AS QUADRILHAS DE JUNHO. por Alexandre Aragão de Albuquerque

Em qualquer golpe de estado, a Verdade é a primeira realidade a ser atacada. As verdades resultam de descobertas que a humanidade alcança em seu processo existencial possibilitando-lhe ampliar de forma mais consistente o Bem contido nessas revelações, implicando necessariamente mudanças de conduta de pessoas e sociedades. Por isso as verdades requerem a luz da manifestação na esfera pública.

Como exemplo podemos pensar no cientista italiano Galileu Galilei (1564-1642), personagem fundamental na revolução científica, ao descobrir, por meio de sua metodologia empírica de pesquisa, rompendo com o método aristotélico praticado até então, que o universo físico – a natureza (physis) – é todo ele escrito em alfabeto matemático. Essa verdade irá orientar a ciência de então até os dias de hoje.

Naquele mesmo período, a Igreja Católica endurecia sua vigilância sobre o surgimento de “novas doutrinas” para fazer frente às derrotas sofridas com a chegada da Reforma Protestante que confrontava o seu poder global. Entre os estudos de Galileu estava a teoria heliocêntrica definindo o sol como centro do sistema cósmico. Esse enunciado implicava uma mudança de paradigma ameaçando diretamente o poder católico para o qual a terra era a centralidade do Universo, o trono do seu Deus. Após um longo e atribulado julgamento pelo Santo Ofício, Galileu foi condenado à prisão perpétua por preferir sua verdade científica em oposição à teologia católica.

A partir de 1945, como o grande vencedor da II Guerra Mundial, os EUA montaram um governo global por ele controlado a partir da criação da ONU e especialmente do Conselho de Segurança. No início, dos cinco votos com direito a veto no Conselho, quatro pertenciam aos EUA com seus aliados. Esse constructo foi idealizado justamente para garantir a expansão dos seus interesses globais. De superpotência econômica os EUA se transformaram em hiperpotência política. Entende-se por superpotência  o Estado com uma posição dominante caracterizada por sua extensa capacidade de exercer o poder em escala global. Isto é feito através dos meios combinados de força econômica, militar, tecnológica e cultural, bem como influência diplomática e de “soft power”.

“Soft power” (poder dissimulado) é uma expressão usada na teoria das relações internacionais cunhada pelo professor Joseph Nye, para descrever a habilidade de um Estado, em função dos seus interesses, para influenciar indiretamente o comportamento de outros Estados por meios de ações culturais e ideológicas.  O conceito básico de poder significa a capacidade de influenciar os outros para que façam o que você quer. Basicamente há três maneiras de se fazer isto: uma delas é ameaçá-los com tanques de guerra; a segunda é recompensá-los com bananas; e a terceira é atraí-los ou cooptá-los para que queiram o mesmo que você. Se você conseguir atrair os outros de modo a querer o que você quer, gastará muito menos em bananas e tanques de guerra.

No Brasil esse “soft power” começou a ser executado de forma mais explícita e articulada com as manifestações de rua em julho de 2013 contra a ampliação da democracia substantiva que vinha sendo conquistada pelos governos eleitos desde 2003. Como bem afirmou o Presidente Lula em sua entrevista em 26 de abril ao repórter Florestan Fernandes Jr.: “Minha condenação injusta e minha prisão ilegal há mais de um ano são mais que o resultado de uma farsa jurídica. São consequências diretas do fracasso social, econômico e político do golpe do impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016. Aquele golpe começou a ser preparado em 2013, quando a Rede Globo de Televisão usou sua concessão pública para convocar manifestações de rua contra o governo e até contra o sistema democrático. TUDO VALIA para tirar o PT do governo, inclusive a mentira e a manipulação pela mídia”.

Mas de qual verdade Lula é portador a ponto de incomodar tanto o poder da Rede Globo e de seus vassalos?

Nas palavras do Presidente Lula, “isso aconteceu quando nossos governos do PT tinham alcançado nossas maiores marcas. Multiplicamos o PIB por várias vezes, chegamos a 20 milhões de novos empregos formais, tiramos 36 milhões de pessoas da miséria, levamos quase quatro milhões de pessoas às universidades, acabamos com a fome, multiplicamos de modo espetacular a produção e comércio da agricultura familiar, multiplicamos por quatro a oferta do crédito, e isso em meio a uma das maiores crises do capitalismo na história. E ainda assim praticamente quadruplicamos as nossas exportações. Para quem não conhece o Brasil, nossas elites dizimaram milhões de indígenas desde 1500, destruíram florestas e enriqueceram por 300 anos a custas de escravos, tratados como se fossem bestas, colonos e operários tratados como servos, divergentes como subversivos, mulheres como objetos e diferentes como párias. Negaram terra, dignidade, educação, saúde e cidadania ao nosso povo”. Portanto, numa palavra, Lula é legítimo representante da soberania popular. Por isso para a Globo é preciso escondê-lo, para que a luz de sua verdade não brilhe na esfera pública.

Com a implantação do Golpe, ocorre justamente um movimento ideológico contrário à soberania popular portada por Lula. Autoridades nacionais prestam alegremente continência à bandeira estadunidense; outras visitam, de forma inédita, instalações da agência de espionagem mundial – CIA; o governo federal entrega empresas estratégicas para o capital estrangeiro tais como EMBRAER e PETROBRÁS, além de doar a Base de Alcântara para o poder militar estadunidense; há o incentivo a uma cultura de violência armada no meio da população civil; desenvolve-se uma visão minimalista de democracia; perseguem-se gestores de universidades públicas, professores e estudantes; adotam-se políticas restritivas dos Direitos Sociais.

Todavia, no dia 09 de junho, o mundo estupefato viveu outro momento ímpar de aparição da Verdade, por meio da publicação pelo site jornalístico “Intercept” de inúmeras conversas sigilosas mantidas pelo então juiz Sérgio Moro com o procurador Deltan Dallagnol, articulando em conluio todo o processo de condenação do Presidente Lula. Conversas essas mantidas às escuras, como sempre fazem os assassinos da verdade. O maior escândalo do Judiciário brasileiro, fora de qualquer padrão de legalidade, como tão bem lembrou o ministro Marco Aurélio Mello, do STF.

Há um grande desejo por parte da população pela demissão de Moro do ministério da justiça, bem como de Dallagnol do ministério público. Existe também uma forte expectativa pela divulgação dos trechos das conversas de Moro com o TRF-4 e com a Rede Globo. Mas é obrigatório registrar que regimes de excepcionalidade não caem livremente. Os aparelhos de Estado são peças chaves para consolidarem o golpismo. Sem dúvida, é excelente para a elucidação da verdade a revelação dos fatos promovida pelo “Intercept”. É preciso divulgá-los à exaustão. Mas a estrutura unificada e monolítica golpista do Estado não se moverá automaticamente no sentido de repor a democracia. Pelo contrário, diante das ameaças que essas verdades lhe submetem, fecha-se ainda mais endurecendo o combate, por meio de novas narrativas e ações encobridoras da verdade. Para a democracia retornar é preciso uma forte mobilização popular.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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