do colapso de um modelo de relação social que atingiu a sua obsolescência.  

Ao invés de se caminhar para a frente, sob um novo parâmetro de produção social e de paz entre os povos, sem o nacionalismo xenófobo cada vez mais incensado, procura-se o retrocesso civilizatório, ou ainda, a retomada do desenvolvimento econômico, como se a causa do mal pudesse resolver o mal por ela causado.  

A paz somente ocorrerá se houver uma transcendência de suas causas de base, e a guerra é o mais claro testemunho da irracionalidade capitalista em seu ocaso irremediável.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;