Algumas idiotices absolutas

“Nada menos produtivo do que tornar eficiente algo que nem deveria ser feito”

Peter F. Drucker

​A irracionalidade coletiva tem se manifestado historicamente contrariando a máxima que diz: a voz do povo é a voz de Deus!

​Não foi a voz do povo aquela que condenou Jesus Cristo à morte por crucificação?
​Não foi a voz do povo alemão que elegeu e apoiou Adolf Hitler e seu discurso de ódio e entronização de todo um retrocesso civilizatório na culta e disciplinada Alemanha?

​Não é o povo que aceita participar da guerra e matar outros seres humanos que sequer conhece?

​Não é povo que com memória amnésica acredita sempre na eterna cantilena dos políticos salvadores da pátria que se anunciam contra paladinos do combate à corrupção com o dinheiro público?
​Não é um grupamento de fanáticos religiosos que aceita cometer suicídio coletivo como forma de abreviar a chegada ao reino dos Céus, como ocorreu em Jonestown, na Guiana, com o místico Jim Jones?

​Não é o povo que chama de burro o técnico de futebol ou de qualquer outro esporte de massa por não entregar os resultados ansiados, mas que ainda ontem era considerado um gênio da raça?

​A verdade é que Deus deve se sentir muito mal representado em ouvir como sua a voz da irracionalidade coletiva. Certamente que foi por isso que seu filho mandou que atirasse a primeira pedra na mulher acusada de pecadora, Maria Madalena, aquele que não tivesse pecado na multidão que queria apedrejá-la!

Assim resolvemos analisar alguns comportamentos de indivíduos sociais ou da coletividade que se traduzem como as mais simbólicas e incontestáveis provas de irracionalidades coletivas que se instalam como naturais e são absorvidas como tal consensualmente, ainda que hajam sempre honrosas vozes discordantes.

A irracionalidade do trânsito – nas grandes cidades mundo afora o tempo de deslocamento de uma lugar para outro é irritantemente lento graças ao congestionamento de veículos no tráfego.
​Com o desenvolvimento da indústria automobilística e toda uma irracionalidade em torno da sua preservação como fonte de produção de valor, um único indivíduo, com seu carro, ocupa o espaço diminuto das ruas e avenidas congestionando-as e impedindo o ágil fluxo de transporte.
​Ao invés de se usar de um ponto a outro somente veículos grandes que possam transportar confortavelmente e rápido muitas pessoas ao mesmo tempo (caso dos ônibus e metrôs), a faixa da população de melhor poder aquisitivo prefere dirigir o seu próprio veículo, ainda que isto signifique o estresse causado pela paralisia do tráfego e prejuízo coletivo (contraditoriamente, sob o capital tempo é dinheiro…)

​Mas tal irracionalidade obedece ao interesse econômico de uma lógica de mediação social saturada, mas que insiste em permanecer como essencial, ainda que use o combustível físsil poluente de CO² que provoca a efeito estufa, causa comprovada cientificamente do aquecimento global.

​Há toda uma engrenagem de produção de valor (forma de mediação social em si irracional) que envolve a produção de peças de reposição, baterias, pneus, postos de combustíveis, etc., que impõe ditatorialmente à coletividade a aceitação de toda a destrutibilidade social e vital, e com ele a irracionalidade contida em tal comportamento.

​O homem dito “moderno” da sociedade da mercadoria é tão lento no seu deslocamento quanto o era o homem que se transportava em carroças; trata-se de uma regressão comportamental, agora acrescida de um ecocídio irracional.

A negação ao uso das vacinas – se um camponês que não teve acesso à escola, afirmasse publicamente que ao tomar vacina você poderia virar jacaré, todos ririam a atribuiriam tal diatribe à ignorância do pobre coitado.

Mas quando é o Presidente da República quem faz tal afirmação ao microfone em cadeia de emissoras de difusão e em discurso à coletividade, não dá para rir, mas para se indignar contra o genocídio que tal mensagem pode causar, e efetivamente causou.

O retardamento em comprar vacinas e defender o uso preventivo de remédios sem eficácia, como cloroquina e outros, causou a morte de mais de 200.000 pessoas configurando-se como um genocídio, que é a morte de grandes contingentes humanos por ação ou omissão voluntária de quem a provocou.

Não há como se inocentar Boçalnaro, o ignaro, desta culpa que certamente marcará a história da sua vida.

Além de causar tal genocídio, a negação da eficácia das vacinas, hoje comprovadamente eficazes em alta percentagem de imunização e salvação de vidas (ainda hoje em São Paulo não foram registradas nenhuma morte, e isto se deve ao alto grau de vacinação na capital paulistana), configura-se como uma burrice governamental sem tamanho.
Se o Presidente queria pelo menos segurar os números pífios da economia sob seu comando, que vinham desde 2019, com PIB menor do que o de Michel Temer, o temerário, com a estratégia de negar o necessário look-out; negar o uso de máscaras; distribuir o kit covid; e aparecer abraçando trabalhadores informais num populismo barato e irresponsável, terminou por ser catastrófico também neste item específico. A economia parou.
Mas só com muito custo parte dos seguidores de pretenso mito, os chamados bolsominions, abandonaram as teses suicidas do seu guru, e muitos se vacinaram às escondidas. É que o ser humano tem um instinto de sobrevivência que às vezes ganha de sua irracionalidade obtusa. Ainda bem.

Mas não é só aqui que a negação da vacina ganhou adeptos. Nos Estados Unidos, país que tem vacinas para si e dar aos outros, e ainda paga bônus a quem quiser se vacinar, tem uma parte da população que se recusa a fazê-lo. É graças a isso que por lá as mortes continuam renitentes, ainda que em números bem menores do que no auge da pandemia, quando não haviam vacinas.
Negar a obviedade dos efeitos benéficos da vacina, principalmente quando tal negação vem de quem tem a responsabilidade governamental de defendê-la, ou a corroboração de tal negação por profissionais da medicina, desconhecendo-a como modo profilático social, é crime de responsabilidade. Não há outro nome.
Sempre agradeço ao Dr. Albert Sabin, o sábio descobridor da vacina contra a poliomielite, bactéria que aleijou até o Presidente Franklin Delano Roosevelt, dos Estados Unidos, o fato de ter evitado aleijões de pessoas mundo afora a partir da vacinação massiva da população ainda na infância.

É graças à sua descoberta que não termos mais ninguém padecendo a discriminação de que são vítimas os atingidos por tal enfermidade. Os cientistas descobridores das vacinas são os verdadeiros heróis contra o negacionismo e a obtusidade coletiva insana.

Considerar a China como comunista – o comunismo não é uma forma política, mas uma doutrina que propõe um estágio de vida social no qual inexistam classes sociais distintas e as categorias sociais que compõem o universo capitalista, aí incluídos o dinheiro, a mercadoria, o trabalho abstrato (expressões materializadas da abstração valor), e a sustentação política e jurídica destas categorias de base pelo Estado, a esfera de regulação e coerção opressora social.
​Neste sentido, a China, ao fazer a chamada revolução proletária em 1949, sob o clima da guerra fria do pós-guerra, e conservar todas as categorias capitalistas de base, tornando o Estado dito comunista (uma contradição até na acepção filosófica do termo) o novo e plenipotenciário patrão, mudou apenas dois aspectos da vida social anterior:
a) a propriedade estatal a partir do confisco dos meios de produção privados dos três setores da economia, agronegócio, indústria e serviços;
b) a forma política centrada no partido único, autodenominado de comunista.
​Acreditavam os marxistas tradicionais, que ao expropriar os meios de produção dos capitalistas privados (ou dos mandarins feudais) e colocá-los sob o controle de um governo pretensamente proletário, os problemas estariam resolvidos e se caminharia o para o fim comunista teoricamente almejado.

​O que se viu e se sabe, é que ao se fechar intramuros nas suas extensões territoriais imensas, mas preservando todas as categorias capitalistas de base, em que pese a relativa melhoria de vida milenarmente empobrecida dos camponeses da China, veio a inevitável necessidade de expansão da lógica capitalista interna, e o surgimento da doutrina de Deng Xiao Ping, de abertura capitalista para o mundo, com as concessões ao capital privado local e mundial e busca e aceitação do sistema bancário capaz de financiar a produção industrial crescente, como forma de se alcançar tal expansão.
​Hoje a China pratica o capitalismo mais selvagem do planeta, baseado num endividamento gigantesco (cerca de 300% do PIB, o maior do mundo capitalista); salários de fome, sem direitos trabalhistas; baixo custo fiscal; e controle estatal severo, ou seja, uma ditadura ferrenha e militarmente poderosa, que nega todos os postulados que um dia estiveram na cabeça de Karl Marx, o fundador do materialismo dialético e da crítica da economia política.

​A China positiva a lógica do capital; Marx negou-a.

Mas essa é a mesma China que hoje já está provando do próprio veneno com o qual pretendeu conviver, o capital, e vê serem solapados os fundamentos sob os quais erigiu o seu falso comunismo e por suas próprias contradições.

Os fundamentos capitalistas chineses rodam em falso, e num prazo que não podemos prever exatamente qual será, terá que rever os critérios sob quais erigiu o dragão chinês e procurar outra lavagem de roupa (como se diz aqui no nordeste para quem perdeu o emprego).

Dizer que a China foi em algum dia comunista é como se dizer que Pelé foi um perna-de-pau!

A aceitação passiva da volta sem pejo, e à luz do dia, da doutrina nazista – o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (1920/1945), derivado do antigo Partido dos Trabalhadores Alemães (1919/1920), traz, no seu enunciado, três elementos que denunciam a contradição doutrinária do seu nome, e um quarto elemento, oculto, que cedo se evidenciou.

​O primeiro elemento diz respeito ao seu enunciado partidário e anunciado “nacional socialismo”.

Ora, o socialismo, enquanto doutrina pretensamente anticapitalista (que também não o é, pois admite a convivência sob a mediação social sob o capital), e que se pretende internacional, não pode ser, obviamente, ao mesmo tempo nacional e socialista, que são conceitos semanticamente e doutrinariamente divergentes.

Se é nacional, não é internacional; se é socialista, é presumivelmente anticapitalista. O nazismo, que queria deter hegemonia ditatorial internacional capitalista, é uma mentira até no seu conceito simbólico.

Como partido que endeusava o trabalho (veja a frase dos campos de concentração que diziam: o trabalho liberta), o trabalhador alemão ariano e sua capacidade intelectual e física, evidentemente endeusava esta categoria capitalista (o trabalho abstrato produtor de valor) ao mesmo tempo que protegia os capitalistas alemães de origem ariana segregando os capitalistas e trabalhadores judeus, ou seja, era trabalhista, mas capitalista e racista.

A confusão conceitual somente pode ser compreendida quando se analisa que tudo nada mais era do que uma farsa doutrinária que encobria uma mentira, cuja única verdade era a pretensão de hegemonia econômica e política com a ascensão da virulência de uma ordem política-social-belicista-ditatorial-racista-escravista, autodenominada nazista, capaz de pôr em prática todos os modos de ações capazes de viabilizar todos os retrocessos civilizatórios que haviam sido conquistados mundo afora, sigla que sintetiza uma visão estatutária de terrorismo de Estado.

​O que mais impressiona é que na douta e civilizada Europa, que tanto sofreu com a devastação da segunda guerra mundial provocada pelo pensamento nazista de mãos dadas com seu irmão siamês, o fascismo italiano, haja agora ressurgido das cinzas, em plena luz do dia, demonstrado a existência coletiva de um perigosa memória amnésica da história política e social mais recente.

​Mas não só na Europa renasceu todas as mazelas representadas pelo nazi-fascismo. O Brasil tem demonstrado que a sua proverbial cordialidade não é tão cordial assim. Temos uma guerra urbana marcada pelo crime organizado e aumento das milícias (tais quais os camisas pardas nazistas de outrora) que cobram proteção e julgam quem têm passe livre e certeza de impunidade.

O que é a truculência de alguns militantes boçalnaristas que exibem músculos diante de uma placa de uma vereadora que com sua atuação destemida honra os melhores filhos do povo, e que sendo de origem humilde, negra, mulher e gay, foi por isso mesmo assassinada covardemente, senão a versão brasileira e atual dos camisas pardas nazistas?

O que dizer de alguém com a prática social acima referida, praticada por criminosos covardes em tocaia, e chancelada pelo cidadão chamado Daniel Silveira, eleito como representante do povo para o parlamento brasileiro federal?
Os camisas-pardas nazistas, ainda no início da década de 30 do século passado, invadiam bares gays, saqueavam lojas de judeus, perseguiam ciganos, e prendiam divergentes políticos (principalmente comunistas) simplesmente por serem considerados por estes grupamentos paramilitares como nocivos aos interesses da pátria mãe alemã, e tudo sob critérios superficiais de julgamentos doutrinários sumários.

O povo alemão ficava calado, por medo e covardia, e apoiava Hitler e sua turma, até que um dia viram seus filhos mortos na guerra e suas casas serem bombardeadas como revide a uma guerra mundial insana provocada pelos nazistas.

O nazismo, não importa o nome político que adote, é uma doutrina do terror estatal, e quando ganha apoio popular torna-se terrivelmente despótico e anticivilizatório.

O Brasil por algum momento embarcou nesta canoa, mas felizmente parece que a consciência histórica aliada a descrédito governamental causado pela depressão econômica capitalista e evidência do genocídio epidêmico viral evitou o pior, por enquanto.

Considerar-se absolutamente antagônicos o capital e o trabalho abstrato – capital e trabalho abstrato são apenas faces de uma mesma moeda, literalmente e conceitualmente. Um não existe sem o outro.

​Não é por menos que doutrinas políticas aparentemente tão dispares, como o capitalismo de Estado, o nazismo e o capitalismo liberal democrático burguês colocam no altar dos santos imaculados tanto o trabalhador e o trabalho.
​O capital, valor acumulado em razão do roubo do tempo de trabalho abstrato produtor dos ditos cujos (capital e valor), decorre da forma desenvolvida do antigo escravismo direto, no qual um ser humano era proprietário de outro e ainda não havia, em sua tradução mais completa, o conceito de capitalismo.
​Destarte, o trabalho abstrato, pretensamente libertador do escravismo direto feudal, é a primeira categoria formadora do capitalismo, que transformou tudo em mercadoria, sendo a mercadoria força de trabalho, mensurada sob o critério de tempo-valor, a sua primeira e primária fonte existencial.

​Os marxistas tradicionais colocaram em suas bandeiras a foice e o martelo, símbolos dos trabalhadores industriais e campesinos, como se estes fossem os artífices da libertação social deles mesmos, quando na verdade a conservação de tais categorias apenas representavam a continuidade do escravismo capitalista sob outra forma política e de propriedade, agora estatal, conservando-se o próprio obtuso e segregacionista conceito jurídico de propriedade.

Tais categorias capitalistas deveriam ter sido negadas, e ao invés de um Estado proletário deveria ter sido instituída uma sociedade de homens livres, autodeterminados juridicamente (por cânones legais que horizontalizasse as decisões coletivas e não as centralizasse) e produtivamente (com produção de bens e serviços destinados ao consumo coletivo, e não de mercadorias).

Os nazistas eram capitalistas nacionalistas e tinham no endeusamento do trabalho abstrato produtor de valor uma de suas bandeiras principais, sob a qual exaltavam a capacidade produtiva do trabalhador ariano em detrimento de outros trabalhadores que consideravam menos capazes, a quem pretendiam os escravizar política e militarmente (com viés racista declaradamente admitido).

​A frase “o trabalho liberta”, constante dos campos de concentração nazistas, dão bem a dimensão simbólica e doutrinária do que seja um ser humano produtor de bens para toda coletividade transformado em cidadão trabalhador abstrato produtor de capital, esta última se configurando como a forma engenhosa sob a qual se pode ter o domínio legal e monetário, a partir da propriedade de mercadorias e de um quantum de valor monetário.

​Os liberais democratas, por sua vez, também exaltam o trabalho e o trabalhador, mas sob uma ordem jurídico-econômica-constitucional na qual a raposa se locupleta fartamente diante das galinhas num mesmo galinheiro, com tentáculos mundiais.

Os países ricos, detentores de hegemonia econômica e financeira, que exportam mercadorias manufaturadas, detêm importantes patentes industriais, sistema de moedas fortes, sistema bancário detentor de hegemonia de moeda internacional, etc., agora veem as suas industrias migrarem para os países pobres por conta da concorrência internacional de mercado que as obrigam à busca de trabalho abstrato barato.

Tal processo tem causado problemas internos nos países ricos, e se trata do curso esclarecedor do processo dialético social que termina por expor as contradições daquilo que é essencialmente contraditório. Não há mal que dure para sempre.

O trabalho abstrato é o cerne de too o complexo funcional capitalista!
Se um capitalista tem milhões num banco, tem, automaticamente, a capacidade de ser dono, de quaisquer outras mercadorias dimensionadas sob o critério jurídico e econômico dos muitos tempos-valores de trabalhos abstratos coagulados nestas mesmas mercadorias.

É por isto que um Partido de Trabalhadores (até o partido nazista se dia trabalhista) é, antes de tudo, um partido que depende da continuidade político-jurídica-econômica dessa relação cumpliciada e escravista entre capital e trabalho.
Tanto os capitalistas como os trabalhadores se digladiam para a obtenção de uma única mercadoria: o dinheiro. O pretenso antagonismo se opera sob regras predeterminadas e dentro de um mesmo jogo, sendo, portanto, apenas relativa, e não absoluta.

É evidente que é desigual a correlação de forças entre a síntese de todas as categorias, o capitalismo e seu administrador, o capitalista privado ou estatal, e as categorias capitalistas trabalhador e trabalho abstrato, mormente num estágio de depressão econômica na qual a oferta de mão-de-obra abundante transforma a mercadoria trabalho profundamente desvalorizada perante a lei capitalista da oferta e da procura.
Repito o que já se disse em outras oportunidades: a questão não é nos emanciparmos NO trabalho, mas nos emanciparmos DO trabalho.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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