Amoroso, um livro sublime

Semana passada comentei aqui livro de Ivan Marques sobre vida e obra de João Cabral de Melo Neto. Desde então dediquei-me a ler Amoroso (Companhia das Letras, 2021), primeira biografia de João Gilberto e último livro do jornalista e musicólogo Zuza Homem de Mello, morto em 2020.

Um primor. Livro de encher os olhos de qualquer amante da música popular brasileira, nomeadamente os admiradores do idiossincrático criador da bossa nova, cuja vida, tanto quanto sua arte irretocável, para o bem ou para o mal, esteve sempre na pauta do que existe de mais significativo na história da MPB desde fins dos anos 1950.

Escrito na prosa elegante que é mesmo uma marca inconfundível do autor, o livro é antes de tudo um belo registro afetivo de um amigo e admirador apaixonado do mito da MPB a quem o biógrafo dedicou décadas de pesquisa a fim de produzir um volume definitivo (escrevera antes, sobre João Gilberto, um trabalho de menor alcance para a coleção Publifolha).

É essa amizade que já nas primeiras páginas constitui o esteio da narrativa e seduz por completo o leitor, nunca perdendo, todavia, pela presença dominante do componente afetivo, o foco central que mais interessa numa boa biografia: a fidelidade aos fatos. Esta a razão por que a admiração, embora assumida, quase sempre dá lugar ao rigor analítico com que examina a obra do artista baiano.

Desse modo, para além do amigo, por acaso detentor de um conhecimento enciclopédico da história da música brasileira, depara-se, assim, com o crítico notável da arte musical. É que Zuza Homem de Mello tinha formação musical, o que justifica não raro lançar mão de uma terminologia específica que poderia resultar inacessível ao leitor comum, não soubesse, escritor notável que foi, dar ao texto um tratamento gostoso e facilitador para os que não conhecem teoricamente a matéria musical.

Do ponto de vista estrutural, o livro não observa uma cronologia linear, o que torna a sua leitura uma experiência agradável e dinâmica, mesmo quando, por inevitável, as informações giram em torno do que talvez menos interesse em livros do gênero: a volta ao passado remoto da vida do biografado, sua convivência familiar, os contratempos que, em última instância, pontuam a trajetória de qualquer pessoa e constituem fatos supostamente banais ou de menor importância.

 

O começo do livro, por exemplo, é emblemático sob este aspecto: Zuza Homem de Mello conta como surgiu a amizade entre os dois (não à toa o capítulo intitula-se Amizade), fato muitas vezes adiado por força da timidez do jornalista sempre que se deparava com o ídolo.

É no segundo capítulo, Juazeiro, que a infância e a adolescência do artista ganham espaço no livro, mas o protagonismo é mesmo da cidade baiana em que nasceu João Gilberto. O recurso é extremamente bem sucedido como exercício poético do biógrafo, o livro cresce do ponto de vista estético e fisga o leitor pela força do estilo impecável com que Homem de Mello apresenta o sertão baiano a partir da letra da música Juazeiro, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, que “embora se referindo a uma árvore, já identificava duas cidades do Nordeste”.

As cidades, aliás, que servem para intitular vários capítulos do livro, dizem por si mesmas o significado da trajetória percorrida por João Gilberto desde que, em 1949, deixa em definitivo sua terra para se tornar um nome respeitado mundo afora. Salvador, Diamantina e Porto Alegre, sobretudo, foram degraus importantes nessa escalada de sucesso, embora marcada por provações impensáveis na vida de um homem que, ao lado do músico de extraordinário talento, foi sempre considerado ‘esnobe’ e insuportavelmente exigente.

Sobre isso, por sinal, o livro de Zuza Homem de Mello é muito esclarecedor: os depoimentos de pessoas que conviveram com João Gilberto, mesmo as pessoas mais simples, dão conta menos do ser antissocial, idiossincrático, narcisista e excêntrico, que da pessoa “despretensiosa e simples, extremamente sensível, dada, extrovertida, afetiva e comunicativa. Em suma, um gênio com uma personalidade complexa e carismática”, nas palavras de um contemporâneo dos anos em Porto Alegre, cidade a que, consagrado, o artista retornaria em duas oportunidades para shows em que se faria notar (na opinião dos entrevistados), antes de qualquer coisa, pelo forte sentimento de gratidão para com a cidade e um sem-número de amigos que o acolheram um dia  —  pessoas simples e humildes em sua quase totalidade.

Mas é nos capítulos 6 e 7, Rio Bossa Nova e Bossa Nova USA, respectivamente, que surge o João Gilberto em sua grandeza imensa. Aqui se pode dimensionar o que de fato representou para a música popular brasileira o cantor e compositor nascido em Juazeiro da Bahia em 1931. Com isenção,  muito embora apaixonado (o paradoxo é intencional!) Zuza, com leveza e afetuosidade, vai dando a ver o quanto é irrepreensível a sua arte, o rigor estético com que teceu verdadeiras obras-primas do cancioneiro de todos os tempos e de todos os lugares; o gênio na mais absoluta acepção, cuja arte o jornalista, musicólogo e produtor musical Zuza Homem de Mello, define emblematicamente bem: “Cantava sem vibrato, fraseava com delicadeza, substituindo a grandiloquência por frases secas que terminavam em notas curtas, sem alongamento, combinando com a precisão do violão”.

Ou quando, mais adiante, refere-se ao disco de estreia de João Gilberto, Chega de saudade, de 1959: “… teve o poder de mudar quase tudo que se julgava inabalável na música brasileira. Com sua capacidade de síntese, como quem busca a essência de cada canção, João dá a sua interpretação uma fluidez rítmica e melódica que não se imaginava existir. Consegue uma contextura de universalidade que a partir daquele momento conquistaria os mais sensíveis ouvidos musicais no país e no exterior”.

Em Amoroso, cada disco de João Gilberto, da estreia com Chega de saudade (1959), passando pelo emblemático Getz/Gilberto (1976), ao João Gilberto, a night in Brazil (2020), lançado ou não no Brasil, é objeto do acurado exame do biógrafo.

Do alto de sua competência teórica e com a sensibilidade do gentleman (e um texto impecável), Zuza Homem de Melo desfechou sua expressiva produção com um livro sublime.

Imperdível!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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