AS GUERRAS, O CAPITAL E A PULSÃO DE MORTE

A violência é reveladora de até que extremos é capaz de chegar a pulsão de morte humana e o quanto é praticada em nome de causas consideradas nobres e divinas: em nome da vida eterna, da salvação, da terra santa, da purificação de raças, de Deus, do comunismo, capitalismo, fascismo, nazismo, da libertação, da emancipação, etc. Os exemplos históricos são imensos: guerras, cruzadas, inquisições, escravidão, genocídios, terrorismo, ditaduras, golpes políticos. Parece que a pulsão de morte precisa sempre se manifestar por meio de uma ideologia para sufocar e fazer definhar a pulsão de vida.

A espécie humana, em sua múltipla diversidade e incompletude, parece que sempre imaginou que a sua humanização só seria alcançada por meio da eleição de um horizonte de sentido cuja efetivação seria incerta e implicaria em sacrifícios, disputas de poder e a eliminação do outro. O maior sacrifício seria o da própria vida, colocada sempre em dupla disputa: na reprodução da própria vida e na eliminação do outro, já que a realização da humanidade da espécie humana não é para todos. É como se, inconscientemente, fosse uma guerra permanente de todos contra todos, na qual vai se eliminando a vida dos que passam a ser obstáculos para se chegar ao lugar supremo. Hoje, o lugar supremo para poucos, visualizado pelos bilionários, é a Lua e o planeta Marte.
Com o sistema-mundo moderno/colonial – capitalista, imperialista, branco, cristão, patriarcal, racista, sexista, homofóbico e eurocêntrico –, a pulsão de morte se transformou na própria lógica de expansão do capital, na qual para que poucos realizem a sua humanidade implica-se negar a vida da maioria da população e destruir o planeta por meio do esgotamento da sua capacidade de regeneração.

A grande aposta dos bilionários, que controlam o capital, a tecnologia e o poder, é a de que, na medida em que destroem o planeta e eliminam a humanidade, possam dispor de meios para viverem na Lua ou em Marte, como se fossem a essência pura da espécie humana. Os exemplares de humano que se humanizaram por meio da eliminação da humanidade inútil e do planeta. É uma aposta que está sendo muito desastrosa, e as energias planetárias podem se livrar de todos nós, sem distinção. Pode não haver antropoceno, a natureza pode reagir, diante das nossas ações destrutivas, de forma que não tenhamos mais condições de existir.

Toda falácia em torno da guerra da OTAN, do governo da Ucrânia e do governo da Rússia, bem como a guerra do governo de Israel e do Hamas, contra as populações vitimadas por suas ações, são exemplos vivos da pulsão de morte como efetivação real do capital. Diante dos fatos, os mercados de manufaturação da opinião publica, que operam disfarçados de meios de comunicação, vão manipulando a realidade, como se o massacre e a matança de velhos, mulheres, crianças, a destruição de suas casas, a mutilação de milhares fossem um jogo de futebol no qual um dos times furou as regras do jogo. Todavia, não dizem que os times jogam para o mercado bilionário produtor de armas preparando o caminho para que, depois da destruição e eliminação de parte da população, entrem em campo os vários setores mercantis de reconstrução e a dominação política do vencedor. Assim, pela morte da massa sobrante de pessoas e pela destruição de toda uma estrutura urbana, renova-se a expansão do capital.
Imagine: se todas as fábricas de armas no planeta fossem proibidas de existirem, bem como todos os tipos de armas, que falta nos fariam? Se todo governo de um país, quando ficasse com raiva do governo de um outro a ponto de a diplomacia não ser capaz de reconciliá-los, ao invés de usar o dinheiro da sua população para decretar uma guerra contra a população do outro, realizasse um duelo público, no qual um saísse morto e o outro honrado, não seria mais honesto e corajoso da parte deles? Se fosse assim, imagino que guerras e duelos seriam muito raros. Você já prestou atenção que todos os governantes dizem representar os interesses de sua população, mas nunca consultam a sua população a fim de saber se ela os autoriza a fazer guerra contra seja lá quem for? Atualmente, numa guerra entre governos, na maioria das vezes por interesses econômicos e/ou algum tipo de poder, eles batem boca um com o outro na mídia, enquanto os serviçais de suas forças armadas matam a população inocente. É o triunfo da pulsão de morte sobre a pulsão de vida.

Uribam Xavier

URIBAM XAVIER. Sou filho de pai negro e mãe descendente de indígenas da etnia Tremembé, que habitam o litoral cearense. Sou um corpo-político negro-indígena urbanizado. Gosto de café com tapioca, cuscuz, manga, peixe, frutos do mar, verduras, música, de dormir e se balançar em rede. Frequento os bares do entorno da Igreja de Santa Luzia e do Bairro Benfica, gosto de andar a pé pelo Bairro de Fátima (Fortaleza). Escrevo para puxar conversa e fazer arenga política.

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Uribam Xavier

URIBAM XAVIER. Sou filho de pai negro e mãe descendente de indígenas da etnia Tremembé, que habitam o litoral cearense. Sou um corpo-político negro-indígena urbanizado. Gosto de café com tapioca, cuscuz, manga, peixe, frutos do mar, verduras, música, de dormir e se balançar em rede. Frequento os bares do entorno da Igreja de Santa Luzia e do Bairro Benfica, gosto de andar a pé pelo Bairro de Fátima (Fortaleza). Escrevo para puxar conversa e fazer arenga política.