Arde uma fogueira em meu coração, por LUANA MONTEIRO

Meio ano se passou. Junho chega e contagia com sua alegria. Que mês lindo! É o escolhido pela natureza como o momento certo para o colhimento de dias de trabalho.

É período de receber com agrado as benesses que a Mãe Terra nos dá. Após ter se coberto de fertilidade, de ter acolhido em seu interior o gérmen da vida, a terra, nossa mãe provedora, se abre em flor e nos presenteia com seus frutos tão bem preparados em seu delicado ventre.

Nos nutrimos de sua vitalidade e agradecemos, festejamos. Junho poderia ser ainda mais lindo? Me encho de entusiasmo e me banho em um riacho doce de emoção quando vejo Junho chegar. Arde meu coração. Cortejo a memória da minha própria chegada ao mundo, meu nascimento e a felicidade em celebrar mais um ano de existência. Sempre gostei do meu aniversário. Não sei se Junho o deixa mais bonito ou se ele completa a magia que o mês tem.

É também comemoração do nascimento de São João Batista, o padroeiro do mês e profeta de popularidade que protege as grávidas e as amizades. A reverencia feita à agricultura me faz pensar nas culturas mais sofisticadas e espiritualizadas que a terra abrigou, os povos ameríndios. Estes com observância e respeito entraram em sincronia com o universo. Seu tempo era natural, não era o humano e muito menos maquinal.

A festa da colheita de São João é um rito de amor e prova do vínculo com nossa fonte primária de alimento.

Fecho os olhos e revivo mil noites em uma só. É São João. A quadrilha se agita, as meninas e os moços trazem movimento, sensualidade e cor para a noite de festejo. Que noite de desejos! Ouço ao fundo um burburinho de canção, parece o Mestre Luiz a me chamar para o salão, – “ô Carolina!”

Sinto meu corpo esquentar, uma energia feminina toma conta do meu dançar, é Amelinha que ensina sobre sensualidade e violência em longas tranças vermelhas.

Apresso os passos no salão em uma mistura sinestésica, emoção, luz, cor, forma som e desejo… Me vejo refletir no meu espelho cristalino e morro de amores de um segundo ao outro. Sofre também o Sabiá, cantando e voando no firmamento, faz preces para seu pequeno amor voltar. Ô Sabiá quem dera eu pudesse te ajudar.

Os suspiros, as sutilezas, os amores desejosos no ar. Ouvidos atentos; os olhos de fé. A noite parece prometer e eu me remexo no meu vestido azul-fina-flor bordado e caído nos ombros com fitilho para todos os lados. Não é longo nem curto, é o suficiente para expor minhas perninhas e me jogar na dança do chão batido de terra no São João da roça. É roça de roçado ou roça de roçar? É tanta dança e desejo, não há tempo de pensar.

Em meses difíceis,  a bebida mais comum era o matruz com leite. Hoje fica na lembrança, porque a noite é de peneirado. Peneira de cá, peneira de lá a farinha de mandioca plantada no suor e colhida na alegria.

Em mais um rebolado de quadris giro ao som e num grande encontro meu coração bobo bola feito balão. Um coração aflito zabumbando pelo salão. Canto também minhas aventuras de amor, os dias brancos, a saudade que arde que nem jiló, as alegrias e a vontade de ter meu xodó.

O público tá agitado, nosso forró é puro alvoroço, mas se chegar de botina na casa de Gabriela, vá logo preparando o seu par de chinela.

Que minha noite seja eterna e nosso padroeiro Santo Antônio casamenteiro nos dê a benção de mais um arder de paixão. No peito não sobra espaço para outra emoção, a fogueira arde e a felicidade em fazer parte dessa festa já sequestrou meu ser.

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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