Ainda sobre poesia e música

Semana que passou, escrevi neste espaço sobre a proximidade da música com a poesia. O texto ensejou por e-mail e WhatsApp bons comentários. Mais de um leitor fez alusão ao simbolismo, movimento estético ocorrido entre fins do século 18 e inícios do século 20, dentre cujas caraterísticas sobressai o gosto pela musicalidade dos versos. A tendência, mais que um deleite com a sonoridade das palavras, num tipo de formalismo descompromissado, revela antes o sentido simbólico como caminho para a expressão do mundo interior do poeta, indo do consciente para o subconsciente e o inconsciente, alcançando toda a dimensão do “eu profundo”.

Para tanto, buscava o poeta traduzir pela linguagem verbal o inefável, sensações e estados anímicos os mais diversos, atingindo níveis de abstração impensáveis. É nessa perspectiva que explorava o símbolo não como usualmente o fazemos (a pomba branca, por exemplo, simbolizando a paz), mas de modo a reduzi-lo a uma massa sonora carregada de sugestões, aproximando com isso a poesia da música. É que nenhuma linguagem estética é tão capaz de suscitar emoções intraduzíveis quanto a música, mesmo quando estamos falando de músicas sem letra, como é recorrente entre os clássicos, quase sempre compostas sobre bases narrativas, isto é, quando “contam” histórias, casos, enredos imaginados pelo compositor.

São imperdíveis, como exemplo, os versos do poeta Cruz e Sousa no irretocável “Violões que Choram”: “Vozes veladas, veludosas vozes/Volúpias dos violões, vozes veladas/Vagam nos velhos vórtices velozes/Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas”. Para não citar, claro, os franceses Baudelaire, Mallarmé, Verlaine, ápices dos experimentos musicais do verso.

Agradecendo ao interesse despertado pelo artigo, retomo a reflexão para observar que, embora dominante durante o fastígio do movimento simbolista, como deixei evidenciado antes, poesia e música andam de mãos dadas, mesmo quando se toma como parâmetro o verso modernista, que sabemos refratário à forma fixa, à métrica rigorosa, à rima convencional. No Brasil, são notáveis sob este aspecto, para me referir aos clássicos, poetas como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Sobre este é imprescindível ressaltar-se “a estilística da repetição”, tão bem examinada em livro maravilhoso de Gilberto Mendonça Telles, com este título. Quanto a Manuel Bandeira, creio ser o caso mais representativo, pois que sua poética está firmemente calcada na fina percepção da potência musical da palavra. Não é muito lembrar que Bandeira sempre deixou evidenciado o seu amor pela música, que considerava a mais sublime das expressões artísticas.

Nesse sentido, é absolutamente oportuno que me volte para o seu “Itinerário de Pasárgada”, livro de memórias com que o poeta pernambucano traça o seu perfil criador, indo das raízes da infância ao aprimoramento estético, todo ele embasado no amor à música e no pleno domínio dos recursos da versificação. A esta altura, abro aqui um parêntese: revendo ontem o belo filme “Inocência”, de Walter Lima Jr., baseado no romance homônimo de Visconde de Taunay, marejei os olhos na bela sequência em que Fernanda Torres canta “Azulão”, poema escrito por Bandeira para a música de Jayme Ovalle*: “Vai/Azulão,/Azulão,/Companheiro,/Vai!/Vai ver minha ingrata./Diz que sem ela/O sertão/Não é mais/Sertão!/Ai voa!/Azulão,/Vai contar,/Companheiro,/Vai”.

Para não me alongar, considere-se a exiguidade do espaço, os limites entre poesia e música estão desde sempre diluídos, o que ressalta o preconceito em relação aos bons letristas serem considerados “poetas” mesmo no sentido clássico.

Voltando a Manuel Bandeira, assim, é que sobram os exemplos de que sua poesia está assumidamente ligada à música, sendo numerosos os estudos que examinam essa proximidade. Digo melhor: essa unidade.

Por último, do mesmo poeta, cito o poema intitulado “Letra para uma valsa romântica”, não estranhamente escrito a pedido do maestro Radamés Ganattali: “A tarde agoniza/Ao santo acalanto/Da noturna brisa/E eu, que também morro/Morro sem consolo/Se não vens, Elisa!”.

Como se vê, o ritmo e as rimas do poema ecoam a valsa. Os versos de seis sílabas observam um compasso ternário. Mas isso já é música em sentido estrito, matéria que não é, com rigor, minha praia.

Bom fim de semana!

*A música foi objeto de releitura pelos maestros Camargo Guarnieri e Radamés Ganattali. Em tempo: No filme de Walter Lima Jr., a voz, registre-se, é da cantora Telma Costa.

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

1 comentário

  1. cicero braz de almeida

    Bom dia. A propósito, e ao tempo, do poema musicado ou, se preferir, o poema musical, dentro daquilo que costumo produzir em termos poéticos, faço a distinção entre o eu poético e o eu letrista. Às vezes, ao sabor d’alguma emoção mais forte, a música antecede ao poema que nasce, muito embora não seja aquela o meu forte, e nisto somos parecidos (rsrs), a melodia fica na cabeça de quem lê. Se porventura quem leia seja músico, a obra se completa.