AS “ORIENTADAS”

 

— Clauder Arcanjo, você nos disse que a portaria do seu prédio dava acesso pela Henrique Insosso, e o taxista está nos dizendo que não existe essa rua por aqui, não!

As duas “orientadas”, por mais que eu explicasse, não conseguiriam reter as informações necessárias. Resolvi, então, ir direto ao ponto:

— Passe o telefone para o motorista, Angelita. Por favor.

Antes de corrigir a desorientação das duas, pedi desculpas ao pobre homem que, com certeza, estaria à beira de um ataque de nervos:

— Meu amigo, tenha paciência com elas. Já nasceram com o sentido de orientação avariado.

— Não tem sido fácil, cidadão. Há mais de meia hora que rodo com essas malu… Digo, senhoras, e não chego a lugar nenhum. Até eu estou me achando meio confuso — desabafou, com um tom de fúria.

Como eu já fora instruído pelas duas, fazendo com que eu me perdesse no caminho das próprias residências delas, bem sabia que, com as duas, a situação, por mais fácil que parecesse, sempre se revelava um caso perdido. E indaguei:

— Em que bairro elas lhe disseram que eu morava?

— Fátima — ele prontamente me respondeu.

— Não, se enganaram. O meu é Aldeota; a minha rua é Dr. José Lourenço, número 1154. E a…

Nem conseguira passar todos os dados, já ouvia a voz, decidida apesar de totalmente perdida, da outra minha amiga, Dulcinha:

— Cuidado com ele, Clauder é desorientado que nem o quê. Peça para falar com a esposa dele, a Luzia.

— Fique quieta! Se não, não estou para brincadeira, deixarei as duas na frente da igreja. Vão confundir os santos e não a mim, ora essa!

Senti que houve um início de ataques mútuos. Bem sabia que as minhas “orientadas preferidas” perderiam a viagem, mas não recuariam de uma contenda. Em especial, Deus as salve!, quando se imaginavam cobertas de razão.

— Meu senhor, tenha um pouquinho mais de paciência, pela luz dos seus olhos.

— Que já estão totalmente embaçados!, diga-se a bem da verdade — desabafou o coitado.

— Continuemos. Agora você chegará aqui logo, logo. A entrada do meu edifício é pela rua Eduardo Salgado. Confundiram o monarca britânico, assim como o nível de sal. Repito: portaria pela Eduardo Salgado.

Notei que ele, antes de desligar o celular, desabafou:

— Não só o bairro dele não é Fátima, como o acesso é por outro nome de rua. Vocês duas enlouquecem qualquer um!

 

&&&

 

Desci para esperar Angelita e Dulcinha na calçada. Com receio, admito aqui, de que elas fizessem o “sortudo” condutor se perder mais uma vez.

Ao vê-las descerem do táxi, percebi que estavam metidas em mais uma confusão.

— O senhor nos garantiu que não custaria mais do que vinte — protestou Dulcinha.

— Mas, minha querida, “custaria” se o endereço estivesse correto: bairro Fátima. Mas para a Aldeota, bem mais longe, a corrida superou o valor de trinta reais. Para ser mais preciso, trinta e cinco. É só reparar no taxímetro.

— Ora, ora, ele se perde e a gente é que paga a conta? — esbravejou Angelita, que há anos recebera a alcunha de Angelita Perigosa.

Com receio de a discussão caminhar para cenas de pugilato e antevendo o escândalo na frente do meu prédio, acudi:

— Hoje a conta é minha — intercedi, sacando uma cédula de cinquenta reais da carteira para honrar a corrida.

O homem estava com os cabelos em arrepio e já se enrolava com a conta da quantia do troco, quando Dulcinha cuidou de se arvorar uma exímia matemática:

— Cinquenta menos trinta e cinco dá, exatamente… — e engasgou-se com a resposta.

Angelita saiu em socorro da amiga:

— … exatamente… deixe-me ver: cinquenta menos trinta e cinco? Ah!, meu Deus, assim de cabeça não sai. Vou fazer a conta na minha máquina de calcular.

Nisso, uma fila de carros já se formara atrás do táxi, todos a buzinarem. Uma loucura!

Então ouvi o grito de desespero do motorista que as atendera:

— Eu hoje me aposento. Prometo, perante Deus e o Diabo, eu nunca mais entrarei num carro de praça. Chega, che-ga!

E enfiou a cédula de cinquenta na minha mão, saindo a cantar pneus.

Entramos no elevador e, ao apertar o botão do nono andar, as duas se entreolharam, falando baixinho:

— Coitado, nem sabe ele que mora no décimo.

 

* Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia de Letras do Brasil (ALB) e de outras entidades culturais.

[email protected]

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.