André Fernandes e as armadilhas da representação via lives, por Emanuel Freitas

Alçado à condição de “fenômeno eleitoral” graças à expressiva votação que teve para a Assembleia Legislativa do Ceará, André Fernandes (PSL) devota, com toda razão, sua condição de uma “novidade” na política ao número de seguidores que conquistou a partir de sua militância de direita nas redes sociais – iniciada com críticas ácidas ao que ele diz ser o feminismo e, em seguida, centrando fogo no governador Camilo Santana (PT).

Como inúmeros outros parlamentares do PSL, André faz parte de uma “bancada da self”, uma alusão ao fato de estarem sempre com um celular em mãos, seja para transmitir suas “mitadas” ou para denunciar aquilo que alcunharam como “traidores do povo”. Resta dizer que “do povo” significa “seus seguidores”. É a esse povo que se dirigem, em “suas redes”. O leitor pode lembrar o episódio envergonhante da eleição para a Presidência do Senado, em total desrespeito às regras da Casa, postas de lado pelo interesse “do povo”, aquele “povo” das redes dos parlamentares, sobretudo do PSL. Por isso, pensei certa vez que a sigla do partido poderia significar Partido das Selfies e Lives, uma vez ser dessa agremiação grande parte dos parlamentares afinados com tal lógica de atuação política. O próprio presidente logrou vitória a partir de sua atuação nesse ambiente.

André não destoa de seus correligionários. Profissionais da imprensa que cobrem o dia-a-dia do Parlamento cearense relatam a importância dada por ele e sua equipe para o registro de seus pronunciamentos (quando os faz) nas redes sociais. Se não registrar, não fez – parece ser essa a lógica. Foi assim já em sua estreia, num discurso inflamado que incomodou Dra Silvana, Fernando Hugo e alguns outros veteranos ali presentes. Rapidamente, vídeos com a “mitada” de André em cima dos deputados foram compartilhados em suas redes; infelizmente, hoje já não se pode vê-los.

Pois bem, um episódio revelador das armadilhas dos que pretendem guiar-se, no exercício da representação política, pela lógica instantânea e pela fugidez das redes sociais deu-se na semana que passou. A Comissão de Constituição e Justiça da ALCE, da qual André faz parte, aprovou a concessão do título de cidadão cearense a João Pedro Stédile, um dos fundadores do MST, assim como a concessão do mesmo título à ministra Damares Alves. A indignação veio, primeiro, por parte de feministas petistas que denunciaram o “absurdo” de Elmano de Freitas, membro da comissão, votar a favor de tal concessão. Daí, foi um pulo para que o incômodo tomasse conta dos eleitores de André que, para dar logo uma satisfação ao “seu povo”, fez uma live, depois transformada em vídeo, para explicar-se acerca de uma suposta fake news.

No vídeo, que já conta com mais de 26 mil visualizações no momento em que escrevo este texto, André se refere ao líder do MST como “vagabundo”, e que, como “todo vagabundo” “merece é tiro, é tiro mesmo”. Disse que na Comissão faz-se apenas a apreciação da constitucionalidade ou não do projeto, à qual não pode modificar “por questões políticas”. Concluiu dizendo que não assinaria e não votaria favoravelmente. Pronto, a empreitada do deputado de logo justificar-se a “seu povo” por meio de um vídeo parecia ter dado o devido resultado.

Ocorre que, conforme o ditado popular, “o apressado come cru”, e André, na ânsia de prestar esclarecimento à sua claque, e levando seu mandato à reboque do que ditam os gritos das redes sociais, esqueceu-se de ler (e eximiu-se de conhecer) o regimento da ALCE, ao menos nesse assunto.  Na Lei 12510, de 06/12/1995, lê-se o seguinte: “A proposição deverá ser previamente submetida à apreciação sucessiva da Comissão de Constituição, Justiça e Redação e da Mesa Diretora, aos quais deverão manifestar-se, além do aspecto constitucional e jurídico, sobre o mérito da concessão”. Logo, o deputado poderia, sim, já ter feito o que prometeu fazer a posteriori.

Não tenho a menor dúvida da coerência ideológica do deputado peeselista. Inclusive, ao que me consta, postou-se como mais coerente do que Elmano em relação a Damares. Contudo, é preciso que o deputado André, mesmo parido pelas redes sociais como fenômeno político, saiba dosar o grau de respostas, e sobretudo a temporalidade, que deve dar às suas redes, caso contrário pode vir a ser desfeito com a mesma rapidez com a qual foi por elas feito.

Talvez, seja o caso de ler “Como as redes sociais tornam a política impossível”, capitulo de importante livro de Jaron Lanier.

Um pequeno parêntese: já que Stédile, como “vagabundo” que é, segundo André, merece “é tiro mesmo”, será essa a cena que veremos quando de sua vinda para receber o título? Temerosos os tempos em que vivemos; os homens de bem nem mais na Justiça confiam. Os trabalhadores do MST não devem mais responder judicialmente por “crimes de invasão de propriedade”. Nada disso. Repetindo o que disse o deputado, “merecem é tiro mesmo”. Tempos sombrios.

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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