AGONIZA MAS NÃO MORRE_A PELEJA DA CULTURA SEM PRAIA_O TEATRO PERSISTENTE – Ackson Dantas

Samba,
Agoniza mas não morre,
Alguém sempre te socorre,
Antes do suspiro derradeiro…

 

Assim compôs Nelson Sargento em 1978, assim cantamos nós nos dias atuais! Nosso samba, nossa praia é a cultura, é o teatro e, antes do suspiro derradeiro, antes do socorro quase nunca ou infimamente vindo, vamos nós resistir!

 

Olho para o Teatro da Praia e seu incansável cultivador e logo imagino aquela vegetação rasteira que se ancora e é fundamental na fixação das dunas. São plantas adaptadas a situações extremas, à salinidade, à aridez, à força do vento, garantem a permanência da duna, evitam a locomoção dos grãos de areia, impedem o vazio da paisagem outrora preenchido na fotografia.

 

O tal retrato amarelado pelo tempo, mas intensamente vívido pela resistência do papel é um traço inequívoco de que somos órfãos de uma política de desenvolvimento cultural. É a imagem dos desbravadores da arte e da cultura cearense resistindo às intempéries de nossa geografia política.

 

A nossa cultura, e isso independe de gestões e partidos que ocuparam o governo, foi ao longo do tempo esvaecida pelo silêncio, pela inoperância e pelas falsas propostas. É bem verdade que algumas conquistas existiram no percurso, todavia pequenas para a grandeza de um estado que na cultura tem o esteio de sua formação.

 

Parte desse todo, o Teatro da Praia é primo-irmão dos casarões da cidade, da arquitetura dos prédios antigos do centro, das praças históricas, da biblioteca pública, das lagoas e seus arredores e de tantos outros espaços (físicos) que sofrem por inanição financeira e estrutural, além de e não menos importante, presença consciente da população, que quando ocupa não frui, apenas transita.

 

Fortaleza, falo especificamente da capital do Ceará, porque deveria ser a maior, mais representativa e exemplo para as demais cidades de investimentos público e privado para a cultura e arte do nosso estado. No entanto, o trem da história nos apresentou a incúria dos homens de paletó que de seus gabinetes pouco fizeram ou importaram-se. Deixaram as raízes ressequidas, preferiram a construção de prédios, calçadões, estacionamentos, supermercados, não que maquiavelicamente pensado, mas veladamente silenciado.

 

Antes que me acusem de ser démodé, apegado ao passado ou um antimoderno urbanista, afirmo que é necessário um diálogo entre os espaços urbanos, pois fundamental para um melhor desenvolvimento das cidades. Sofisticadas construções precisam dialogar com espaços verdes, com a arquitetura histórica, centros comerciais devem se estabelecer, mas não se deve abrir mão de parques e praças, ciclofaixas e pistas de aceleração maior para o fluxo do trânsito. Uma cidade saudável e sustentável é aquela onde as diversas formas coabitam em harmonia.

 

Para além dos espaços, há as pessoas que transitam e se nutrem destes e nestes lugares. Aos cearenses o estímulo à cultura e à arte foi e é negado cotidianamente. Perguntem a um passante na rua o que ele conhece de sua cultura e a provável resposta será um clichê mistificado apontando o forró, o baião-de-dois e o humor como suas representações. Claro que isso também faz parte do universo cultural cearense, mas em si repercute a superficialidade do reconhecimento de sua própria identidade e raiz. Poucos terão conhecimento ou apreço por artistas cearenses, experimentem perguntar aos passantes sobre Humberto Teixeira ou Fausto Nilo. Quem poderá falar sobre Carlos Câmara ou Ana Nogueira Batista? Henrique Jorge, Adísia Sá, as Dramistas de Guaramiranga, os Irmãos Aniceto…

 

Somos de um estado que não cultiva sua memória, desconhece o significado e a importância das pessoas e espaços existentes em nosso território. Nossa tradição é da negação ao patrimônio histórico cultural material e imaterial, talvez alguma parte do imaterial ainda tenha uma resistência, muito mais por conta de pequenos agrupamentos de povos que insistem em suas tradições do que propriamente por uma política, seja ela pública ou privada, de manutenção da cultura.

 

As escolas poderiam ser espaços de formação e estímulo à cultura e à arte dos cearenses, mas pouco fizeram até hoje. As secretarias de cultura no máximo propuseram insipientes ideias de formação de plateias,  e ainda assim descontinuadas com as mudanças de gestão. Em contrapartida as grandes mídias forjam seus artistas e ditam a formação cultural das pessoas. Claro, a identidade deve ser construída de maneira ampliada, ainda mais com o acesso ao mundo inteiro por meio da internet, é sensato crer que o mundo afete e contribua na construção social de cada um. No entanto e com a política de invisibilidade da cultura e arte local, há um desequilíbrio fortemente alimentado e que também prejudica o desenvolvimento de artistas, espaços e manifestações culturais locais.

 

Voltando à epopeia da cultura e da arte cearenses, agora adentrando no teatro. É notório que há e sempre houve um desleixo do poder público com as políticas de formação e difusão desta arte. É inadmissível, e isso ainda acontece nos dias atuais, artistas esperando meses a fio para receber um cachê, às vezes mísero. É insuportável a ideia de termos um teatro histórico, o São José, de portas fechadas, e pasmem, recentemente foi enfeitado para uma reinauguração fake. Olhamos para a cidade e observamos grupos brotando, ansiosos para mostrarem seus trabalhos, mas impedidos porque não há espaço. Melhor, há mínimos espaços abertos, descuidados e repletos de burocracia para suas utilizações.

 

Quando vejo os olhos embotados do Carri, falando de algo tão dele, quanto nosso, quanto da cidade, quanto da cultura cearense, me pergunto o que é possível fazer. O que falta a esta gente tão batalhadora, criativa e, nas últimas décadas com grandes avanços, tão amadurecida em termos de estética e qualidade artística?

 

Por que o teatro cearense agoniza, por que perambula pelos becos da cidade em busca de trocados, por que vive a amealhar espaços de apresentação, por que é miúdo seu público? Por quanto tempo mais teremos que nos fazer estas perguntas? Não tenho certeza, mas como diz a música — e peço licença a Nelson Sargento para parafrasear sua poesia: agoniza, mas não morre! Nem morrerá! Porque aqui sempre nascerá a bruta flor no mais árido terreno!

 

Ao Carri, ao Teatro da Praia, a todas e todos que nesta cidade e neste estado fazem desta arte sua forma de resistir, traduzir o mundo e ser feliz!

Ackson Dantas

Ackson Dantas é pedagogo e especialista em gestão escolar, neuroeducação e ensino de artes. Professor de pós-graduação em Neuropsicopedagogia e coordenador pedagógico. Arte-educador, ator, diretor teatral e poeta estreando sua primeira obra em 2019 intitulada “O Costurador de Mundos”.

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