Às portas do inferno: entre a ficção e a realidade

Assim como Dom Quixote, de Cervantes, a obra de Dante Alighieri é parte efetiva do cânon ocidental. Em A Divina Comédia o autor faz uma viagem pelos porões da humanidade divididos em três mundos: o inferno, o purgatório e o paraíso. Político florentino, exilado de sua terra natal por volta dos 1.300, escolheu a comédia como estilo desse livro, porque ao contrário da tragédia, inicia com uma temática ruim – o inferno – e conclui a contemplação do Sumo Bem. Quando ele se encontra no meio da vida, ele se vê perdido numa floresta escura. Ao tentar escapar da selva, é barrado por três feras que o impedem de chegar à montanha. Sua única saída, acenada pelo poeta Virgílio, seu acompanhante de viagem a partir desta etapa, consiste em fazer um caminho pelo centro da terra, passando pelos nove círculos do inferno, até chegar ao monte do purgatório. Sem saída, decide seguir Virgílio pelo itinerário indicado. No portal de entrada do inferno está escrito: “Deixai toda a esperança vós que aqui entrais”, uma severa advertência a todos que fossem ingressar nesse mundo. Ao adentrar nos círculos dos infernos, Dante vai encontrar muitas autoridades políticas, civis, religiosas e militares, as cidades com seus rios infernais, com seus monstros e demônios. Passado o tormento, finalmente ele chega ao monte do purgatório. E na entrada do paraíso é recebido pela sua Beatriz: aquela capaz de gerar o bem, que o conduzirá à contemplação divina.

Se a arte imita a vida, hoje como ontem é necessário buscar e descobrir a cada dia as novas formas do mal gerador de crises e decomposições do bem presente na vida da humanidade. O filósofo Jean-François Lyotard numa frase célebre, em sua obra A Condição Pós-moderna, atestou o fim das grandes narrativas acarretando como consequência a perda de sentido das categorias de ação coletiva, em particular dos partidos políticos e das ideologias políticas. Aquilo que se denomina crise de representação é de fato o duplo desaparecimento da representatividade das instituições políticas e da capacidade dos interesses sociais de ser representados. O grande esfacelamento da vida social provocado pelo triunfo do capitalismo por meio da ruptura ou enfraquecimento de todas as formas de controle da economia, uma globalização que suprime as formas de controle social ou político da economia, deixando o caminho livre ao poder arbitrário do mercado e das armas.

O sociólogo Alain Touraine, por sua vez, destaca outra ruptura: “a dos laços entre os sinais que se proliferam e os árbitros que soçobram na obscuridade e no silencio”. As palavras, as imagens, os sons que “não querem dizer nada” exercem uma atração fatal visto que seu emprego dispensa a interrogação sobre os sentidos que poderíamos lhe emprestar. Entre estas categorias vazias e seus sinais que não remetem senão a eles mesmos, nós desaparecemos incapazes de nos definirmos, de nos situarmos: somos estrangeiros ausentes de nós mesmos.

Os últimos acontecimentos da cena política nacional vêm corroborar essa análise. Primeiramente a Câmara Federal, por manobra do seu presidente, rompeu com o acordo de lideranças ao recolocar em votação a PEC do financiamento empresarial de campanhas eleitorais, uma vez que havia sido decidido nesse acordo caso essa matéria fosse rechaçada na primeira votação, todas as outras que pautassem esse tema seriam prejudicadas. Mas o presidente da Câmara não honrou o acordo de líderes. Ainda, como se não bastasse, cria política de P C Farias, o presidente conseguiu aprovar construção de um Shopping Center como anexo ao complexo de prédios que compõem o Congresso Nacional. Logicamente ele não conseguiu esse feito sozinho: há quem mande porque há quem obedeça, seja por fidelidade pragmática ou fisiológica. E talvez seja por isso que Dante contemplou na sua visita ao inferno a presença de tantas autoridades. Em uma Câmara decente, que representasse o mínimo dos interesses dos soberanos eleitores, atos do presidente como os descritos acima seriam mais do que um suficiente motivo para sua deposição da presidência e até pela perda do seu mandato parlamentar.

O filósofo búlgaro, Tzvetan Todorov, lembra que qualquer valor de civilização está associado, inexoravelmente, à noção de feminilidade, doçura, compaixão, não violência, pois a primeira relação com a civilização estabelece-se por meio do encontro materno com sua criança. A figura de Beatriz não aprece por acaso na Divina Comédia, uma obra escrita com meticulosa maestria. Sendo a democracia também representada por uma mulher, que sensibilidades ela precisará desenvolver para produzir beatitudini institucionais capazes de nos retirar desse inferno que adentramos dia após dia, conduzidos por parlamentares obreiros serviçais do poder econômico e do poder midiático?

Hannah Arendt lembra que o poder fundante de uma nação encontra-se no povo reunido capaz de definir e orientar a vida política daquela sociedade. Diante do inferno político que adentramos, no qual o sistema de partidos perdeu seu prestígio e a autoridade política não representa mais os anseios, necessidades, desejos e projetos dos cidadãos soberanos, somente a convocação de uma assembleia constituinte para fins específicos de refundar o sistema político brasileiro, eleita soberana e livremente pelos cidadãos, reunirá condições de dar um novo rumo e uma nova autoridade à vida política de nosso país.

 

 

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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