Aliança que dá resultados. Pra quem?

Durante dez anos, por três mandatos consecutivos, no comando da Prefeitura de Fortaleza – oito anos de Roberto Cláudio e dois anos de José Sarto, atual prefeito – o PDT de Ciro Gomes jamais compôs um secretariado contemplando quadros petistas no primeiro escalão do governo da capital do Ceará, não obstante a apregoada propaganda da “aliança” política entre os dois partidos, cantada em verso e prosa por algumas lideranças, a começar pelo governador Camilo Santana. Pelo contrário, durante estes dez anos, o PT em Fortaleza foi fortemente açoitado pelos ciristas. Exemplo recente foi a eleição de 2020 na qual o governador não prestou nenhum apoio à candidata Luizianne Lins (PT-CE), por duas vezes tendo ocupado a cadeira de gestora máxima da capital (2005-2008/2009-2012).

No dia 07 passado, a cena política cearense foi surpreendida pelo noticiário com a nomeação do quadro petista Ilário Marques para a Secretaria de Direitos Humanos e Desenvolvimento Social, pegando de surpresa inclusive todos os membros do Diretório Municipal do PT em Fortaleza, causando-lhes indignação o conhecimento do fato político pelos jornais.

Segundo diversos analistas políticos, essa manobra tem origem no executivo estadual, visando a conter o forte crescimento da ala do partido, liderada pelos deputados federais José Airton e Luizianne Lins, reforçada por uma dezena de grupamentos políticos internos que compõe o Movimento PT Lá e Cá, em DEFESA DA CANDIDATURA PRÓPRIA DO PT AO GOVERNO, Tese esta que encontra amplo e crescente acolhimento em diversos setores e segmentos da militância petista em todo o estado.

A Democracia Socialista (DS), tendência de grande representatividade na capital e em todo o estado, enviou seu protesto ao presidente do Diretório Municipal: “Caríssimo, se no mérito essa notícia em relação ao Ilário é muito discutível, na forma – em sendo a notícia verdadeira – é absolutamente condenável. Ilário não é um companheiro qualquer, é um dos nossos grandes quadros dirigentes. É figura pública. Não há como o partido ter conhecimento de uma coisa dessas pelos jornais. E no mérito o PT tem posição contrária”.

A DAP – Diálogo e Ação Petista – também publicou uma nota intitulada “Defender o PT de Fortaleza”, na qual veem um duplo ataque ao palanque presidencial de Lula, uma vez que, com tais gestos, essas lideranças estariam obrigando a participação petista no palanque de Ciro Gomes (com apenas 5% das intenções de voto). A nota ainda afirma que “a decisão de integrar o governo Sarto não foi produto de nenhum debate e, por conseguinte, de nenhuma deliberação das instâncias municipais do partido, representando uma grave intervenção no PT da capital, pela cúpula estadual do partido”.

O Movimento PT Lá e Cá, que agrega uma dezena de forças políticas internas do PT, entre jovens e adultos, cuja centralidade está no compromisso em eleger simultaneamente Lula Presidente e um Governo estadual petista autêntico, também registrou em nota: “A que ponto estão chegando na condução do partido no Ceará e em Fortaleza. Parece que não há limite no desrespeito à democracia interna do partido. É contra este descaso que estamos lutando. Nossa determinação é clara e objetiva: não nos submetermos à lógica de esfacelamento do PT Ceará objetivada pela política de aliança com os Ferreira Gomes”.

O ex-vereador e ex-procurador do Município, Deodato Ramalho, membro do Diretório Municipal, também registrou que “o afrouxamento da disciplina partidária, do desrespeito às decisões de nossas instâncias, é uma decepção”.

Importante registrar que em 29 de dezembro de 2020, em reunião do Diretório Municipal de Fortaleza, ficou decidida a RESOLUÇÃO de que o PT integraria a bancada de oposição do governo do prefeito Sarto (PDT), por meio de uma “oposição qualificada, pela esquerda, em diálogo com o campo progressista”, segundo o presidente do diretório, vereador Guilherme Sampaio. Na mesma direção manifestou-se o então vereador Ronivaldo Maia, afirmando que “o PT deve ficar na oposição, porque na prática por trás do governo Sarto estão os Ferreira Gomes”. Mas, inexplicavelmente, Ilário Marques aceitou a nomeação, passando por cima da decisão do Diretório Municipal.

Ontem, 11, ao participar do programa JOGO POLÍTICO, Marques confirmou que o governador Camilo Santana sondou a sua pessoa, não submetendo esse processo de escolha política do seu nome para compor o secretariado municipal do PDT de Ciro Gomes a nenhuma discussão com o Diretório Municipal do PT. Ilário ainda disparou: “Não é elegante fazer veto político”, sobre a sucessão de Camilo. Mas, o desatento Ilário não se apercebeu de sua contradição, à medida que foi VETADO E DESRESPEITADO todo o Diretório Municipal de Fortaleza, quando atropelado em sua decisão institucional e democrática de manter-se na oposição ao governo Sarto. Mais que um veto, pode-se dizer que foi uma violação política.

Ao final, percebendo a ambiguidade apresentada por Ilário, o jornalista entrevistador perguntou-lhe se não haveria uma forte incoerência em seu discurso, porque em vez de fortalecer o palanque de Lula o movimento que está sendo arquitetado é justamente o oposto, o de fortalecer o palanque de Ciro Gomes que vem despencando nas pesquisas. Ilário, saindo pela tangente, disse ainda é cedo para se responder a esta questão.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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