AS NOVAS ELITES DO PODER

“Há duas maneiras de se fazer a política. Ou se vive “para” a política, ou se vive “da” política”, Max Weber

Um velho vocábulo historicamente longevo — “elite” — voltou ao uso corrente.

Entre criaturas cultivadas, o termo era grafado “élite” saindo carregado das fumaças da Place de La Concorde, em Paris, por onde rolavam as cabeças impertinentes da nobreza e algumas criaturas iluminadas. “Élite”, de “eislit”, eleito, de eleger…

Neste longo percurso, tomado pela inspiração democrática que alimentou muitos movimentos populares, a palavra “elite”, acomodada como conceito, preceito e preconceito, ganhou proporções indefiníveis. E incontestáveis. Rousseau já apontara a amplificação do status atribuído ao conceito de “elite” ao compará-lo às fontes do poder, onde quer que ele se mostre e pronuncie, nas instâncias do Estado, nas províncias do governo e nos “campos dominantes” de grupos sociais organizados.

Se é de uma elite “do poder” que falamos, referimo-nos, na verdade, a um amplo, amplíssimo, reduto de “poderosos” e “influenciadores” em espectro diluído conforme as especificidades de interesses que animam anseios e propósitos na sociedade. Não falamos, bem entendido, de uma nobreza conspícua de nascimento que, aliás, deixou de existir.

Elite é a representação do enorme corte por onde passam as ordens de quem manda, influi e governa a sociedade. Os influenciadores digitais, a “consciência” falante da modernidade, desfrutam deste poder. Assim constituiu-se o canal alternativo da mídia tradicional pelo qual passaram a fluir críticas, reivindicações e denúncias, livres de controles que já começam a surgir, “em defesa da liberdade” que a democracia oferece…

O campo dominante dos partidos, dos sindicatos, da academia, do empresariado, os políticos — toda a máquina que produz controla a informação. Tudo neste horizonte dilatado é expressão de uma elite “especializada” do poder político exercido “no” Estado. E na sociedade, nos páramos onde os mais otimistas visualizam a imagem ensombrada do povo, ficção de quando em vez exaltada pelos que dele se beneficiam.

Os grupos de pressão, os “lobbies”, tal como os “influencers”, exercem o seu poder, conforme os seus interesses, em áreas específicas. Todos miram, por razões óbvias, os sítios do poder do Estado: o governo.

Já os poderes do Estado, por índole institucional, são independentes, constitucionalmente falando. Deveriam ser, melhor diríamos.

Em situações de maior fragilização da estrutura democrática e republicana, neste caso, cada dependência exerce influência, uma sobre a outra, em flagrante desrespeito à ordem constitucional.

É o que acontece no momento, no Brasil, em um cenário eleitoral inusitado, com a sobre-exposição dos atores do judiciário sobre o legislativo e o executivo, espaços reconhecidos da expressão legítima de um sistema político democrático.

Demonizar a “elite” é um paradoxo, de expor, a um só tempo, a persistência das oligarquias urbanas, os movimentos sociais de índole ideológica fortemente pronunciada; os focos autoritários que controlam os campos de decisão dos partidos, das associações de classe, da mídia, da academia, da indústria de consumo das artes, o grande mercado do entretenimento, ali onde a cultura entra como condimento de uma atividade diversional de grande prestígio popular.

Os mercadores deste trágico circo desfrutam de enorme influência sobre a massa de consumidores que dançam conforme a música e o ritmo ditado por consciências políticas enviesadas pela incultura, à falta da educação que a sociedade e os “democratas” de todos os gêneros lhes negaram.

Ouvir um político falar em “elite” e nos calarmos é uma forma indecorosa de cumplicidade, atitude imperdoável de negligência de uma forma de populismo que vai ganhando terreno, contaminada pelo oportunismo eleitoral, de um progressismo suspeito e indefinido.

IMAGEM: Bauhaus, domínio público

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.