AQUELE LIVRO, O “U”, DE JAMES JOYCE, AOS CEM ANOS E DUAS HORAS

Há livros santos, sagrados, de se ler com medo,
De sempre limpas mãos e joelhos sobre grãos agudos;
Livros que os mestres não permitem aos mal iniciados,
Pois dependem de uma vida em gabinete. Há, porém,
Livros outros, diferentes, que de tão à-vontade fazem
Não-pensar em muitos cadeados de razão e fichas várias
De empoeirada biblioteca. Não: era o livro safado
Das imoralidades pequenas de corpos bem medíocres,
O livro do perdão e da permissão, quase do abraço,
O livro da palavra de todos conhecida. Por isso,
Livro que há de ter nos cantos as manchas de gordura
Dos dedos de leitores de verdade, de intestinos
Funcionais e bem. O livro, fantástica de nada narrativa,
Que termina com a mulher desperta e falante
A todas as coisas que dizem vida dizendo, ela, sim,
Depois de ter beijadas as nádegas imensas,
Maiores do que o mundo, e talvez mesmo mais redondas.
A palavra sem palavras à flor dos próprios lábios.
Religião.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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