AMEAÇA NAZISTA

Uma amiga africana gentilmente enviou-me um retorno sobre nosso último artigo publicado, “Tudo é religião?”(https://segundaopiniao.jor.br/tudo-e-religiao/), no qual apontamos para algumas táticas da ala fundamentalista e religiosa  do bolsonarismo no poder visando ao desmantelamento da estrutura educacional brasileira para ampliar o grau de influência de suas igrejas neopentecostais junto às crianças e juventudes brasileiras.

Entre tantas sábias palavras, ela me disse: “Quanto às tentativas de neutralizar as novas gerações, estamos aqui habituadas a constatar esta tática nos vários grupos fundamentalistas que aterrorizam nossos países africanos. Corroem a esperança da juventude, atacam a educação para minar os alicerces de uma sociedade livre. Na Nigéria, por exemplo, Boko Haram, o grupo fundamentalista islâmico fundado em 2002, apregoa que a educação não islâmica é pecado. Com o passar do tempo, Boko Haram foi se tornando um grupo militar, cada vez mais bem armado, recebendo treinamento de milícias. Al-Shabab (que significa Juventude), no Quênia, também atua com a mesma tática fundamentalista, chegando a apedrejar mulheres acusadas de adultério e a amputar as mãos de acusados de pequenos furtos. As instituições e a sociedade brasileiras precisam abrir os olhos porque por um lado há liberação indiscriminada de armas promovida pelo governo Bolsonaro e, por outro, vê-se a articulação de igrejas fundamentalistas neopentecostais caminhando a passos largos na formação das almas dos brasileiros. É uma combinação explosiva”.

Também amigas e amigos brasileiros, das regiões sul e sudeste, militantes de movimentos cristãos católicos, interagiram com o nosso artigo comunicando-me as dificuldades que encontram para realizar em seus gruposum enfrentamento franco e aberto, baseado numa racionalidade crítica acerca dos últimos cinco anos do Golpe no Brasil. Uma amiga escreveu: “Realmente, nosso movimento está cercado de fundamentalistas, eleitores de Bolsonaro, que pressionam demais, telefonam para nossos responsáveis, faltando com qualquer diplomacia”. Outra interagiu dizendo: “Estamos sofrendo porque pessoas que ocupam pontos chaves de coordenação em várias cidades se colocam em oposição a qualquer articulação em favor de pautas que defendam a democracia e as estruturas públicas, como o SUS, abertamente contrárias a qualquer abaixo-assinado ou algo parecido”. Por fim, outro amigo relatou: “Pensávamos que entre nós existia unidade, mas agora estamos vendo que era algo abstrato, não era baseada em fatos, na razão e na realidade conflituosa que vivemos. Enganamo-nos. O que fazer?”.

A base ideológica do bolsonarismo, expressão da extrema-direita brasileira, ocupou o espaço almejado pela direita liberal quando arquitetou e executou o Golpe de 2016. Como atesta a ciência política, sabe-se como um golpe inicia, mas jamais é possível prever aonde ele vai chegar.

O bolsonarismo fundamenta-se em quatro pontos, muito semelhantes ao nazismo histórico, que se articulam internamente entre si: 1) Armas e violência, para poder combater os inimigos (construídos ideologicamente). 2) A supremacia branca, o macho branco como o ser dominante. No caso brasileiro, quanto mais próximo se estiver da igreja (de tradição neopentecostal ou carismática), mais próxima de Deus e mais branca (pura) a pessoa se torna. 3) O fundamentalismo ultra-religioso, no qual o importante não é tanto o que se faz (tráfico de drogas ou de armas), mas em nome de quem se faz (em nome de Deus). Ou seja, apresentar-se como um soldado do Reino de Salomão (traficantes da cidade do Rio de Janeiro usam a bandeira de Israel, a exemplo de Bolsonaro desfilando no Palácio do Planalto, expressando a ideologia sionista cristã). 4) Ultracapitalismo, a implantação de um capitalismo radical, sem garantias sociais. Pobreza, para esta ideologia, torna-se sinônimo de derrota, de afastamento de Deus, e não resultado de estruturas historicamente injustas e de dominação.

Nessa dinâmica, há que se distinguir o bolsonarismo de aparência (de superfície, “lobo em pele de cordeiro) e o bolsonarismo de subterrâneo (militância radical). A tática preponderante de sua ação política é estimular os afetos de ressentimento mobilizando as emoções contra símbolos e sujeitos a serem atacados: Congresso, STF, Democracia, Petistas, Esquerdopatas, Religiões Afrobrasileiras, Pessoas com orientação homoafetivas, vacinas comunistas, governadores e prefeitos oposicionistas etc., com o objetivo de acirrar a divisão e a polarização social, a partir de uma gramática própria articulada constantemente entre os seus militantes. Um dos grandes formuladores da ideologia bolsonarista é Filipe G. Martins, autoproclamado “judeu cristão” que fez recentemente aquele gesto no Senado Federal.

Essa tática vem sendo estudada e desenvolvida há muito tempo. Ganhou forte expressão e radicalização na eleição de 2018, amparada pelo lavajatismo do ex-juiz gatuno Sérgio Moro e sua parceira Rede Globo, alimentadores do clima de polarização social e linchamento público do Presidente Lula, e do twitter do general Villas Bôas,necessários para o crescimento do discurso de ressentimento produzido pelo bolsonarismo para mobilizar sua militância e os eleitores desavisados.

O nazismo começou assim, com apoio de cristãos, de liberais, do empresariado alemão bem como de sua ralé. Importante relembrar que não foi Auschwitz que fez o nazismo, foi o nazismo que construiu Auschwitz. Em poucos anos.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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