Ah, se o banco dessa praça falasse! – Jessika Sampaio

Tudo começou com um poço e um areal – isso era lá pelas datas de MilOitocentosETrintaETanto (assim, junto mesmo), logo depois da Confederação do Equador e na época de glória do período algodoeiro do Nordeste. Parece distante, mas se pensarmos, é um pulo para os dias de hoje com a Coluna da Hora, o Cineteatro São Luiz, os artistas de rua e os moradores da famosa Praça do Ferreira.

O nome é por causa do Boticário Ferreira, que em 1871 revitalizou o espaço e a partir daí transformou o areal em um lugar para convivência. Já foi mercado, teve quiosques, foi ponto de encontro da Padaria Espiritual, foi palco do concurso de maior mentiroso, teve vaia ao Sol, movimentos revolucionários, partidários, feiras, peças, shows, encontros marcados na internet e se eu der trela presse meu pensamento, vou sair pesquisando e falando data por data sobre a Praça e aqui não é apanhado histórico, é contação de história. É sentir a história.

As praças, no centro da cidade de Fortaleza, são os primeiros pontos que se aprende quando se está começando a andar sozinha por lá.

– Menina, tu desce ali na Praça da Estação, caminha rumo à Praça do Ferreira pra comprar os panos pros vestidos. Depois tu pega ali como quem vai pelo calçadão C.Rolim e desce pra Praça do Leões pra ver se tu compra o dicionário que tu precisa.

– Bora marcar um café? A gente se encontra ali na Praça da Polícia. É que meu ônibus para depois da praça do Carmo, pertinho do Parque das Crianças, sabe? Aí vou andando até lá pra te encontrar.

Se você conseguiu se orientar nessas frases, você aprendeu a andar no centro que nem eu e que nem muita gente e deve ter, talvez, a mesma faixa etária.

Apesar de adorar todas as praças do centro da cidade de Fortaleza, a que mais me cativa é a do Ferreira. Já escrevi até um documentário que fala sobre o Seu Pirrita, engraxate que trabalha lá há anos e que viu mais coisa que muita gente por aí. O documentário saiu digno de uma aluna do 3º semestre de jornalismo que não manja muito de edição, ou seja, uma merda. Mas tá lá “Era uma vez na Praça do Ferreira” e conta as fases da bonita com todo o glamour que Fortaleza queria imitar dazoropa.

A última vez que fui por lá foi pouco antes de vir para a Bélgica. Comi um pastel no Leão do Sul, me pesei na Farmácia Osvaldo Cruz, sentei no banco em frente ao São Luiz e fiquei olhando o movimento. Os artistas, as pessoas apressadas, os vendedores de chip, de CD, os conversadores, os apostadores, os donos de quiosques e os moradores da praça. Famílias! A praça abraça essas pessoas que estão esquecidas pelo sistema.

Os bancos, muitos quebrados, servem de alento e cama para alguns, e às vezes é o colo que elas têm. Esses bancos, se memória tivessem, falariam de muitos feitos, glórias, honras e desonras cearenses, memória e história têm e elas são contadas e passadas por cada um que ali já repousou ou trabalhou por alguns instantes.

Jessika Sampaio

Curiosa, tagarela, viajante, feminista, caótica e contraditória. Ignorante sobre quase tudo e em constante aprendizado sobre o vazio da existência. Além de ser bicho humano, já atuei como jornalista, radialista, assessora de imprensa e de comunicação, coordenadora de comunicação e em lutas ambientais e LGBTQIA+. Em processo de aceitação da escritora que grita aqui dentro.

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